Momentos de Loucura.

Penny Jordan.




Bianca n 176



Tamara no esperava viver grandes emoes durante aquelas frias no Caribe. Queria apenas descansar. Aventuras e sensaes violentas no faziam parte de sua vida.
Nem sonhava com elas. Por isso, a presena de Zach Fletcher deixou-a totalmente desnorteada. A sensualidade daquele homem chegava a ser agressiva. Qualquer garota
com um pingo de juzo fugiria dele. E Tamara se considerava muito ajuizada. Pelo menos, at o momento em que os dois se encontraram sozinhos em plena selva, perseguidos
por guerrilheiros terroristas, lutando pela vida. Ento, num momento louco, Tamara se esqueceu das convenes, de todos os preconceitos e at do noivo. E s se lembrou
de que era mulher!

Ttulo original: Escape From Desire.
Dados da edio: Abril S.A., So Paulo, 1983.
Gnero: romance.
Digitalizao: Fernando Jorge Alves Correia.
Correco: Edith Suli.
Estado da obra: corrigida.
Numerao de pgina: rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
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Copyright: Penny Jordan
Ttulo original: Escape From Desire
Publicado originalmente em 1982 pela
Mills Boon Ltd., Londres, Inglaterra
Traduo: Evelyn Kay Massaro
Copyright para a lngua Portuguesa: 1983 Abril S.A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi integralmente composta e impressa na Diviso Grfica da Editora Abril S.A.
Foto da capa: Abril Press



        CAPITULO I

        Tamara levantou-se vagarosamente, afastando uma mecha de cabelos da testa. Gostava de us-los curtos para aguentar o sol quente do Caribe. Olhou para o mar,
seus olhos frios e cinzentos assumindo a habitual expresso distante, quase tristonha, que j atrara muitos homens metidos a conquistadores. Mas eles logo acabavam
descobrindo que aquele ar gelado e composto no era s uma fachada.
        A leve brisa tropical trouxe o som de risos e conversas animadas. As piscinas estavam concorridas, mas ali, nos luxuriantes jardins do hotel na rea de turismo
da ilha de St. Stephen, havia tranquilidade para se saborear a beleza da paisagem.
        Tamara olhou para o relgio. Quase hora do almoo. Colocou de lado o livro, que lhe proporcionava mais uma proteo contra intrusos do que uma leitura interessante.
Esse era um dos problemas de estar passando as frias sozinha, mas no tinha tido outra opo. Sua amiga ficou doente no ltimo instante e Malcolm no pde vir com
ela.
        Malcolm! O sol brilhou no solitrio que usava na mo direita. O diamante era suficientemente grande para revelar seu valor, mas no exagerado a ponto de
poder ser considerado ostensivo. Uma escolha bem tpica de Malcolm. Tamara franziu a testa. O que estava acontecendo com ela? At agora, sentia-se perfeitamente
contente com Malcolm e seu noivado. Deu um suspiro, com ar pensativo. Talvez fosse por causa da atmosfera dessa ilha paradisaca, ou pelo fato de a maioria dos outros
hspedes ser de casais em lua-de-mel ou j com filhos criados, tentando reviver a magia dos primeiros tempos de seu amor. Havia vrias famlias tambm, mas podia-se
sentir uma letargia sensual que envolvia o hotel e que comeava a fazer efeito sobre Tamara, libertando dvidas e quebrando barreiras que antes nem imaginava que
existissem.
        Havia concordado em casar com Malcolm principalmente por sua solidez e falta de magnetismo sexual. Sensualidade seria a ltima coisa que procuraria num marido.
No mundo editorial em que circulava, trabalhando como secretria executiva numa editora pequena, mas de grande prestgio, j estava cansada de ver os resultados
de casamentos rpidos e impensados, em que duas pessoas que se declaravam perdidamente apaixonadas acabavam mudando de ideia depois de seis meses ou um ano. Isso
no era para ela. Queria o tipo de unio que seus pais tinham compartilhado. Seus pais... Suspirou de novo, lembrando-se do amor e da alegria que existiam nos primeiros
onze anos de sua vida e desapareceram naquele trgico instante em que um desastre de automvel deixou-a rf e aos cuidados da tia do seu pai, Lilian Forbes.
        Claro que tia Lilian tinha boas intenes, mas no era uma tarefa fcil enfrentar sozinha a responsabilidade de criar uma menina que talvez fosse um pouco
expansiva demais para seu gosto. Alm disso, era uma solteirona reprimida por uma educao  antiga, pouco acostumada a crianas, e no sabia demonstrar o tipo de
afeio espontnea que Tamara se acostumara a compartilhar com os pais. Por isso, logo Tamara aprendeu a ocultar, atrs de um sorriso frio e distante, o tumulto
emocional de crescer sentindo-se mal-amada e rejeitada.
        Pouco a pouco, sem nem mesmo perceber, adotou a mesma atitude desconfiada da tia sobre exibies de afeto fsico, o que acabou resultando no afastamento
dos rapazes, que a achavam fria e retrada e preferiam garotas mais abordveis, com isso reforando sua convico de que no exercia a menor atrao sobre os homens.
        Para compensar, seguiu uma carreira, enquanto as outras moas da cidadezinha casavam e tinham filhos. Agora, aos vinte e seis anos, se considerava imune
s emoes que a maioria das mulheres parecia possuir. Por isso, ficou bastante feliz em aceitar a proposta de Malcolm.
        No que o tivesse aceitado s para ter um marido. Londres estava muito longe de ser a sua cidade do interior, e sempre encontrava muitos homens interessados
em descobrir o que havia sob aquele seu
        exterior frio e distante. Porm, nunca conseguiu se libertar da profunda desconfiana que sentia por esses "sedutores", como a tia os chamava.
        At mesmo aprovara a atitude de Malcolm, levando-a para conhecer seus pais bem antes de pedi-la em casamento, para ser avaliada por eles antes de um compromisso
mais definitivo.
        O general e a sra. Mellors tinham sido gentis, mas Tamara logo percebeu que teriam preferido ver seu nico filho casado com algum de seu prprio nvel social.
E podia entender por qu. Apesar de ganhar bem e levar uma vida confortvel. Tamara no tinha os parentescos "certos" para agradar pessoas esnobes como eles, muito
convencidos de seu status de pequenos proprietrios rurais do sul da Inglaterra. Mais cedo ou mais tarde, Malcolm herdaria essas terras; mas, por enquanto, estava
satisfeito com sua firma de contabilidade, que lhe permitia manter um luxuoso apartamento em Londres e o automvel BMW comprado pouco antes do noivado.
        A vida com ele seria to calma como navegar num lago, e, de repente, pela primeira vez, Tamara imaginou se queria mesmo tanta placidez.
        Subitamente inquieta, levantou-se e comeou a andar pela praia em direo do hotel, uma moa alta e magra com um ar de "no-me-toque" que a envolvia como
uma aura protetora.
        Olhando para o mar, viu um dos casais que tinham vindo no mesmo voo que ela. Dois jovens de vinte e poucos anos, flagrantemente em viagem de npcias, brincavam
como crianas, jogando gua um no outro. O prazer que encontravam nisso foi como um gro de areia que riscou a superfcie polida da vida de Tamara, forando-a a
admitir que Malcolm e o casamento com ele no seriam o que seus pais desejariam para ela.
        O casal comeou a se beijar. Malcolm detestava demonstraes de afeto em pblico. Como seria sua lua-de-mel? Ele havia sugerido que fossem para o Algarve.
Seus pais tinham amigos que possuam uma casa de veraneio l e os campos de golfe eram excelentes.
        Era realmente isso que Tamara queria? Um marido que se dedicaria ao golfe, enquanto ela jogava cartas com as esposas de seus amigos?
        Dizendo a si mesma que estava sendo estupidamente emotiva, Tamara entrou no hotel para trocar de roupa para o almoo. A maioria dos hspedes no se importava
com isso, simplesmente comendo em trajes de banho nas lanchonetes  beira das piscinas, mas depois de uma manh passada sob o sol forte, coberta de leo de bronzear,
seu corpo pedia por um banho e um local cheio de sombra. Normalmente, apesar de sua pele clara, Tamara conseguia um bronzeado uniforme, mas nunca tinha estado to
perto do Equador e procurava tomar o mximo cuidado contra queimaduras.
        O hotel era muito atraente. Bangals para famlias grandes pontilhavam os gramados e rvores floridas proporcionavam reas sombreadas que convidavam ao descanso
e ao relaxamento. Tamara estava hospedada no hotel propriamente dito, num apartamento duplo que reservara ao imaginar que viria com a amiga.
        Esteve a ponto de desistir da viagem, porm Malcolm a encorajou, por saber que j fazia dois anos que no tirava frias, tendo usado todo seu tempo livre
para acompanhar a doena e os ltimos dias de vida da tia. Ele, por sua vez, estava ocupado demais para viajar com ela, adiantando os servios da firma para poder
tirar duas ou trs semanas de folga para a lua-de-mel.
        Tamara entrou no saguo, muito amplo e decorado com mveis de cana da ndia e grandes vasos cheios de folhagens. A recepcionista sorriu, quando pediu a chave
do apartamento. Todos os empregados eram extraordinariamente gentis e prestativos. Tambm sorriu para a moa e subiu rapidamente a escada.
        Por lei, nenhum prdio da ilha podia ter mais do que dois andares, e era agradvel ir  janela e ver que a nica coisa que obstrua a viso do Caribe era
um grupo de palmeiras que balanava suavemente  brisa.
        Ao tirar o maio, ficou satisfeita em descobrir que sua pele estava comeando a ficar dourada. Imaginou como ficaria com um dos biquinis que tinha visto na
vitrine da butique do hotel. Porm, nem sua tia nem Malcolm aprovavam trajes to ousados, e ela nunca usaria nada parecido. Seu maio azul-marinho, completamente
sem graa, comparado com as roupas coloridas usadas pelos outros hspedes, parecia sado do guarda-roupa de uma nadadora profissional.
        Ao sair do chuveiro, viu seu corpo nu refletido no espelho, os seios cheios mas firmes, os bicos rosados contrastando delicadamente com sua pele clara. Tentou
visualizar Malcolm como seu marido, os dois dividindo a intimidade de um quarto, mas seu pensamento recusou-se a formar o quadro. Irritada, tirou um vestido de algodo
do armrio, prendeu os cabelos num coque apertado e calou sapatos de lona, baixos e confortveis.
        O restaurante estava mais cheio do que imaginava. Comeou a se dirigir para as mesas menores, bem afastadas das grandes janelas que davam para o mar, de
modo que pudesse comer sozinha, sem ser notada pelos outros hspedes.
        Essa esperana foi frustrada assim que deu os primeiros passos. Uma mulher morena e gordinha chamou-a, com um sorriso amigvel.
        - Tamara! Venha ficar com a gente!
        Indicou uma das cadeiras vazias na mesa em que estava com o marido, e Tamara foi obrigada a aceitar o convite. George Partington deu-lhe o cardpio com uma
observao bem-humorada.
        George e Dot tinham estado no mesmo voo que ela e formavam um casal expansivo, pronto a fazer amizades; ao contrrio dela, passavam a maior parte do tempo
conversando com os outros hspedes.
        O hotel era relativamente novo e parecia ainda no ter sido descoberto pelas agncias de viagem para excurses em grupo. Em consequncia, s uma dzia de
pessoas o tinham como destino final da viagem desde o aeroporto de Londres.
        Havia o jovem casal em lua-de-mel, George e Dot, dois outros casais que pareciam ser amigos de longa data e estavam sempre juntos, duas moas, ela e um homem
que tambm viajava sozinho e que s tinha visto de relance no aeroporto.
        - Experimente o camaro e a salada de abacate - sugeriu Dot. Uma delcia! - Deu uma risada. - J estou aqui h alguns dias e ainda no me acostumei com a
ideia de ver os abacates crescendo na rvore. J viu como so lindos os abacateiros? - Seu olhar caiu sobre o anel de noivado de Tamara. - Voc est sozinha? - perguntou,
curiosa.
        - Estou.
        Sentia uma certa relutncia em falar de si mesma e ficou feliz quando a ateno da mulher foi desviada para um homem que acabava de entrar no restaurante.
        Vestindo cala e camisa pretas, parecia estranhamente deslocado num salo onde a maioria usava roupas alegremente coloridas.
        " diferente em outros aspectos tambm", pensou Tamara, incapaz de dizer o que havia nele que o fazia se sobressair. Cabelos espessos tocavam o colarinho
e clios muito negros escondiam seus olhos, enquanto falava com o chefe dos garons.
        - L est Zachary Fletcher - disse Dot, falando baixinho para George. - Convide-o para ficar conosco. - Depois, virando-se para Tamara, perguntou, com um
ar encantado: - Ele no  tremendamente sexy? - Enquanto George tentava chamar a ateno do homem, continuou: - Estivemos conversando com ele ontem  noite. Oh,
no nos viu! - exclamou, desapontada, quando o homem de preto comeou a se dirigir para as mesas pequenas do outro lado do salo.
        "Mesmo seu modo de andar  diferente", pensou Tamara, percebendo uma certa tenso, um estado de alerta no jeito como se movia, incrivelmente rpido e silencioso
para algum to alto e musculoso. Podia ver o contorno das costas poderosas sob o tecido fino da camisa e o brim preto das calas sendo forado pelas pernas atlticas.
Quando deu por si, Tamara estava prendendo a respirao, estudando as feies bem marcadas de um rosto impassvel, duro e cnico demais para um homem que devia ter
no mximo uns trinta e trs, trinta e quatro anos.
        Tremendamente sexy, tinha dito Dot. com uma onda de repulsa, Tamara teve que reconhecer que a mulher estava com a razo. O recm-chegado transpirava sensualidade.
No havia uma s hspede no salo que no desse um jeito de olh-lo disfaradamente. Tamara ficou enojada com esse interesse to vido, inclusive o seu, por algum
to claramente indiferente a todas elas.
        Enquanto ele fazia o pedido ao garom, Tamara notou que s vezes mexia o brao, como se sentisse um pouco de dor.
        - Ele est aqui para se recuperar de um acidente - contou Dot, acrescentando, num tom confidencial: -  do Exrcito... Oh, ele no nos disse nada, mas estava
ao nosso lado quando passamos pela alfndega e no pude deixar de ver seu passaporte.
        Tamara olhou novamente para o homem, convencida de que Dot devia ter visto mal. Ele no parecia do tipo que aceitaria a rgida disciplina militar, ao contrrio
do general Mellors, que fazia questo de demonstrar seu posto, adotando, sempre que possvel, uma posio quase de sentido. Os cabelos espessos e um tanto compridos
tambm no lembravam em nada os de um soldado.
        O homem levantou a cabea, pegando-a de surpresa. Seus olhos verdes e penetrantes a estudaram com uma devastadora intensidade, obrigando-a a se manter imvel,
olhando para ele, como se presa por um raio laser.
        Depois do almoo. Tamara acompanhou os Partington de volta ao saguo, parando com Dot para admirar a vitrine da butique.
        - D uma olhada naquele, biquini! - suspirou a mulher, apontando para uns pedacinhos de vera rosa-choque. - Ah, se eu tivesse um corpinho como o seu... Por
que no entra para experimentar? - Seus olhos brilhavam, quando acrescentou: - Faa um presente a voc mesma e ao seu noivo.
        - Oh, eu no poderia...
        - Claro que poderia! Venha, vamos entrar. George vai ficar lendo o jornal no saguo.
        Tamara viu-se sendo empurrada para dentro da butique e Dot falou com a vendedora que queriam ver o biquini exposto na vitrine.
        -  francs - explicou a moa. - A cor ficar perfeita com seu tom de pele. Aqui est, deve ser o seu tamanho. O provador fica logo ali, atrs daquela cortina.
        Apontou a direo, e Tamara comeou a andar com alguma relutncia, desejando ter tido foras para escapar dessa situao. No entanto, no poderia recusar
a sugesto de Dot sem mago-la e simpatizava demais com sua companheira de viagem para ser. grosseira.
        Enquanto tirava a roupa e vestia os tringulos rosa-choque, ouviu Dot explicando  vendedora que ela e George estavam comemorando as bodas de prata com essas
frias.
        - com nossos dois filhos j casados e encaminhados na vida, decidimos que teria que ser agora ou nunca... antes que os netos comecem a chegar.
        Depois de amarrar as tirinhas do suti, Tamara olhou-se no espelho. Sua pele brilhava como seda na meia-luz do provador. A parte de cima do biquini envolvia
seus seios firmes, o corte amoldando-os de tal forma que seu corpo pareceu tomar uma voluptuosidade que nunca havia notado.
        - Est pronta?
        Ela saiu do provador com passos hesitantes, sentindo-se estranha e desajeitada, desejando, pela primeira vez, no ser to alta. Tinha a impresso de estar
exibindo uma quantidade de carne quase indecente e quis estar com uma sada-de-praia ou algo parecido para lhe dar um pouco mais de proteo.
        - Tamara, voc est sensacional! - disse Dot, cheia de admirao. - Tem que comprar. Vai fazer o maior sucesso na praia com ele!
        - No acha um pouco... - Procurou pelas palavras para descrever suas dvidas, mas a outra a impediu de continuar.
        -  lindo. Voc deve ter orgulho do seu corpo, meu bem; no sentir vergonha dele. Espere at seu noivo a ver com isso!
        - Tenho certeza de que Malcolm no vai aprovar - disse Tamara, e ficou surpresa ao ver uma ruga surgir na testa de Dot.
        Quando a vendedora se afastou para atender o telefone, Dot falou, com firmeza:
        - Pode responder que no tenho nada com isso. Afinal, mal nos conhecemos. Mas costumo dizer sempre o que penso, e tem dado bons resultados. Esse seu noivado...
sua famlia est satisfeita com ele?
        Tamara foi apanhada de surpresa. No estava acostumada a ser interrogada com tanta franqueza e se irritou por hesitar um pouco, antes de responder, com frieza:
        - No tenho famlia. Pelo menos, ningum muito chegado. Meus pais so falecidos. Mas posso lhe garantir que no h o que desaprovar em Malcolm. De fato -
acrescentou, secamente -, muitos o consideram um excelente partido.
        - Eu no estava falando no sentido material, meu bem - explicou Dot, ignorando a tentativa de distanciamento de Tamara. - Tive a impresso, pela sua atitude
e pelo modo como falou, de que ele no  o tipo de homem que teria prazer em ver o seu corpo. Pensei que essa ideia em relao ao sexo j tivesse desaparecido h
muito tempo.
        - O fato de Malcolm no ser um manaco sexual no significa que no poderemos ser felizes juntos.
        Dot balanou a cabea, perplexa, como se no acreditasse no que acabava de ouvir.
        - Oh, querida! - disse, afinal, com uma pontinha de tristeza. -
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        Espero que saiba o que est fazendo. Parece que vocs esto jogando fora um dos maiores prazeres da vida. As coisas eram bem diferentes quando conheci George;
no
        havia toda a liberdade de hoje em dia. Mas, desde o incio, no tive dvida de que tambm o desejava fisicamente. Oua meu conselho, meu bem, falo com a
voz da experincia: o casamento sem um forte desejo sexual pode ser uma coisa muito rida. Desculpe-me por usar tanta franqueza, posso notar que a ofendi, mas voc
me faz lembrar muito da minha filha e...
        - Est tudo bem - disse Tamara, abrandando seu tom, ao perceber uma nota de angstia nas palavras de Dot. - Acho que me mostrei um pouco sensvel demais,
mas tenho certeza de que eu e Malcolm seremos felizes. Sabe... - Hesitou e depois continuou, reunindo toda coragem: - Bem, para ser sincera, Dot, acho que no tenho
muito... impulso sexual. De fato... - Parou, desejando no ter iniciado aquela conversa, percebendo que era a primeira vez que revelava coisas to ntimas sobre
si mesma... e a uma estranha.
        - No diga mais nada - pedia Dot, cheia de compreenso. Acho que sei o que est nessa cabecinha, Tamara, mas acredite-me: aposto que est errada. - Voc
s no encontrou o homem certo. Quando o conhecer, vai descobrir um lado seu que nunca imaginou existir. E ele, se tiver um pingo de juzo, ficar encantado em ajud-la
a fazer desabrochar sua verdadeira sensualidade.
        Tamara estremeceu, subitamente consciente de que estava parada no meio da loja, usando aquele minsculo biquini.
        - Compre-o - insistiu Dot. - D o primeiro passo no caminho para descobrir voc mesma.
        Quis recusar, e estava decidida a faz-lo, mas, quinze minutos depois, saa da butique com a sacola de plstico preto com letras douradas, ainda perguntando
a si mesma o que lhe dera na cabea para fazer essa compra.
        George esperava por elas perto do quadro de avisos do hotel, onde ficavam afixados os anncios de excurses e atividades programadas para os hspedes.
        - Isso parece interessante - disse ele, mostrando um dos papis, com o ttulo: "Passeio a p pela floresta".
        Tamara leu os detalhes: o hotel organizara um passeio pela floresta tropical que comeava nas encostas vulcnicas das montanhas da ilha.
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        - O gerente me disse que vale a pena - explicou George. Sairemos daqui l pelas dez e meia e o almoo ser servido num restaurante bem no meio da mata. Essa
parte da selva tem trilhas para excursionistas, e seremos acompanhados por um guia. Teremos oportunidade de ver borboletas raras e muitos pssaros, papagaios e periquitos,
principalmente.
        - No estou gostando muito da ideia - disse Dot, com uma careta. - O lugar deve ser cheio de cobras.
        - No. J me disseram que no h cobras na ilha.
        Tamara ficou tentada a se inscrever. Depois de passar trs dias deitada ao sol, estava pronta a enfrentar um pouco de exerccio. Todas as outras opes de
passeios ofereciam cruzeiros de barco ou visitas a praias afastadas.
        - Acho que vou - anunciou aos amigos. - Quando vai ser?
        - Amanh - disse George. - Que tal, Dot? Vamos nos inscrever tambm?
        - Hum... sim, est bem. Ser uma novidade.
        - vou levar a mquina e tirar fotografias de mame explorando a selva. O pessoal l de casa vai gostar.
        Depois dos trs darem seus nomes, Dot pediu para ver a lista dos que iriam. No era muito grande.
        - Sr. e sra. Sommerfield... ah, sim, aquele casal em lua-de-mel
        - leu em voz alta. - Os Browne e os Chalfont... so aqueles quatro que vieram conosco. Lidam todos com alta costura - explicou, virando-se para Tamara. -
Alex Browne
 o desenhista. Continuou a ler. - Oh, parece que foi combinado: iremos todos que viemos juntos de Londres. Veja, Zachary Fletcher tambm se inscreveu. E
foi o primeiro.
        - Talvez esteja precisando de exerccio por causa do acidente sugeriu George. - Quando descemos do avio, notei que mancava um pouco.
        Zachary Fletcher! Tamara arrependeu-se de se inscrever antes de consultar a lista. Estranhamente, aquele homem a perturbava. Dizendo a si mesma que ficaria
esquisito desistir agora, contentou-se com a convico de que ele nem ia not-la. Depois imaginou por que teria ficado um pouco deprimida com esse pensamento.
        - Acho que vou subir para trocar de roupa - disse aos
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        Partington. -  melhor aproveitar o sol para me bronzear mais um pouco. Amanh no haver tempo para a praia.
        - Use o biquini novo. - Dot acenou-lhe, enquanto se afastava. -- Ns ruos veremos mais tarde.
        Ao entrar no quarto, Tamara no tinha a mnima inteno de usar o biquini, mas no resistiu  tentao de tir-lo da sacola, como se quisesse realmente ter
certeza de que o comprara. Num impulso, resolveu vesti-lo. No podia nem imaginar qual seria a reao de Malcolm, se a visse com ele. Depois de se olhar no espelho
com um ar cheio de dvida, decidiu que, se no quisesse desperdiar o dinheiro gasto, era melhor us-lo ali em St. Stephen, onde estava longe do noivo e no chamaria
ateno entre outras moas to pouco vestidas como ela.
        Antes que perdesse a coragem e mudasse de ideia, vestiu a sada-de-banho, pegou a sacola, os culos escuros e o livro, e saiu rapidamente.
        O sol estava to quente que parecia queimar sua pele por cima do tecido da sada-de-praia, e Tamara decidiu deixar a praia para mais tarde, preferindo ficar
nos jardins. Escolheu um lugar protegido por uma sebe de arbustos floridos, cheios de flores vermelhas, quase perfeitas demais para serem reais. Estendeu a toalha
na grama, passou leo de bronzear no corpo e pegou o livro.
        Depois de meia hora, a histria no conseguiu mais prender sua ateno. Comeou a seguir os movimentos de um beija-flor, admirando a energia da criaturinha
em sua procura por comida.
        Virou-se de costas, relaxando os ombros enrijecidos, mas tornou a ficar tensa instintivamente, quando viu as pernas de um homem  sua frente. Ergueu lentamente
o olhar, acompanhando coxas firmes e masculinas e um peito forte, antes de fix-los no rosto inclinado para ela.
        Seu rosto ficou quente de embarao, enquanto o homem a examinava, com um olhar cnico.
        - Muito provocante, mas  pena estar escondida aqui - disse ele, baixinho, como se caoasse. - Por que no est na praia?
        Tamara encontrou a voz que, para seu pesar, estava trmula por causa da sua raiva contida.
        - Se quer mesmo saber, vim para c porque quero...
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        - Ficar sozinha - ele terminou, com zombaria. - E agora, o que vamos fazer? Se nos virem aqui, poderemos nos tornar alvo de fofocas muito interessantes...
        Tamara levantou-se de um salto, sentindo-se em desvantagem por estar ali, deitada, como... como uma oferenda num sacrifcio.
        - Se quer ficar sozinho, sr. Fletcher - respondeu, enfatizando a formalidade -, sugiro que procure outro lugar. Os jardins so muito grandes e...
        - Gosto daqui - disse ele, calmamente. -  tranquilo e reservado. - Seus dentes brilharam num sorriso bonito, dando a Tamara uma rpida viso do homem que
ele devia ser, quando no estava entediado ou indiferente. - Seja boazinha e v para a praia. Estou certo de que l encontrar muitos rapazes para admir-la. Eu
j passei da idade de ter ideias maliciosas s ao ver uma moa bonita com pouca roupa.
        Enquanto ele falava, os olhos de Tamara iam se arregalando e seu corpo se enrijecendo. Mal conseguiu falar, de tanta raiva.
        - No sei o que est querendo insinuar - disse, afinal, rangendo os dentes e com os punhos cerrados. - Mas se acha que vim para c porque sabia que o senhor...
que o senhor costumava ficar aqui, no podia estar mais enganado. - Mudando de tom, mostrou o anel de brilhante na mo direita. - V? No preciso correr atrs de
homens. J arranjei o meu!
        Sabia que era uma coisa vulgar de dizer, mas no se incomodou. Estava furiosa com o atrevimento daquele momento e dos seus olhos verdes, que a examinavam
como a uma mercadoria numa loja.
        - No tinha ideia de que o senhor viria para c - terminou, com uma expresso de dignidade ofendida. - Se soubesse, seria a primeira a evit-lo.
        -  mesmo? - Seu olhar caiu sobre o anel. - Tem certeza? Muitas moas fazem coisas estranhas quando esto... longe dos noivos.
        - Pelo que vejo, o senhor  perito em ter casos baratos com as namoradas de outros homens, no ? Pode ficar tranquilo: estou longe do meu noivo, mas no
sou nenhuma depravada. No vou lhe criar problemas.
        - Ah, no seria um problema, mas um prazer. - Falou com uma
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        calma que a deixou ainda mais louca de raiva. Seu olhar parecia acariciar o corpo de Tamara. - S que prefiro ser o caador acrescentou, fazendo a raiva
dela se transformar num dio que a deixou trmula. - Agora, seja boazinha e v procurar outra pessoa para brincar, est bem?
        Quando Tamara entrou no quarto, deu vazo  fria, atirando a sacola no cho e arrancando o biquini que, estava certa, tinha sido a causa de todos aqueles
insultos. Como Zachary Fletcher se atrevia? com que direito a olhara daquele jeito? Como tinha coragem de insinuar que...
        com o rosto vermelho de raiva e humilhao, entrou no chuveiro e esfregou-se vigorosamente, como querendo punir seu corpo por ter atrado aquele atrevido.
Mesmo que estivesse interessada em homens, nunca, nem em um milho de anos, correria atrs de algum como ele. Nunca.
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        CAPITULO II

        Eram dez e quinze, quando Tamara entrou no saguo para se juntar ao grupo que esperava o guia para lev-los ao passeio pela floresta.
        A primeira pessoa que viu foi Zachary Fletcher, mas ignorou-o de propsito, indo juntar-se a Dot e George, que conversavam com o quarteto que trabalhava
com alta
        costura.
        - E ento, est entusiasmada? - perguntou Dot, e logo que ouviu a resposta afirmativa, acrescentou, curiosa: - A propsito, o que houve com voc ontem 
noite? Procurei-a por todos os cantos e no a vi.
        - Jantei no quarto. Estava com dor de cabea. Acho que foi por causa do sol - mentiu Tamara, pois s no havia descido para evitar se encontrar com Zachary
Fletcher
        e ouvir possveis insinuaes de que estava  procura de aventuras. Continuava furiosa com ele. Nem mesmo o telefonema de Malcolm tinha conseguido aplacar
seu ressentimento
        por aquele grosseiro.
        - Mas voc est com um timo aspecto agora - disse Dot, admirando as roupas de Tamara, um jeans verde-oliva, combinando com uma camiseta listrada em tons
de ferrugem, branco e o mesmo oliva da cala.
        Tamara deu um sorriso e ajeitou a sacola no ombro. Era grande, de lona, combinando com a cor de sua roupa. Dentro dela, entre muitas outras coisas, levava
um camiso de mangas compridas. Comprara o conjunto especialmente para as frias. Malcolm detestava mulheres de jeans; por isso, no tinha nenhum.
        Dot apresentou-a ao alegre quarteto com o qual conversava. Alex, o
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        desenhista de moda, era magro e louro; sua mulher, Sue, estava vestida com roupas largas e modernas, com um grande cinturo de couro marcando a cintura fina.
        Seus amigos, Heather e Rick Chalfont, eram tambm seus scios no ateli de alta costura, mas cuidavam da parte financeira, segundo explicaram.
        .- No se sente um pouco solitria viajando sozinha? - perguntou Sue.
        - No. Vim para descansar...
        Dot tinha se virado para falar com Zachary Fletcher e Tamara no pde deixar de notar seu rosto magro e irnico, e a expresso de zombaria nos seus olhos
verdes que a fez ficar corada.
        - Oh, sim, o lugar aqui  perfeito para isso - concordou Heather, com um sorriso simptico. - Imagino que esteja fazendo preparativos para o casamento -
acrescentou, indicando o anel de Tamara. - O grande dia est perto?
        - Ainda no resolvemos. Malcolm, meu noivo, tem que ir a Nova York para cuidar de negcios e no sabe quanto tempo vai demorar l. Quando voltar, marcaremos
a data definitiva.
        - Ele no parece um noivo muito ansioso - disse Zachary Fletcher, num tom arrastado, juntando-se  conversa.
        Tamara ficou ainda mais vermelha e quis dizer-lhe que estava completamente errado e que Malcolm simplesmente no era o tipo de homem que fazia nada depressa.
        - Hoje em dia,  difcil carregarmos nossos, homens para o altar.
        - Sue riu. -  nisso que d a igualdade dos sexos. Tambm, com toda essa liberdade de agora, ningum tem tanta pressa em casar.  muito melhor assim, no
acha? - perguntou, dirigindo-se a Tamara.
        - Nem posso imaginar como era antigamente, quando as moas no tinham a menor intimidade com os namorados.
        - Sim - concordou a moa num tom sem expresso, esperando que seu rosto no a estivesse denunciando. Como poderia admitir, em frente de todos, e principalmente
de Zachary Fletcher, que sua experincia sexual, mesmo com Malcolm, era praticamente nula?
        Oh, tinha havido carcias tentadoras quando era adolescente, mas sua timidez e as palestras severas de tia Lilian sobre o assunto
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        reprimiram qualquer desejo natural de experimentar. Depois,  medida que os anos passavam, Tamara ficou com vergonha de confessar a verdade. Nem mesmo Malcolm
sabia que ela ainda era virgem.
        Esse pensamento deixou-a ainda mais irritada eom as insinuaes de Zachary Fletcher na tarde anterior.
        Quando Dot chamou Sue para ver alguma coisa, Tamara, horrorizada, viu-se sozinha com Zach, parecendo ainda mais intenso e masculino do que antes. Dessa vez,
usava uma camisa de algodo azul de mangas compridas.
        - Espero que no v me acusar de me inscrever nesse passeio s para ficar perto de voc - falou em voz baixa, tentando parecer fria e desaforada.
        - No. - As rugas do rosto se acentuaram, quando ele sorriu. Se bem que no pudesse ser considerado um paranico, se pensasse isso. Afinal, fui o primeiro
a pr o nome na lista. Voc gosta de andar?
        No parecia muito interessado numa resposta, mas Tamara, querendo demonstrar que no se intimidava, respondeu, educadamente:
        - Sim, gosto muito. Fui criada no campo e...
        - Nossa excurso no ser nenhum passeio pelas campinas da Inglaterra. Os morros so bastante ngremes, e creio que encontraremos trechos de floresta bem
densos.
        - Est tentando nos desanimar? - brincou George, vindo juntar-se a eles.
        - Nada disso. Devo ter dado a impresso errada. Para falar a verdade, se soubesse que o passeio era cansativo demais, no teria me inscrito. - Zachary tocou
a perna esquerda enquanto falava e Tamara lembrou-se do comentrio de George sobre t-lo visto mancando um pouco. - Estive envolvido num... acidente - acrescentou
ele, num tom tenso, percebendo a pergunta nos olhos do outro homem. - Vim para c para terminar de me recuperar e comear a fazer exerccios leves para entrar em
forma e voltar s minhas atividades normais.
        - Voc  do Exrcito, no? - sondou George.
        - Sou.
        A palavra saiu sem a mnima expresso, mas Tamara estava
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        olhando para seu rosto enquanto ele falava e ficou surpresa ao v-lo modificar-se visivelmente, fechando e endurecendo, uma sombra escura toldando os olhos
verdes.
        Por que uma pergunta inocente e normal como aquela despertava essa reao?
        .- Parece que nosso transporte chegou - comentou George, apontando para a entrada do hotel, onde estavam estacionando duas peruas Land Rover, com toldos
de lona
        em vez de capotas.
        - Todos prontos?
        Sim, estavam todos prontos. O quarteto entrou no primeiro veculo, seguido pelo casal em lua-de-mel. Tamara ia sentar-se ao lado deles, quando o guia a impediu.
        - A senhorita vai no de trs. Tenho que ir aqui, ao lado do motorista.
        Foi obrigada a se reunir a Dot e George, seu corao batendo
        desconfortavelmente, quando Zachary Fletcher deslizou o corpo alto e forte no lugar a seu lado. Pensou
        em se encolher no canto, mas isso daria muito na vista.
        O guia gritou alguma coisa para os motoristas e eles partiram.
        A estrada que saa do hotel era plana e bem asfaltada, mas, assim que foram se afastando da praia, comearam a percorrer estradinhas secundrias, muito mal
conservadas. Quando a perua passou num buraco, Tamara foi atirada contra Zachary. Foi como bater em cheio numa parede de ao, pensou, ofegante, enquanto o brao
forte a envolvia para ampar-la. Ficou apertada contra os msculos firmes daquele peito viril durante alguns segundos... os mais longos de sua vida. O calor daquele
corpo pareceu atravessar o tecido fino de sua roupa, deixando uma marca escaldante na pele. Ficou muito vermelha ao perceber que, se havia sentido os msculos de
Zachary Fletcher, ele tambm devia ter sentido a maciez de seus seios.
        - Tamara, tudo bem com voc?
        A pergunta ansiosa de Dot cortou seus pensamentos.
        - Sim - falou, com alguma dificuldade, acrescentando, formalmente: - Obrigada, sr. Fletcher. Esse solavanco me pegou desprevenida.
        Havia algo definitivamente enigmtico no modo como ele a olhou.
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        - Isso acontece com todo mundo. E, por favor, me chame de Zach, Tamara.
        - Oh, olhem s essa vista! - exclamou Dot, apontando para a direita. - J esteve no Caribe antes, Zach?
        - No.
        Todos eles olharam para a direita, onde o terreno descia numa escarpa ngreme, at se encontrar com o mar. A gua cristalina comeava verde perto da praia,
depois ia tomando diferentes tons de azul.
        - Que lindo! - Dot suspirou.
        - Mas muito pobre - lembrou George. - Ainda no me conformei com a pobreza em que vivem os moradores da ilha.  preciso se vir para c para entender o interesse
que os movimentos comunistas tm para essas pessoas.
        - Voc tem razo - disse Zach. - J h grupos de esquerda muito fortes em todas as ilhas do Caribe. Seus membros so educados e treinados em Cuba. A no
ser que os pases ricos do ocidente comecem a fazer alguma coisa para acabar com toda essa misria, qualquer dia vamos acordar e descobrir que perdemos o Caribe
para Castro.
        - Ah, nada de poltica, por favor! - protestou Dot. - No vamos estragar nossas frias. Tamara, olhe s para aquela casa no alto do morro! Parece um forte.
        A plancie que separava a costa da floresta era cheia de plantaes de banana, a principal riqueza da ilha. Depois de algum tempo, a novidade de ver os cachos
de frutas comeou a diminuir. Enquanto se dirigiam para seu destino, Tamara percebeu uma certa tenso crescente no homem sentado a seu lado. No havia nada em sua
atitude relaxada que denunciasse alguma emoo. Mantinha o rosto virado, como se estudasse as montanhas que se aproximavam, de modo que ela s podia ver a linha
firme do seu queixo e os cabelos escuros que cobriam a nuca. Porm, a aura de tenso que o envolvia era quase palpvel. Sentiu suas mos nervosas estremecendo, numa
resposta primitiva, e imaginou o que podia estar acontecendo de errado.
        - Aquele deve ser o restaurante! - comentou Dot, quando surgiu
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        um prdio solitrio no ponto da plancie onde as montanhas vulcnicas comeavam a subir para o cu, as encostas cobertas por uma espessa mata tropical.
        A plancie em si parecia quase deserta naquela regio, s mostrando algumas estradinhas de terra, pouco mais do que trilhas, que deviam levar a vilarejos
ou casas que no conseguiam avistar.
        - A maioria dos donos de plantaes construa suas casas no lado atlntico da ilha - explicou Zach, quando Tamara comentou sobre a falta de habitaes naquela
rea. - Era considerado mais saudvel... e mais protegido do ataque de piratas.
        Seu rosto pareceu relaxar um pouco, ao falar com ela. A linha do queixo perdeu a rigidez. Logo depois, os dois veculos comeavam a subida, na direo do
restaurante.
        Era um casaro de madeira pintado de verde. Dentro, apesar dos ventiladores de teto, o ar estava pesado e pegajoso. Tamara nunca sentiu to pouco apetite,
e, enquanto os outros membros do grupo se acomodavam nas mesas, voltou para a varanda, bem mais fresca.
        - Sem fome?
        No tinha percebido que Zach Fletcher a seguira e sacudiu a cabea numa resposta muda, no querendo confessar que ficara um pouco tonta dentro do salo.
        - Nem eu.
        A resposta a surpreendeu e sua expresso denunciou o que sentia.
        - O que foi? - perguntou ele, sombrio. - Brutos insensveis como eu no podem ter as reaes normais de outras pessoas?
        - Eu no disse... - comeou Tamara, em autodefesa, mas ele a interrompeu.
        - No, no disse. No precisa falar; esses seus olhos falam por voc. Uma estranha contradio, sabe? Por um lado, temos uma jovem mulher moderna e liberada,
atravessando o oceano sozinha para uma viagem de frias longe do... noivo. No entanto, esses seus olhos poderiam pertencer a uma novia de convento, sem a mnima
ideia dos hbitos e costumes de hoje em dia.
        - Se me der licena, resolvi que  melhor comer alguma coisa disse Tamara, afastando-se.
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        Porm, ao se ver dentro do restaurante, no conseguiu mais do que tomar um copo de suco de laranja e experimentar uma salada.
        J eram mais de duas horas, quando o guia tomou a frente do grupo, comeando a conduzi-lo por uma das trilhas que saam do ptio do restaurante.
        Meia hora depois, Tamara j estava molhada de suor e no era a nica. Todos pareciam sofrer os efeitos do calor e da umidade. A camisa de Zach mostrava uma
mancha escura na frente e nas costas, mas, ao contrrio dos outros homens, continuava com ela fechada nos punhos e no pescoo. Talvez fosse por vaidade, por achar
que assim ficava mais atraente, pensou ela, mas logo afastou essa ideia boba. Ek era o tipo de homem que no precisava de roupas dramticas para chamar ateno.
Mesmo que estivesse de bermuda e camisa larga e florida como a maioria dos turistas, no teria que fazer o
        mnimo esforo para ser o alvo dos olhares das mulheres.
 medida que se aprofundavam na mata, a vegetao ficava mais espessa. O sol mal conseguia atravessar a folhagem. Ainda assim,
        o calor era insuportvel. O guia apontava
        orqudeas crescendo em seu habitat natural, e uma ou duas vezes viram bandos de papagaios passando por cima deles. Cruzaram um riacho, deliciando-se err
molhar as mos na gua fresca, e o rapaz explicou que havia vrios riachos cruzando a floresta, formando cascatas maravilhosas em certos lugares ainda muito afastados
da civilizao.
        Tamara arrependeu-se da sua deciso de participar da excurso. Havia algo de opressivo e pouco saudvel naquela mata, onde a vegetao cada no cho apodrecia
com um cheiro pesado e enjoativo.
        Andando quase sempre lado a lado com ela, Zach acompanhava o grupo aparentemente sem problemas, apesar de estar se recuperando de um acidente, como tinha
dito. Mas, a certa altura, quando o guia os mandou parar para um breve descanso. Tamara virou-se bruscamente, ao ouvir um gritinho de Sue, que acabara de descobrir
um lagarto, e viu-o empalidecer, apertando a coxa.
        - Voc est bem? - A pergunta impulsiva, feita em tom baixo, pareceu libert-la do que estava sentindo, porque, de repente, seu rosto voltou a ficar relaxado.
        - Claro - respondeu, com um sorriso. ;
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        Ao todo, andaram umas duas horas. Tamara ia se sentindo cada vez mais deprimida com a atmosfera estranha e irreal  sua volta. Tinha a impresso de estar
percorrendo
        uma daquelas florestas encantadas dos contos de fadas de sua infncia, e experimentava um misto de medo e fascinao.
        A trilha ficava cada vez mais estreita, s vezes obrigando-os a andarem em fila indiana. De repente, como prometido no folheto da excurso, desabou uma pancada
de chuva tropical, a gua caindo em lenis que conseguiam penetrar com facilidade a mata espessa. O guia, que tinha vindo preparado, distribuiu guarda-chuvas para
cada par de turistas.
        Tamara ficou com Zach e maravilhou-se com a rapidez com que a pancada comeou e parou.
        - A gente se acostuma - disse ele, lacnico.
        - Voc falou que nunca tinha estado no Caribe. - Olhou-o, surpresa.
        -E  verdade, mas todas as selvas so parecidas.
        Zach no disse mais nada a ela teve certeza de que no queria mais tocar no assunto. Novamente, desejou no ter ido quele passeio. Como os outros excursionistas
estavam em pares e os dois, desacompanhados, acabaram se juntando pelas circunstncias. No estava gostando da floresta e gostava muito menos das sensaes de formigamento
que estremeciam seus nervos, todas as vezes que um movimento inadvertido a colacava em contato fsico com Zach Fletcher.
        Ele olhou para o relgio e franziu a testa.
        - J devamos estar voltando. Aqui nos trpicos a noite cai muito depressa. No h o crepsculo longo a que estamos acostumados em casa.
        Adiantou-se alguns passos e pegou o guia pelo brao, falando com ele. O homem balanou a cabea com veemncia.
        - Ainda no. - Logo, mas agora no. Falta pouco - acrescentou, com ares de um comandante dando ordens a um batalho cansado.
        - Que "pouco"  esse que falta? - perguntou Sue, com um gemido, depois de quinze minutos. - Estou arrebentada!
        Tamara s pde concordar. Sentia-se acalorada e com a pele pegajosa, e no via a hora de entrar embaixo de um chuveiro.
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        Tambm comeava a lamentar no ter se alimentado melhor no almoo. Seu estmago reclamava, e, apesar de ter alguns biscoitos na sacola, no se atrevia a
com-los com a boca to seca.
        O guia prometera que logo chegariam a um local onde encontrariam lanches e refrescos, mas,  medida que os minutos passavam, a floresta parecia cada vez
mais espessa. Todos os outros tambm estavam exaustos, com exceo de Zach que, apesar da camisa empapada de suor, ainda caminhava com facilidade, acompanhando sem
protestos o ritmo do guia.
        Finalmente, chegaram a uma clareira onde havia um tronco cado. O grupo parou, com gemidos de alvio, embora o guia parecesse um pouco nervoso. Tamara surpeendeu-o
olhando em volta, apreensivo, como se procurasse por alguma coisa. Zach aproximou-se dela.
        - Tudo bem? - Ele tambm estava observando o guia, mas disfarou a inquietao e perguntou, num tom agradvel: - Pronta para a viagem de volta? Dentro de
uns dez minutos, encontraremos as peruas  nossa espera e...
        Parou subitamente, quando a clareira foi invadida por meia dzia de homens vestindo roupas camufladas e armados com metralhadoras.
        Tamara ouviu-o dizer um palavro abafado, e logo o grupo estava sendo reunido no centro da clareira, como gado. Sentiu o cano frio de uma arma no pescoo,
quando tropeou numa raiz exposta.
        - O que significa isso? - Zach dirigiu-se ao homem que, obviamente, liderava o bando. Pareceu natural ele assumir o comando e ningum fez qualquer meno
de contestar sua autoridade.
        Fazendo um sinal com a metralhadora para ficarem quietos, o chefe deu um passo  frente, enquanto seus homens ameaavam os turistas confusos e apavorados.
        - Vocs sero nossos refns at o governo desta ilha libertar nossos companheiros que foram injustamente presos h seis meses disse o homem, num ingls excelente.
- J  hora de o resto do mundo saber o que est acontecendo no Caribe. Estamos cansados do capitalismo incompetente e de governos que permitem que o povo morra
de fome, que se recusam a educar nossos filhos adequadamente, que nos condenam a uma vida de pobreza e degradao.
        - Manter-nos como refns no vai alterar nada - disse-lhe Zach.
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        - Se nos libertar agora, prometo que faremos tudo para levar suas
        reivindicaes ao seu governo e  opinio pblica.
        Nenhum deles moveu um msculo. Tamara no podia acreditar que
        tudo aquilo estava realmente acontecendo. Olhou em volta,
        procurando pelo guia, mas no o encontrou. Dot agarrava o brao de
        George, plida e assustada. O casalzinho em lua-de-mel estava
        abraado e Sue e Heather se apoiavam nos maridos. Sentiu-se ainda
        mais desamparada.
        - No, meu amigo, precisamos demais de vocs para solt-los. -
        o guerrilheiro deu uma risadinha cheia de desdm. - S assim o
        governo libertar nossos companheiros. No temos tempo a perder
        com conversa fiada. Eles sero fuzilados sem piedade. Vamos, temos
        quatro horas de marcha  nossa frente. Quando o hotel der pela falta
        de vocs, j estaremos bem longe e ningum conseguir nos
        encontrar. Poucos conhecem essa floresta como o Kennedy aqui
        - terminou com um aceno de cabea para um dos homens que
        apontavam as metralhadoras.
        com o canto do olho, Tamara viu Heather apoiar-se no marido,
        Branca feito papel.
        - Oh, Deus, nos ajude - gemeu baixinho. - O que vamos fazer, Chris?
        Suas palavras pareceram dar vazo a uma onda de pnico que envolveu a todos. Apesar do calor, Tamara sentiu um arrepio gelado
        pela espinha. S Zach continuava
        frio e controlado diante daquela situao inacreditvel.
        - Vamos - ordenou o lder. -  hora de partirmos.
        - Voc vai se arrepender! - Alex Browne protestou, numa voz
        tensa. - O governo ingls...
        - O governo ingls est a milhares de quilmetros daqui -
        caoou o guerrilheiro. - J se foi o tempo em que naes se arriscavam a entrar em conflito por causa do bem-estar de seus sditos. Seu maravilhoso governo
no
        vai fazer nada.
        - Veremos! Vocs vo se dar muito mal! - explodiu George. Seu rosto estava arroxeado, doentio. Dot bateu-lhe no ombro, tentando acalm-lo, balanando a cabea
de
        um modo muito preocupado.
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        -  a presso alta - murmurou para Tamara, acrescentando, apavorada: - Santo Deus, o que vai nos acontecer?
        Zach dirigiu-se novamente ao lder.
        - Voc no pode esperar que acompanhemos o passo dos seus homens. Se pretende nos manter como refns, vai ter que cuidar do nosso bem-estar. Seu governo
nunca trocar seus companheiros por cadveres. Aquele homem est doente e as mulheres esto exaustas.
        O guerrilheiro franziu a testa, como avaliando as palavras de Zach; depois virou-se e falou alguma coisa no dialeto da ilha para um dos companheiros, que
encolheu os ombros e fez uma careta.
        - No podemos perder tempo - disse a Zach.
        - E tambm no podem se dar o luxo de arriscar nossas vidas. No ser mais simples levar s um refm e liberar o resto? Em troca, daremos a garantia de que
suas reivindicaes chegaro aos jornais ingleses. Assim, sua causa ter muito mais publicidade e seu governo no poder simplesmente alegar que um grupo de turistas
foi atacado por bandidos.
        Tamara prendeu a respirao, enquanto o lder consultava seus homens. E se aceitassem a sugesto de Zach? No tinha dvidas de que ele se ofereceria para
ser o refm. Sim, pela sua atitude, pelo seu poder de comando, devia ser mesmo do Exrcito. Estava curiosa, mas no podia perguntar agora.
        O sol comeava a descer no horizonte. O medo era uma emoo quase tangvel, enquanto esperavam pela deciso do chefe guerrilheiro.
        - Voc - disse o homem, virando-se para Zach. - Tenho sua palavra de que haver muita publicidade para a nossa causa?
        - Bem que dizem que a pena  mais poderosa do que a espada murmurou Zach para Tamara, num tom irnico. Depois, indicando George, falou em voz alta para o
lder: - O sr. Partington informar o que aconteceu ao cnsul britnico, explicando que vocs aceitaram nosso acordo: ficarem s com um de ns em troca de publicidade.
        - Sim, nosso governo no vai querer brigar com a Inglaterra. O chefe guerrilheiro parecia pensar em voz alta. - Libertar nossos companheiros, assim que
souber que estamos com um refm ingls.
        Tamara no tinha muita certeza disso. Conhecia vrios casos de
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        cidados britnicos sequestrados e mantidos prisioneiros, sem que o governo fizesse nada para negociar sua liberdade.
        - Muito bem - disse o homem, num tom decidido. - Seus companheiros esto livres. - Gritou uma ordem para um dos soldados, que se adiantou com a metralhadora
em posio
        de tiro e indicou que o grupo devia segui-lo.
        Tamara foi a ltima, e no conseguiu evitar um olhar na direo de Zach. Ele estava de costas. Em que pensaria? Estaria com medo? Claro que devia estar.
        - Espere!
        A ordem a fez parar. O lder avanou para ela e agarrou-a pelo brao, fazendo-a estremecer sob um olhar gelado que pareceu arrancar as roupas de seu corpo.
        - Voc fica. - Virando-se para Zach, acrescentou, sombrio: Sozinho, voc podia tentar alguma besteira... conheo o seu tipo, amigo. Mas, com sua mulher em
nosso poder, ter que se comportar
        direitinho. Se tentar escapar, ns a mataremos.
        Tamara ficou imvel, muda de pavor. Ouviu os protestos de Dot
         distncia, que foram silenciados por um grito do homem que
        conduzia o grupo pela trilha.
        Depois do que pareceu uma eternidade, Zach virou-se lentamente.
        No havia qualquer expresso em seus olhos.
        - No discuta - disse-lhe o chefe guerrilheiro. - Ou ento,
        todos ficaro.
        Tamara quis protestar: "Voc est errado, no sou mulher dele".
        Mas as palavras se recusaram a sair. Suas ltimas esperanas de ser
        libertada desmoronaram, ao ouvir os passos dos companheiros
        desaparecendo na distncia.
        - Vamos - ordenou o lder. -  hora de partirmos. Voc tinha razo - disse a Zach. - Os outros nos atrasariam. Agora, se tentar atrapalhar nossa marcha,
darei sua esposa aos meus homens. Faz muitas semanas que eles no vem uma mulher, e faro uma festa acrescentou, com uma risadinha cruel.
        Tamara, que tinha gelado ao ouvir a ameaa, comeou a sentir uma imensa raiva de Zach. Por que ele no contava a verdade? Devia ter dito que eram pouco mais
        do que estranhos.
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        S teve a resposta vrios minutos depois, quando, com o pretexto de ajud-la a subir uma encosta mais ngreme, Zach falou baixinho em seu ouvido:
        - Sei o que est pensando, mas no  hora de convenes idiotas. Se eu lhes dissesse a verdade, estaria condenando-a a ser violentada. Enquanto acreditarem
que  minha mulher, no a tocaro. Mesmo entre mercenrios existe um certo cdigo de tica. Alm disso, provavelmente acham que, se algum tentasse alguma coisa
com voc, eu reagiria como qualquer um deles faria nas mesmas circunstncias. E ningum quer ser o homem que eu levaria comigo para o inferno, antes de ser estraalhado
com esses brinquedinhos que esto carregando.
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        CAPTULO III

        A escurido da noite caiu sobre eles como uma capa envolvendo a floresta em sombras pesadas que pareciam querer sufocar Tamara. A nica vantagem era que
escondia
        as expresses sombrias dos guerrilheiros que os vigiavam com as metralhadoras sempre apontadas.
        com a noite, veio a chuva. No aquela a que estava acostumada em casa, mas cortinas de gua que caam de repente e cessavam quinze minutos depois, deixando-os
com
        as roupas coladas no corpo e a trilha coberta de lama pegajosa.
        Tamara perdeu a conta das vezes que tropeou e caiu. No incio, tentou se animar, dizendo a si mesma que o resto do grupo j devia ter chegado ao hotel e
que logo as autoridades viriam em seu socorro. Porm, sabia que estava criando um mundo de fantasias. Mesmo que os outros quisessem viajar rpido, o que seria quase
impossvel na escurido, no conseguiriam chegar  cidade antes de umas quatro horas. A essa altura, ela e Zach estariam muito longe do local do sequestro. A selva
parecia querer se fechar sobre ela, engolindo-a. Teve vontade de gritar e correr, sem se importar com as consequncias.
        Zach segurou seu brao, como sentindo que ela estava a ponto de perder o controle. Algumas horas atrs, Tamara teria ficado ressentida com essa familiariadade,
mas agora sentiu uma imensa gratido por saber que no estava completamente s.
        - Mais depressa!
        Ela estremeceu, quando o cano da arma encostou em seu pescoo e
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        quase tropeou, ao tentar apressar o passo. A seu lado, Zach tambm comeou a andar
        mais rpido. O ritmo da marcha era simplesmente cruel. Tamara mal conseguia
        respirar sem sentir dores por todo o corpo exausto e imaginava que Zach tambm devia estar passando um mau pedao, por causa do tal acidente. No entanto,
ele caminhava com aparente facilidade, como habituado a esse tipo de situao. At mesmo sua respirao mantinha-se quase normal.
        Tamara tropeou de novo. Dessa vez, caiu de bruos, apesar de Zach tentar segur-la. Ouviu as risadas debochadas de seus
        sequestradores, e lgrimas de humilhao encheram seus olhos.
        - Levante-se!
        Foi Zach quem falou, numa voz dura e inflexvel.
        - No posso continuar - disse Tamara, ofegante.
        - Pode, sim. E vai... a no ser que queira ser abandonada aqui para morrer. Esses sujeitos no esto brincando. Agora, levante-se. Dou valor  minha vida,
apesar de voc no dar  sua.
        Falou to baixinho que ela teve dificuldade em ouvir. Devia ter apreendido isso em sua profisso.
        - Pode ser fcil para voc - protestou, cheia de amargura. Est acostumado a esse tipo de coisa. Afinal,  do...
        Perdeu o flego quando ele a puxou com violncia. Zach abraou-a com fora e sua boca caiu sobre a dela, deixando-a sem ar. Ouviu os homens rindo de novo,
mas dessa vez de um modo diferente.
        Segundos depois, Zach libertou-a daquilo que no tinha sido um beijo, mas um castigo. Tamara tocou os lbios doloridos, meio tonta. Antes de se afastar dela,
Zach ameaou, entre dentes:
        - Sua idiota! Diga mais besteiras como aquela, e estaremos mortos. Compreendeu?
        Sim, Tamara tinha compreendido, e quase tarde demais. Continuando a andar com pernas trmulas, no pde deixar de imaginar o que teria acontecido, se um
dos guerrilheiros ouvisse o que esteve a ponto de dizer. A informao de que Zach tinha alguma ligao com o Exrcito ingls certamente provocaria uma reao violenta.
        Meio cega pelas lgrimas, enjoada e trmula, sentiu raiva de si mesma por ter sido to inconsequente.
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        Perdeu a noo do tempo. Pareciam estar andando em crculos, em vez de subirem as montanhas. A nica coisa que sabia era que o esforo de colocar um p em
frente do outro era um sofrimento maior do que qualquer outro que j conhecera na vida. No havia mais lugar para pensamentos, nem mesmo para o medo; s a simples
necessidade fsica de continuar andando para no morrer.
        Pouco a pouco, foi se acostumando com as inesperadas pancadas de chuva e com as roupas molhadas grudadas no corpo. Sentindo os galhos batendo no rosto enquanto
atravessavam a mata densa, lembrava-se dos pesadelos de infncia, em que era obrigada a fugir por entre a floresta, correndo de um perseguidor invisvel mas apavorante.
        Um mao de folhas molhadas tocou seu brao e logo depois Tamara sentiu
        uma dor aguda, mas seu crebro estava cansado demais para registrar mais do que uma leve surpresa. S mais tarde, quando ergueu a mo parav afastar uma mariposa
do rosto, percebeu o que tinha acontecido e todo seu corpo se enrijeceu num pavor primitivo.
        Zach, que vinha vindo atrs, chocou-se com ela.
        - O que aconteceu?
        Logo compreendeu, ao ver a sanguessuga presa no pulso de Tamara.
        Ela reprimiu um grito e fechou os olhos, numa reao infantil, enojada com aquela coisa repelente em seu brao.
        - Vamos!
        Dessa vez, foi Zach que ignorou a ordem, forando o chefe guerrilheiro a parar e ver o que tinha acontecido.
        - Hum, a pele dela  macia e seu sangue deve ser mais gostoso disse o homem, com uma risadinha. - Tome. - Atirou uma caixa de fsforos para Zach e perguntou,
lacnico: - Sabe o que fazer?
        - Acho que sim. - Calmamente, Zach acendeu um fsforo e encostou-o no corpo da sanguessuga.
        Cheia de nojo e pavor, Tamara viu o verme se encolher e cair no cho. Pensou que fosse desmaiar de tanta nusea.
        - Vamos, andem!
        O cano da metralhadora batendo em suas costelas a fez voltar  realidade. Obediente, Tamara comeou a caminhar pesadamente pela trilha.
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 medida que subiam, a vegetao ia ficando menos densa, apesar de ainda ser bastante espessa para ocultar o perfil do morro que escalavam. Lembrando-se
da serra coberta de vegetao que via da praia do hotel, percebeu como seria difcil algum vir salv-los rapidamente.
        Finalmente o lder guerrilheiro fez uma parada, apesar de Tamara no distinguir nada de diferente  sua volta.
        - Por aqui! - disse o homem, indicando uma massa escura  esquerda. - Depressa!
        S quando chegaram mais perto, ela percebeu que havia uma passagem entre as rochas vulcnicas cobertas de mato.
        - Descobri esse lugar quando era menino - disse o homem, como contando vantagem. - Duvido que haja meia dzia de pessoas em St. Stephen que j tenham estado
aqui.
        Tamara teve certeza de que ele falava a verdade. Encolheu-se instintivamente ao ver a escurido que parecia querer sug-la para o inferno. Dessa vez, foi
Zach quem lhe ordenou para seguir em frente, com uma expresso distante e inexpressiva, como se seus pensamentos estivessem muito longe dali.
        A passagem era to estreita que tiveram que se esgueirar por ela, um a um. Tamara mordia o lbio cada vez que encostava na rocha mida, imaginando que criaturas
horrveis podiam estar deslizando por ela naquela escurido.
        Afinal, quando sentia que no poderia aguentar mais um minuto naquele corredor sufocante e assustador, viu-o abrir-se no que devia ser uma srie de cavernas.
A primeira estava vazia, e eles a cruzaram rapidamente, sendo conduzidos para uma outra abertura na rocha viva.
        Felizmente, dessa vez a passagem era mais curta e larga, e Tamara conseguiu atravess-la sem estremecimentos de pavor. Quando chegou ao fim, viu uma caverna
muito grande, iluminada por lampies a gs que lanavam sombras fantasmagricas nas paredes de pedra. Peas de moblia do tipo usado em acampamentos estavam espalhadas
desordenadamente: cadeiras dobrveis, mesas, espreguiadeiras, um fogo e uma geladeira. Percebendo o olhar de surpresa de Tamara, o lder guerrilheiro deu uma risada.
        - Mesmo homens como ns precisam de alguns "confortos do
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        lar". Mas no se deixe enganar por tudo isso. Se preciso, somos capazes de passar meses e meses vivendo s com o que a floresta pode nos dar. - Virou-se
para um
        de seus homens. - Kennedy, cuide da comida enquanto mostro o quarto de hspedes para os nossos convidados. Tenho certeza de que vo gostar - disse a Tamara,
por cima do ombro. - Preparamos para vocs nossa sute nupcial!
        As risadas que se seguiram a essas palavras fizeram a moa sentir uma onda de nusea.
        Foram conduzidos atravs de um corredor curto e largo, que terminava numa pesada porta de madeira chumbada diretamente na rocha nua, fechada por um enorme
ferrolho. Sem dvida. Sem dvida, resultado de um cuidadoso planejamento para a captura de refns.
        - Mesmo que consigam abri-la por milagre - disse o lder -, no vai adiantar nada. Meus homens estaro na caverna principal e tm ordem para atirar sem hesitao.
Vocs no sero mortos, compreendam... mas feridos de tal maneira a ficarem...
        - Aleijados para sempre - terminou Zach.
        O sorriso cruel do guerrilheiro fez o sangue de Tamara gelar de novo. Ele abriu a porta com uma mesura e os refns viram o que tinha sido preparada para
eles. Dois sacos de dormir estavam abertos lado a lado e, num dos cantos, havia uma pia e um vaso sanitrio de acampamento.
        - Tudo de que precisam para o seu conforto - caoou o homem.
        - Vocs vo ficar aqui, at recebermos a notcia de que nossos companheiros foram libertados.
        - Mas o que faremos, o que...
        - Oh, estou certo de que encontraro um jeito bem gostoso de passar o tempo. - A risadinha maliciosa que acompanhou essas palavras fez Tamara sentir uma
nova onda de nusea.
        Entrou na caverna e ficou parada, at ouvir a porta se fechar e os passos de Zach se aproximando.
        - O que vai acontecer conosco?
        - Por enquanto... nada. Lamento v-la envolvida nessa confuso toda.
        - Voc no teve culpa. Pelo menos, conseguiu que os outros fossem libertados.
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        - Temos que conversar.
        - Sobre o qu?
        - Sobre o que vamos ter que fazer para sairmos daqui - disse Zach, calmamente. - No podemos confiar em que vo nos libertar em troca dos prisioneiros. E
j est longe o tempo em que os governos mandavam brigadas especiais para salvar a vida de uns poucos refns.
        - Quer dizer,.. - A voz de Tamara sumiu.
        - Estou querendo dizer que Deus ajuda quem se ajuda. Temos que encontrar um jeito de escapar; seno, vamos apodrecer aqui.
        Como se tivesse conscincia do efeito daquelas palavras, Zach aproximou-se dela e colocou as mos em seus ombros tensos.
        - Olhe, no quero ser pessimista, mas temos que enfrentar os fatos com frieza. Fomos sequestrados
        por terroristas que sabem muito bem que ser difcil o governo
        da ilha negociar com eles. Se no fosse assim, no teriam tomado tanto cuidado em arrumar essa caverna, como se esperassem que ficssemos muito tempo prisioneiros.
        - Mas voc prometeu que haver publicidade nos jornais...
        - O que tambm no significa que seremos libertados. Esses homens querem chocar a opinio pblica, e o choque ser ainda maior, se dois turistas inocentes
forem assassinados em nome de uma causa qualquer.
        - E o governo ingls? No vai nos ajudar?
        - H centenas de bandos como esse agindo em todo o mundo. S em casos muito especiais toma-se alguma medida para libertar os refns.
        - Sim, como aquele golpe na frica, no ms passado, quando sequestraram o cnsul e o adido militar. Li nos jornais. Enviaram um grupo do Servio Secreto,
no foi?
        - Vinte e seis homens - concordou Zach, num tom rude. - Para salvar dois. Vinte e seis, mas s dezoito voltaram com vida...
        - No vi nada disso nos jornais. - Tamara franziu a testa. O rosto de Zach era uma mscara de cinismo e amargura.
        - Claro que no - disse, muito srio. - No divulgamos nossos fracassos... no  bom para a imagem do Servio Secreto.
        Nossos! O corao de Tamara deu um salto e os olhos refletiram sua surpresa.
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        - Oh, sim, eu estava l. Fui o responsvel pela perda de oito vidas. - Zach resmungou um palavro e acrescentou, cheio de desdm: - Claro que, no papel,
a culpa no foi minha. Ningum podia imaginar que havia aquela bomba escondida. Mas eles eram meus homens e me seguiam cegamente. Eu os levei para a morte.
        - Foi esse o seu acidente? - Tamara estava com um n na garganta.
        - Quer ver o que os estilhaos de uma bomba podem fazer ao corpo humano? - perguntou Zach, quase com selvageria, abrindo os botes da camisa e despindo-a
num movimento cheio de violncia. D uma olhada!
        Ela fez o melhor possvel para disfarar o choque, ao ver as cicatrizes ainda muito ntidas na pele bronzeada.
        - Ento, , por isso que voc est sempre de camisa de manga comprida. - Tamara engoliu em seco e forou-se a desviar o olhar.
        - Quer ver mais?
        - Pare! Pare de se atormentar desse jeito!
        - Isso no  nada. Meus homens foram estraalhados. - Deu uma risadinha amarga. - Quando sa da frica, jurei que nunca mais entraria numa selva. Os deuses
devem estar rindo-de mim.
        Tamara lembrou-se do quanto ele estava tenso no incio do passeio e sentiu um aperto de piedade no corao.
        Alguns sons do lado de fora a fizeram enrijecer. No instante seguinte, estava nos braos de Zach, sentindo o calor de seu corpo contra o dela, as mos deslizando
por baixo de sua camiseta molhada. Ia protestar, quando foi silenciada com um beijo, e notou que os olhos verdes dele continuavam duros e alertas.
        A porta se abriu. Para qualquer um que visse a cena, deviam parecer esquecidos de tudo  sua volta, pensou, meio confusa, todos os sentidos afetados pelo
impacto de uma masculinidade desconhecida para ela. Malcolm sempre a beijava com a maior delicadeza e respeito e nunca a abraava to apertado.
        O tempo pareceu parar, enquanto ondas de emoo a sufocaram, tornando-a consciente de que, finalmente, havia encontrado um homem capaz de despertar seus
sentidos e fazer seu corpo vibrar com uma nova vida, um misto de dor e prazer. Foi uma revelao, mas
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        durou to pouco que, quando Zach a soltou, Tamara estava quase convencida que tudo tinha sido s um produto de sua imaginao.
        - Precisamos fazer o possvel para que eles comecem a relaxar a guarda - explicou Zach, quando o homem saiu. - Assim, teremos mais chance de escapar.
        - No vamos conseguir sair daqui - murmurou Tamara, olhando para as tigelas de sopa que o guerrilheiro deixara no cho.
        - Temos que dar um jeito. Ser isso, ou a morte. O que tem a dentro? - perguntou, indicando sua bolsa, cada no cho.
        - Nada de. especial. Infelizmente, nenhuma metralhadora desmontada...
        Sua tentativa de fazer uma piada no provocou qualquer reao. Como se no a ouvisse, ele se ajoelhou e abriu a sacola, fazendo um inventrio:
        - Uma camisa, uma caixa de lenos de papel, carteira, um pacote de biscoitos... que possa ser usado como arma.
        - Bem, a primeira coisa que temos a fazer  nos livrarmos dessas roupas molhadas -- disse Zach, num tom inexpressivo. - Ora, vamos - acrescentou, ao ver
o olhar chocado de Tamara. - Somos adultos, e no estou inventando uma desculpa para ver o seu corpo. No podemos nos arriscar a ficar doentes, com febre. Portanto,
se no quiser tirar a roupa de boa vontade, eu mesmo farei isso. Afinal, no ser a primeira vez que vos se despe na frente de um homem. - Deu uma risadinha irnica.
- Ou seu noivo sempre apaga a luz?
        Tamara ergueu a mo para esbofete-lo, mas Zach foi mais rpido e agarrou seu pulso, a zombaria brilhando nos olhos verdes, enquanto examinava demoradamente
seu rosto vermelho e furioso.
        - Muito convincente, mas desnecessrio. No tenho nada a ver com seus padres de moral. Agora, quer fazer o favor de parar de agir como uma virgem ofendida
e tirar a roupa? Se no me obedecer, vou arranc-las.
        - Pode deixar, eu mesma tiro.
        -  bom.
        Zach comeou a soltar o cinto e Tamara virou-se de costas para ele, feliz por poder esconder seu rosto escaldante. Era pura bobagem estar agindo desse jeito,
como uma pudica, pensou. Afinal, suas roupas de
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        i
        baixo eram at menos reveladoras do que o biquini cor-de-rosa que tinha usado na vspera. No entanto, havia algo naquela intimidade forada que fazia seus
dedos tremerem enquanto abria o zper da cala.
        - Se tivermos sorte, estaro secas amanh de manh.
        O tom coloquial e despreocupado de Zach tornou possvel para Tamara seguir seu exemplo e esticar o jeans molhado no cho da caverna, logo abaixo de uma fenda
de onde parecia vir ar fresco. Porm, no conseguiu erguer os olhos para ele e ficou mexendo na bolsa, at ter certeza de que tinha se afastado. Levantou-se, ainda
de cabea baixa e quase se chocou com ele.
        - O que foi, agora? No me diga que nunca viu um homem de cueca. - Seu tom de zombaria parou de repente. - Ah, sim, deve ser por causa disso, no?
        "Isso" era uma feia cicatriz em sua coxa. Tamara balanou a cabea, incapaz de confiar na prpria voz, chocada pelo impactovisual daquele corpo poderoso,
cheio de msculos, to intensamente masculino. A cueca preta e justa escondia pouca coisa.
        - Se quiser usar o... hum... banheiro -- ele fez um gesto indicando o vaso sanitrio no canto da caverna -, eu me viro de costas.
        Foi a indignidade final. Os olhos de Tamara se encheram de lgrimas. Nunca se sentira to degradada e infeliz.
        - No? Como quiser. - Zach olhou-a de alto a baixo com um ar clnico, demorando-se alguns segundos no suti rendado. -  melhor no deixar nossos amigos
a verem assim. - Falou num tom arrastado, cheio de zombaria, mas sua expresso se modificou subitamente. Algo como uma excitao iluminou seu rosto. Sim... talvez
seja isso.
        - Talvez seja isso... o qu? - perguntou nervosa.
        - Nada. Vamos dormir. Foi um longo dia.
        Tamara entrou no saco de dormir e tentou encontrar uma posio mais confortvel no cho duro da caverna. Pouco depois, comeou a ouvir a respirao regular
de Zach, que, aparentemente, no teve nenhuma dificuldade para pegar no sono.
        Finalmente, a exausto fsica foi mais forte do que o medo e
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        Tamara adormeceu. Porm, foi um sono difcil, perturbado por pesadelos. Murmurava protestos, querendo o alvio do esquecimento, debatendo-se, inquieta, dentro
do
        apertado saco de dormir.
        Em um de seus sonhos, viu-se andando pela floresta e, novamente, sentiu a picada da sanguessuga. Seu grito de terror foi estrangulado por um peso que parecia
lhe
        esmagar o peito. Os anos voltaram atrs, e ela era de novo menina, saltando da cama para ir buscar refgio nos braos do pai.
        Acordou na semi-escurido, sentindo-se agradavelmente aquecida e confortvel. De incio, estranhando o peso do corpo encostado no seu, o calor do brao que
envolvia seus ombros, imaginou que fosse Malcolm. S podia ser ele. Murmurou seu nome, um pouco perplexa. Ele nunca a abraara desse jeito.
        O brao que a envolvia enrijeceu e uma voz fria falou, preguiosamente:
        - Desculpe, mas est com o homem errado. Costuma cometer erros como esse com frequncia?
        Zachary Fletcher! Tamara mordeu o lbio e fechou os olhos, profundamente embaraada.
        - Pensei que fosse meu noivo - disse, baixinho.
        - Lamento desapont-la, mas no tenho a mnima inteno de servir de substituto para ele. - Zach falou num tom de zombaria e tirou o brao, deixando-a com
uma sensao de abandono. - Voc estava muito inquieta. Gritou por algum, mas no foi por Macolm.
        O que ele estava insinuando? Que ela teria chamado por um outro homem? Por um amante?
        - Acho que Bobby ficaria maluco, se a ouvisse cham-lo naquela vozinha de menina perdida.
        Foi ento que Tamara se lembrou do pesadelo. Tinha gritado pelo pai, e, quando era muito pequena, costumava cham-lo pelo apelido. Furiosa com o jeito de
Zach, decidiu no lhe dar explicaes. Afinal, eram praticamente estranhos e ele no tinha nada com sua vida.
        Ele olhou para o relgio de pulso.
        - Sete. Imagino que logo venham trazer nosso caf. Claro que no pretendem nos matar de fome. Hum, fico pensando na frequncia com que tm que sair para
buscar suprimentos. No podem ter muita coisa
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        armazenada aqui... principalmente considerando-se que tm que trazer tudo a p, por um caminho bem difcil.
        Levantou-se e andou at a porta, tentando ouvir algum rudo.
        - Precisamos observar cuidadosamente a rotina do bando - disse, como se pensasse em voz alta. - No, no vista isso! - ordenou, tirando a camiseta das mos
de
        Tamara.
        Ela o olhou, surpresa, e seu rosto deve t-la denunciado.
        - No se preocupe - disse ele, com uma risadinha. - Deixe de ser boba, no vou violent-la... no sou desse tipo.
        Ouviram o ferrolho sendo aberto pelo lado de fora. Tamara lanou um olhar de splica para Zach, mas ele a ignorou e no lhe deu a camisa. O homem que entrou
com a bandeja a viu seminua, os seios mal cobertos pela renda do suti, e o desejo em seu olhar deixou-a gelada. Lembrou-se do que o lder do bando tinha dito: no
havia mulheres naquele lugar. Apavorada, virou-se para Zach em busca de proteo.
        Ele abriu os braos para receb-la e Tamara escondeu o rosto no seu ombro para no ver o olhar do guarda. Dessa vez, no protestou quando seus lbios tomaram
os dela num beijo rpido e provocante. Porm, no estava preparada para sentir o calor daqueles dedos longos e morenos acariciando seus seios. Todo seu corpo comeou
a tremer com uma emoo que no compreendia.
        - timo! - disse Zach, com evidente satisfao, quando a porta se fechou atrs do guerrilheiro. - Isso vai reforar a crena de que somos amantes e tambm
vai fazer nosso amigo se lembrar das coisas boas que anda perdendo.
        - O que est querendo dizer? - Tamara ainda estava trmula de medo, com o que vira no olhar daquele homem: uma luxria primitiva, a ansiedade do macho de
satisfazer seu desejo, custasse o que custasse.
        O dia se passou como os outros iam se passar. Ficaram o maior tempo fechados na caverna e s vezes o lder permitia que sassem para a caverna onde seu bando
jogava, fumava e bebia, enquanto escutava o rdio,  espera de alguma notcia sobre o sequestro.
        Depois de trs dias de priso, Tamara comeou a perder a esperana de que seriam libertados. Zach no tinha feito mais qualquer meno a
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        .uma fuga, e ela chegou  concluso de que ele desistira da ideia, depois de avaliar os prs e contras.
        No podia estar mais enganada.
        Na quarta noite, quando se preparava para entrar no saco de dormir, Zach disse, brusco:
        - Ainda no. Quero falar com voc.
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        CAPITULO IV

        Tamara sentou-se, com os braos em volta dos joelhos, e olhou para ele. -Uma sombra de barba j escurecia seu queixo. Conseguira convencer um dos guerrilheiros
a
        lhe emprestar uma navalha e fazia a barba sempre vigiado de perto; mas,  noite, os plos j comeavam a crescer.de novo.
        - Amanh, alguns dos homens vo  cidade mais prxima para buscar mais suprimentos. Ouvi algumas conversas sobre isso. O dialeto que usam  bem parecido
com o francs, das ilhas e pude compreender. Temos que tentar a fuga amanh, Tamara. - Olhou-a, muito srio. -  nossa nica chance.
        - Mas como poderemos fazer isso? Mesmo que fiquem s dois guardas, eles estaro armados e nem nos deixaro ficar na caverna principal. Alm do mais, nem
sabemos como sair daqui.
        - Eu sei. Quanto aos guardas... Voc quer fugir, no ?
        - Claro.
        - Ento, oua. Amanh, quando aquele sujeito vier nos trazer o caf, quero que voc o distraia o suficiente para eu pegar sua arma.
        - Distrair? - perguntou, intrigada.
        - Ora, vamos, no banque a santinha! Como  que uma mulher consegue distrair um homem? Esse  o nico jeito de peg-lo de surpresa. No ser necessrio que
ele a toque, no precisa ficar com essa cara assustada - acrescentou, rude. - Do modo como tem olhado para voc nesse ltimos dias, basta uma piscadela desses seus
grandes olhos para o truque funcionar. Especialmente se for acompanhada de um pouco de encorajamento sensual.
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        - No! No pode estar imaginando que farei uma coisa dessas! O desgosto misturou-se com o medo, deixando-a enjoada.
        -  o nico jeito - disse Zach, sem rodeios. - Olhe, se continuarmos aqui, mais cedo ou mais tarde ele vai se descontrolar. Voc ouviu o que o chefe disse:
h semanas que esses sujeitos no chegam perto de uma mulher. Mesmo em circunstncias normais, uma loura jovem como voc j despertaria cobia.
        - Voc disse que nenhum deles me tocaria por achar que sou sua mulher.
        - Sim, por algum tempo. Mas logo o sexo reprimido vai falar mais alto, e vo acabar esquecendo todo o verniz da civilizao.
        - No posso!
        - Tem que fazer. Finja que ele  o seu precioso noivo.
        Muito tempo depois de Zach ter pegado no sono, Tamara ainda se debatia, com os olhos arregalados e os punhos cerrados. J tinha percebido o modo como os
homens a olhavam; principalmente o encarregado de trazer a comida, que, mais de uma vez, a vira s de calcinha e suti. Seu olhar ficava mais quente e atrevido a
cada dia que passava. E se Zach tivesse razo? Se continuava ali... No queria nem pensar! Imaginava que j chegara ao mximo da degradao. Ainda teria que fingir
um convite para um ato sexual?
        Apesar de achar que nunca conseguiria pegar no sono, quando deu por si, Tamara estava sendo sacudida por Zach. Confusa e desorientada, continuou deitada
de costas
        por alguns segundos, olhando para ele.
        - No vou poder fazer uma coisa dessas, Zach - falou, afinal, com a garganta apertada.
        - Claro que vai.
        O modo como ele falou no dava margem a discusses, mas no foi exigente nem grosseiro. Foi como um pai encorajando um filho inseguro de sua capacidade para
realizar uma tarefa difcil.
        Alguns segundos depois, enquando ela hesitava entre vestir a camisa ou a camiseta, Zach se aproximou.
        - Essa - disse, baixinho, indicando a camisa. - E me ajude a enrolar os sacos de dormir. Sero teis na nossa fuga. No sei quanto tempo levaremos para ficar
em segurana; portanto,  melhor levar o
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        mximo que pudermos carregar. - Olhou rapidamente para a porta, como se j tivesse ouvido algum rudo.
        - Como pode ter certeza de que os outros j saram? - sussurrou Tamara, trmula de expectativa e medo, sentindo toda a coragem abandon-la.
        - Pretendiam partir de madrugada. J devem estar longe. - Zach olhou-a por um momento, enquanto ouviam o homem mexendo no ferrolho.
        Depois, antes que ela pudesse impedi-lo, Zach abriu sua camisa com violncia, expondo as curvas cheias dos seios, ignorando seus protestos aterrorizados.
        - Lembre-se, voc  a prpria Eva.  aquele mesmo joguinho que as mulheres vm fazendo h milhares de anos. S que, desta vez, o prmio ser sua prpria
vitria!
        Quando a porta se abriu, ele se afastou e ela ficou sozinha para enfrentar o olhar lascivo do carcereiro.
        Por um instante, paralisada de pavor, Tamara pensou que fosse desmaiar. com um esforo sobre-humano, entreabriu os lbios num arremedo de sorriso e levantou
a mo para tocar o brao do homem.
        A resposta foi imediata. Ele a agarrou pela cintura e seu hlito azedo deixou-a quase sem respirao.
        - Est querendo um homem de verdade, no ? Pois encontrou um em Jaimi. - Sua boca quente tocou o rosto de Tamara e uma mo calosa envolveu o seio macio.
Ela fechou os olhos, sentindo o estmago embrulhado e nsia de vmito.
        Quando o guerrilheiro se abaixou, como se fosse peg-la para lev-la  cama, Tamara viu o rosto de Zach, uma mscara dura, com os olhos brilhando como jade
gelado. Houve ento um movimento rpido e a luz brilhou na faca que ele tirara da cintura do terrorista. Depois, um gemido abafado, e o homem caiu sobre Tamara,
esmagando-a contra o cho. Continuou ali, at Zach ajud-la a se levantar, falando palavras que no podia ouvir porque estava tonta demais.
        - Tamara!
        A bofetada de Zach trouxe-a de volta  realidade, saindo do choque causado pelo pnico.
        - Vamos. No podemos perder tempo. Pegue o saco de dormir. E a comida. Depressa. Eu pego a sacola. No, no olhe para ele.
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        Zach andou silenciosamente em direo  porta e voltou, trazendo a metralhadora do homem pendurada no ombro de uma forma casual que deixou Tamara ainda mais
impressionada. Era a primeira vez que o via como realmente era: um predador com instinto assassino. Tinha testemunhado como era capaz de matar... sem um nico rudo,
com a mxima economia de movimentos... e um arrepio percorreu seu corpo.
        - Cuidado, no faa barulho - disse ele, levando-a pelo corredor. - Agora, siga-me, entendeu?
        Ele devia ter memria fotogrfica, pensou Tamara, enquanto era guiada sem erro por um dos tneis da caverna principal, que, felizmente, estava vazia. No
fazia ideia de por onde tinham chegado, quatro noites atrs, mas Zach parecia no ter a mnima dvida quanto ao caminho.
        Estavam quase chegando  abertura estreita do caminho entre as rochas, quando viram um outro homem entrando.
        Zach moveu-se to depressa que o guerrilheiro foi apanhado de surpresa pelo golpe que o atirou ao cho. Seu corpo ficou cado de um modo to estranho que
ela soube, instintivamente, que estava morto.
        - No podamos deix-lo vivo para vir atrs de ns - disse Zach, quando entraram no tnel. - Se tivermos sorte, os outros s chegaro dentro de um dia, talvez
dois. At l, j estaremos bem longe e no conseguiro encontrar nossos rastros.
        - Voc sabe o caminho de volta?
        - No vamos por ele, seria muito arriscado. Temos que nosembrenhar mais na floresta e depois fazer uma volta, em direo do litoral.
        - Mas como vamos nos orientar? - perguntou, nervosa. - No temos mapas, nem bssola...
        - H outros meios. O sol, as estrelas, os riachos. Encontrar o caminho de volta  o menor dos nossos problemas. O mais importante  escaparmos deles.
        Quando finalmente saram para o ar livre, Tamara ficou quase cega com a luz e parou, piscando, deliciando-se com o calor do sol na pele. Lgrimas de alvio
encheram seus olhos. O caminho estreito entre a rocha e o medo de se encontrar frente a frente com seus captores tinham lhe roubado o ltimo vestgio de autocontrole.
Comeou a chorar, tremendo dos ps  cabea, incapaz de se mexer.
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        - Tamara! - Ouviu a impacincia na voz de Zach e olhou para ele, entorpecida.
        S comeou a tomar conscincia quando sentiu o calor dos braos dele  sua volta, o hlito tocando sua testa, os msculos das coxas se tensionando para suportar
seu peso, enquanto a amparava.
        Levantou a cabea, querendo dizer que estava tudo bem, mas, ao olhar no fundo daqueles olhos verdes, sentiu como se estivesse se afogando no quente mar do
Caribe. Movida por uma fora estranha, tocou o rosto forte com dedos trmulos. Sensaes desconhecidas comearam a percorrer seu corpo, fazendo-a ofegar e o corao
bater com tanta fora que parecia a ponto de sufoc-la. Confusa e atordoada, entreabriu os lbios num convite mudo, quando viu Zach se inclinar, como um animal selvagem
dando o bote final.
        O toque dos seus lbios nos dela foi como uma centelha que fez explodir uma reao avassaladora. Ento, de repente, o rosto de Zach desapareceu, e no seu
lugar surgiu o do guerrilheiro. O prazer se transformou em nusea, o sangue fugiu das faces de Tamara e ela estremeceu, tomada pelo nojo.
        - O que...?
        - Aquele homem. O jeito como ele me tocou... o modo como me olhou... - As palavras sussurradas revelavam seu pavor e estavam cheias da lembrana daquela
degradao.
        - Est tudo acabado. Esquea.
        - Como posso esquecer? - perguntou,  beira da histeria. Sempre que um homem me abraar, vou lembrar... vou ficar com nojo...
        - Chega! Voc est agindo feito uma menina sem experincia da vida. Lembre-se de que  uma mulher;  noiva e que conhece intimidades fsicas.
        - Isso no significa que no tenho sentimentos, que...
        - Falaremos sobre isso mais tarde - disse Zach, pegando-a pelo brao e conduzindo-a atravs da pequena clareira. - Agora, quero pr o mximo de distncia
entre ns e as cavernas. Afinal, por que est to preocupada? Acha que seu noivo pode no aprovar o que fez? Tenho certeza de que, quando lhe explicar que era isso
ou a morte, ele compreender. Na verdade, no aconteceu nada de mais.
        Talvez no tivesse acontecido no sentido em que ele falava, mas
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        aquela havia sido a primeira experincia sexual de Tamara e a deixara com uma sensao de ter sido violentada. Era inexplicvel e absurdo, mas muito real.
        Ela imaginava que tinha chegado ao limite da resistncia ao acompanhar o passo dos guerrilheiros na longa viagem at a caverna, mas teve que juntar todas
as foras para seguir Zach, quando comearam a se afastar do local da sua priso. Ele abria sua prpria trilha com um faco que encontrara na caverna, com a deciso
de quem sabia muito bem para onde ia. Cada msculo do corpo de Tamara protestava contra o esforo, mas ela no se atrevia a pedir por um descanso.
        No final da tarde, o terreno sob seus ps foi ficando mais lamacento. Estava to concentrada em seguir os passos de Zach, que vrios minutos se passaram,
antes que percebesse que o rugido abafado que ouvia era de gua corrente.
        - Era isso que estava procurando! - disse Zach, triunfante, quando avistaram a gua cascateando por cima das rochas para cair, borbulhante, em corredeiras
que se perdiam entre a vegetao densa.
        - Vamos seguir esse riacho: com sorte, chegaremos  praia.
        - Como conseguiu encontr-lo? -- perguntou Tamara, mal conseguindo respirar e fazendo uma careta ao esticar a perna
        dolorida.
        - Pelo tipo de terreno, pegadas de animais... coisas simples, que qualquer escoteiro sabe.
        Embora ele tentasse minimizar sua habilidade, Tamara estava impressionada. Sem aquele treinamento, aquela capacidade de encontrar o que queria, nunca teriam
escapado,
        nunca conseguiriam achar o rio. Sentiu um arrepio na espinha. Havia algo em Zach, algo estranho e irreal, to intenso e viril que ela teve vontade de sair
correndo para muito longe dele.
        - Tamara?
        No percebera que a observava.
        - Est tudo bem - prometeu Zach. - Felizmente, o rio no  muito fundo aqui, apesar de a correnteza ser bastante forte. Seguiremos pela gua at onde for
possvel. Assim, no deixaremos rastros para nossos perseguidores.
        Seguindo o exemplo de Zach, Tamara tirou os sapatos e, amarrando-os pelos cordes, pendurou-os em volta do pescoo.
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        -  melhor tirar a cala tambm, para no ficar ensopada.
        Os dedos de Tamara no tremeram, quando abriu o zper. Aqueles dias de intimidade forada a tinham livrado do embarao. No entanto, ao ver Zach olhando para
suas pernas nuas, sentiu um estranho tremor. Teria sido imaginao, ou realmente os olhos cor de jade escureceram de desejo, enquanto ele a observava?
        Sua expresso revelou o que sentia, pois ele disse, imediatamente:
        - Pode ficar sossegada. Posso ser um soldado grosseiro e cruel, mas no compartilho do desejo pelo seu corpo que causou o fim do nosso amigo na caverna.
Desapontada?
        Tamara levantou o queixo, num gesto de desafio.
        - Que ideia! - Os lbios se contorceram com desprezo. - No suporto homens violentos.
        - A violncia pode ser muito necessria, Tamara. J salvou muitas vidas, como aqueles dois refns na frica. No sou nenhum mercenrio, nenhum candidato
a heri querendo provar algo ao mundo. No que me diz respeito, estou simplesmente seguindo uma carreira.
        - Uma carreira de matar pessoas! Ser que no percebe que no haveria terrorista, se no houvesse homens como voc?
        Zach virou-se no meio da corrente para olhar para ela com uma sobrancelha levantada.
        -  isso que pensa? Bem, Tamara,  uma histria to velha como o mundo. Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Alm disso,  maioria dos homens prefere
usar uma metralhadora como esta do que ouvir a voz da razo.
        - Voc nunca sente medo? - perguntou, tomada por uma curiosidade puramente feminina.
        - Medo? - De incio, Tamara pensou que ele estivesse caoando dela, mas logo notou a expresso de seus olhos. - Claro que morro de medo. Sempre que saio
para uma misso e quando volto dela. A ida  relativamente fcil. A expectativa produz a adrenalina que nos impele, apesar do perigo. A volta... - Desviou o olhar,
fez uma pausa e continuou: - A volta  como passar pelo inferno. Principalmente quando perdemos algum, um amigo, um companheiro. A,  como se deixssemos uma parte
do nosso corpo para trs. - Deu uma risadinha amarga. - Voc me perguntou se
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        no sinto medo. Fui ferido, quando fugia em minha ltima misso. Se dois de meus homens no me tivessem carregado, eu agora estaria morto na selva da frica.
Medo... Enquanto eu estava no hospital, suplicava a eles para que nunca mais me mandassem para a selva.
        Tamara no conseguiu falar, tomada pelo desejo de ir confort-lo como se fosse uma criana. Porm, quando olhou novamente para aquele fsico to forte e
viril, sentiu que era uma ideia ridcula.
        - Esse  um dos motivos por que vim para c - disse Zach. Precisava de descanso, mas, principalmente, tinha que provar a mim mesmo que conseguiria enfrentar
a selva... e vencer.
        - E conseguiu.
        - Ainda no estamos livres dela. Talvez no consigamos venc-la. Quando a noite comeou a cair, Zach resolveu que podiam parar.
        Tinham descido alguns quilmetros andando pela gua, at a correnteza ficar forte demais.
        - Dormiremos ali - disse ele, indicando uma clareira bem longe do rio. Vendo a expresso intrigada de Tamara, explicou: - Assim, o barulho da gua no abafar
o rudo da aproximao de alguma pessoa. No podemos nos arriscar a fazer uma fogueira. Felizmente, estamos com os sacos de dormir. - Mostrou algumas rvores carregadas
de frutos. - Que tal goiabas e abacates para o jantar? Pelo menos, no vamos ter que nos preocupar com comida.
        Depois de comer, Tamara quis beber gua do rio, mas Zach no permitiu.
        - Sei que parece limpa, mas pode haver algum perigo. Voc no tem nenhuma imunidade aos micrbios que existem nela, e no podemos ferv-la.
        Forada a aceitar a lgica da explicao, Tamara contentou-se em tomar um gole de gua da garrafa que tinham trazido, mas perguntou se podia se lavar antes
de ir dormir. A gua na caverna onde tinham ficado prisioneiros era pouca e ela ansiava por um banho. Estavam acampados no muito longe de uma bacia natural que
parecia uma pequena piscina e, desde o incio, imaginara como seria delicioso mergulhar ali.
        - Est bem, se me prometer ficar de boca fechada - disse Zach, com um sorriso. - vou com voc.
        com um gesto rpido, tirou a camisa, revelando o fsico poderoso, onde as nicas imperfeies eram as cicatrizes.
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        Quando comeou a abrir o cinto, virou-se para ela, com malcia no
        olhar.
        Como , vai fazer essa cara de novo? Voc  pior do que uma
        freira - disse, com uma risadinha de desdm.
        Tamara virou o rosto, furiosa por ter ficado to vermelha. Comeou a andar em direo ao rio e s levantou a cabea ao ouvir Zach mergulhando na gua. Desistindo
da ideia de tomar banho nua, comeou a entrar cuidadosamente na gua, de calcinha e suti, equilibrando-se nas pedras, relutando em enfrentar a parte mais funda...
e Zach.
        Depois de alguns minutos de banho delicioso e refrescante, ela saiu sem esperar por ele e correu para a clareira onde estavam acampados. J tinha se acomodado
no saco de dormir, quando Zach voltou, parecendo furioso.
        - Que brincadeira idiota foi essa? Isso no  uma excurso de frias. Temos que ficar sempre juntos, entendeu?
        - S vim direto para c - respondeu, no mesmo tom. - E no precisa falar assim comigo. No sou um dos seus homens!
        - Isso est bem claro. Olhe, se quer continuar viva,  melhor obedecer minhas ordens. E se tivesse voltado para c e encontrasse nossos amigos  sua espera?
        A expresso de Tamara a denunciou, apesar de todos os seus esforos para aparentar frieza.
        - Exatamente - disse Zacr), numa voz arrastada, como se lesse seus pensamentos. - Por isso, de agora em diante, no faa um s movimento sem me avisar antes.
Entendeu?
        Procurando uma posio mais confortvel dentro do saco de dormir, Tamara dizia a si mesma que odiava aquele homem. Um mando, convencido, metido a sabe-tudo,
sempre falando com zombaria, como se ela fosse uma menina idiota! Olhou para o lado, cheia de raiva, e viu que Zach j ressonava tranquilamente, depois de ter montado
algumas armadilhas improvisadas que os acordariam, se algum se aproximasse da clareira.
        Ao contrrio do que esperava, Tamara logo adormeceu, exausta pelo esforo fsico do dia.Porm, foi um sono inquieto, pontilhado de imagens assustadoras,
dominadas pela risadinha lasciva do guerrilheiro, que estendia a mo para agarr-la.
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        - No!
        A palavra escapou de seus lbios, fazendo-a acordar subitamente. Descobriu que dedos de ao seguravam seus pulsos e que o peso do corpo de um homem a esmagava
contra
        o cho. Todo o raciocnio foi apagado pelo pnico. O guerrilheiro! O grito que se formou em sua garganta foi cortado pela mo que tampou sua boca.
        - Tamara!
        O som spero trouxe-a de volta  realidade e a tenso se esvaiu de seu corpo. Estremeceu convulsivamente e falou, com a voz carregada de emoo.
        - Eu... desculpe. Estava tendo um pesadelo. Aquele homem... Estremeceu de novo.
        Zach sentou-se com ela ainda nos braos e aninhou sua cabea contra o ombro.
        - Isso a perturbou tanto?
        O luar revelou a expresso de Tamara, ao erguer o rosto para ele. Encolheu-se toda, quando Zach afastou uma mecha de cabelo cada sobre seus olhos. Ele franziu
a
        testa, parou e estudou-a atentamente por alguns segundos. Depois, vagarosamente, tocou de leve sua face, antes de comear a deslizar os dedos por seu pescoo
e ombro.
        Tamara sentiu a respirao presa na garganta. Todo o corpo estava tenso, e seus olhos eram os de um animal encurralado, desesperado para fugir. Zach tocou
seu seio,
        ela se contraiu num movimento brusco. A cor fugiu do seu rosto, deixando-o plido e angustiado, antes de ela comear a tremer com a nusea causada pela lembrana,
o hlido azedo, o rosto cruel de Zach, o sangue...
        Seu gemido dolorido foi o grito de pavor de uma criatura encurralada, sentindo a proximidade da morte.
        - Tamara, acalme-se, vai dar tudo certo. Voc vai acabar esquecendo. Quando estiver em casa, com seu noivo...
        - No!
        Houve um novo estremecimento de repulsa. No podia suportar a ideia de Malcolm tocando-a. No podia suportar a ideia de ningum tocando-a.
        -  estranho... - disse Zach, como se pensasse em voz alta. Eu poderia entender essa reao, se voc fosse totalmente inexperiente em sexo. No entanto, 
uma mulher atraente, muito desejvel, e deve
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        ter tido vrios namorados antes de ficar noiva. A no ser que esteja
        comprometida desde criana, o que  muito raro nos dias de hoje. Olhou-a diretamente nos olhos. - Sabe, aprendi uma coisa com a experincia:  melhor enfrentar
nossos demnios e exorciz-los, antes que fiquem fortes demais.
        Zach segurou-lhe o queixo, inclinando sua cabea para trs, os olhos verdes quase a hipnotizando, enquanto se curvava para tocar os lbios dela com a ponta
da lngua, explorando a curva suave da boca.
        A sensao de pavor e nojo encheu-a de um pnico irracional, e Tamara s pensou em fugir, virando a cabea freneticamente para escapar daqueles lbios que
pareciam decididos a fazer seu medo se transformar em prazer.
        Segurando-a com firmeza, forou-a a se deitar, e o peso de seu corpo sobre o dela a fez gemer, assustada. Ele se aproveitou dessa vantagem e beijou-a na
boca, despertando emoes que, misturadas com o pavor, a deixaram tonta.
        Um brao poderoso a mantinha segura contra o peito quente e firme. Quando ergueu a mo para empurr-lo, Tamara tocou a pele quente, coberta de plos speros.
Tirou a mo, bruscamente, como se tivesse levado um choque eltrico.
        - Vamos, no fique com vergonha. Toque em mim - disse Zach, suavemente, falando contra seus lbios. Pegou seus dedos trmulos, colocando-os de novo sobre
o peito, uma parede de msculos tensos.
        - Esquea o que aconteceu essa manh. Esquea... - repetia, baixinho, por entre beijos. - Esquea tudo, menos isso.
        Os dedos morenos deslizaram pelo pescoo de Tamara, at encontrarem a ala do suti. com um movimento rpido, afastaram a renda que cobria os seios cheios
e macios. Zach comeou a fazer carcias que liberaram uma torrente de emoes, suplantando qualquer sensao de repulsa. Uma onda de prazer espalhou-se lentamente,
at todo o corpo de Tamara estar em chamas, pedindo por um contato mais ntimo.
        Como se no tivesse conscincia da intensidade do desejo dela, Zach comeou a explorar sua pele macia, beijando-a nas suas plpebras, no pescoo, no ombro.
        Tamara no conseguiu pensar em mais nada, a no ser naquela emoo avassaladora que a dominava, no instinto primitivo que a
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        impelia a se abraar a Zach, desejando sentir todo o seu corpo contra o dela, a acarici-lo com ansiedade. No resistiu a tocar aquela carne com a lngua,
desejando saborear cada centmetro. Contorceu-se numa splica muda, implorando por um contato mais ntimo, mais profundo, completamente enlouquecida pela paixo
que fazia com que todo o controle e todas as convenes fossem esquecidos.
        Um novo beijo trouxe uma centelha de alerta a seu crebro, lembrando-a do perigo que corria. Porm, Tamara no quis ouvir. Nada mais importava, seno o prazer
sexual que s Zach podia lhe dar.
        - E ento, passou o medo?
        As palavras secas a fizeram sair do transe. Abriu os olhos, desnorteada.
        - Seu noivo pode cuidar do resto - continuou Zach, com frieza.
        - J lhe disse que no gosto de servir de substituto para homem nenhum. Voc me enganou por alguns momentos; mas reagiu com muito ardor para estar to assustada
como fingia.
        Muda pelo choque, Tamara s ficou olhando para aqueles olhos verdes gelados. Depois, tomando conscincia do seu corpo exposto ao luar, puxou a camisa para
fugir do olhar cruel que a examinava sem um nico trao de compaixo ou desejo.
        Entrou no saco de dormir, lutando contra as lgrimas amargas de vergonha e humilhao. O que lhe dera na cabea para se comportar daquele jeito? Tinha agido
como uma... como uma... Como uma mulher apaixonada!
        O pensamento se insinuou em sua mente como a serpente do den. Ela o amava. Sim, estava perdidamente apaixonada por Zach. Como isso podia ter acontecido?
Mal o conhecia, eram pouco mais do que estranhos... S tinham se visto pela primeira vez h poucos dias.
        Mas era verdade, a pura e terrvel verdade.
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        CAPITULO V

        A aurora surgiu, e Tamara, que j estava acordada h muito tempo, ficou observando a mata despertar .sob a luz do sol Zach dormia tranquilamente a seu lado.
Abrira
        o saco de dormir durante a noite e agora ela podia ver seu peito, marcado de cicatrizes. Seu corao comeou a bater pesadamente, enquanto revivia os momentos
passados em seus braos, aceitando passivamente a realidade que tinha sido obrigada a enfrentar, antes de adormecer: ela o amava. Era algo que contrariava tudo em
que acreditava. Por exemplo, que o verdadeiro amor no surgia de repente, que devia crescer devagar,  medida que o conhecimento entre duas pessoas fosse se aprofundando.
        De muitos modos, Zach era uma sntese de tudo de que no gostava num homem: prepotente, duro e cruel. E, principalmente, era quase agressivamente sexual,
algo que decididamente detestava. No entanto, agora no podia negar que reagira com a mesma sensualidade e no sabia mais o que pensar.
        Mexeu-se inquieta no saco de dormir, atormentada pelo desejo de tocar aquele rosto bem-feito, de seguir com a ponta dos dedos aquelas linhas to msculas
e sentir a aspereza da barba que cobria o queixo.
        A tentao foi quase irresistvel. A proximidade de Zach a embriagava e, perturbada. Tamara quase podia ouvir seus velhos hbitos caoando dela, os ensinamentos
de tia Lilian rindo da sua idiotice em se apaixonar por algum como ele, que, em circunstncias normais, talvez nem lhe desse um segundo olhar. Tinha certeza de
que, se no fosse pela proximidade forada, ele jamais se interessaria por ela. Tia Lilian sempre tinha dito que ela no era nenhuma beleza e que devia se acostumar
a passar desapercebida pelos homens.
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        Zach mudou de posio e o movimento revelou todo o seu peito. Tamara prendeu a respirao, tremendo com o desejo de beij-lo.
        Num impulso, abriu o saco de dormir e se levantou com um nico pensamento: o de se afastar da tentao. Tinha que mergulhar na gua fria. S assim conseguiria
aplacar seus sentidos exaltados e evitar de agir como uma mulher sem moral e sem princpios, atirando-se a uma aventura inconsequente com algum que mal conhecia.
        Parte da superfcie da lagoa brilhava ao sol da manh. Tamara parou por uns instantes, na beira da gua e, depois, agindo sob um instinto que no podia mais
negar, tirou o suti e a calcinha, ignorando aquela voz interior, to parecida com a da tia Lilian, que a reprovava por estar expondo o corpo fora dos limites de
seu quarto.
        Antes que pudesse mudar de ideia, entrou na gua, maravilhando-se com seu frescor na pele nua.
        Tia Lilian e todas as represses ficaram esquecidas, quando Tamara se entregou ao prazer de sentir a gua acariciando seu corpo, como um amante. .Corando
um pouco por causa desse pensamento, virou-se de costas para boiar e fechou os olhos. Entregou-se livremente s sensaes que reprimira durante toda a vida adulta
e que agora estavam derrubando as barreiras da vergonha e medo para torn-la consciente de sua sensualidade.
        - Tamara!
        O chamado acabou com sua sensao de bem-estar. Virou-se e comeou a nadar para a margem, mas, depois de duas braadas, ficou imvel, quase hipnotizada pela
viso dos braos poderosos de Zach cortando a gua, at perceber que sua expresso era a de um homem cheio de raiva. Quando chegou perto dela, ficou em p e agarrou-a
pelo pulso.
        - Que diabo acha que est fazendo? O que foi que eu lhe disse ontem?
        Tarde demais, Tamara lembrou-se de que ele a avisara para nunca sair de perto.
        - Achei que no havia perigo. Tive vontade de nadar...
        - E no pensou que podia estar correndo o risco de ser descoberta pelos guerrilheiros? O que h com voc, afinal? Est querendo brincar comigo, ou  simplesmente
uma burra?
        - Eu... - Subitamente, Tamara tomou conscincia de sua nudez
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        do perigo que tinha enfrentado. - S queria nadar... sozinha.
        Em outra ocasio, os palavres de Zach a teriam feito corar, mas aora ela os ignorou, tentando desesperadamente controlar o corpo trmulo, envolvido por
uma mistura
        de choque e desejo, estimulado pela proximidade do homem que amava.
        Muito bem. Agora, j fez o que queria - disse ele,
        rispidamente. -  hora de partimos. No podemos perder mais tempo. - Como se sentisse a relutncia de Tamara em segui-lo, franziu a testa, estudando sua
cabea inclinada, os cabelos louros boiando na gua como os de uma Vnus medieval. - O que h de , errado?
        - V na frente. Eu... eu vou depois. Deixei minhas roupas l nas pedras e...
        - No diga! - Zach mudou de tom subitamente e seus olhos verdes comearam a caoar dela, enquanto examinavam suas formas por baixo da gua. Logo a zombaria
foi substituda por um ar de desdm. - Olhe, quero deixar uma coisa bem clara. No me interessa que joguinhos est acostumada a fazer com seus namorados, mas no
tente nenhum deles comigo. J lhe disse que no sou um moleque que se excita s ao ver um corpo bonito, mas, se no tomar cuidado, vai se dar mal com as suas brincadeiras.
        - Eu no estava fazendo nenhum joguinho! No sou desse tipo! Zach deu uma gargalhada.
        - Benzinho, voc  desse tipo, e muito mais! Mas no vou perder tempo com discusses.
        Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa para impedi-lo, pegou-a nos braos, arrancando-a da proteo da gua e comeou a andar em direo da margem. No
parou at estarem na clareira e atirou-a sem cerimnia sobre o saco de dormir, humilhando-a com seu olhar malicioso que percorria cada centmetro do corpo nu.
        Tamara abaixou a cabea, sentindo a boca seca, completamente dominada pela mesma sensao de fraqueza que experimentara na noite anterior. Estendeu a mo
para pegar a camisa, pensando em us-la para ir buscar suas roupas na margem da lagoa. Ouviu Zach resmungar um palavro e o som de um zper sendo aberto. Quando
se virou, viu que ele tinha tirado o jeans molhado e estava de p, . vestindo s a cueca preta. Tamara umedeceu os lbios secos com a
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        ponta da lngua, dizendo a si mesma que era uma idiota, que j vira muitos homens de calo e que no havia muita diferena. Mas foi intil. Nenhuma fora
de vontade parecia capaz de parar os tremores que percorriam seu corpo.
        - Tamara!
        S Zach conseguia dizer seu nome daquele jeito.
        - O que aconteceu? No est se sentindo bem? - Parou junto dela e tocou-lhe a testa, com uma expresso preocupada. - Est quente, mas no parece febre. Est
com dor de estmago? Enjoos?
        - Estou muito bem, obrigada. - Tamara mal acreditou que aquela voz rouca era a sua. Tentou afastar Zach, mas ainda estava trmula demais.
        - Estou muito bem, obrigada. - Ele a imitou quase com selvageria. - Voc  o prottipo da mulher fria e controlada, no? Oh, ontem  noite foi s um escorrego.
        Coisas que acontecem com a mais fina das damas. Vai contar o que aconteceu ao seu querido noivo? O que ele dir, hein?
        Agarrou a mo dela e comeou a examinar seu anel de brilhante.
        - Deixe-me ver... Ele deve trabalhar no centro financeiro de Londres.
        Correto e trabalhador, amizades adequadas. Ambicioso... Voc ser a esposa perfeita para ele.
        Talvez seja melhor no contar o que houve. Seria uma mcula na sua perfeio.
        - Ele vai compreender - disse Tamara, com dificuldade.
        - Ser? Ser que ele vai entender que o verniz da civilizao no  to espesso como gostaramos que fosse e que voc chegou perigosamente perto de quebr-lo?
        - No foi nada disso. - Estava desesperada para negar a verdade. No por causa de Malcolm, mas porque no podia suportar a ideia de Zach descobrir o que
sentia por ele.
        - No?
        A palavra saiu carregada de insinuaes.
        - No - repetiu Tamara, com firmeza, evitando olh-lo nos olhos.
        - Mentirosa!
        Ela nem percebeu o movimento. De repente, ele estava to perto que Tamara pde ver cada poro do seu rosto e sentiu seu hlito quente na testa.
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        . No me toque! Detesto isso! - Foi o grito de pnico de uma
        criana assustada, mas pareceu incendiar Zach.
        Ele a tomou nos braos, fazendo estremecer cada msculo de seu corpo, e obrigou-a a deitar-se, prendendo-a com seu peso. Castigou-a com um beijo brutal,
que deixou seus lbios inchados e mais vulnerveis s carcias da lngua na carne machucada.
        Tamara viu o desejo queimando nos olhos verdes. Pde senti-lo na tenso firme do corpo de Zach, nas mos que comearam a percorrer sua pele deixando-a com
a boca seca.
        - Ainda detesta que eu a toque?
        Seus olhos estavam quase negros, sem nenhum trao de compaixo
        ou remorso.
        - Sim.
        Foi o orgulho que a forou a mentir. Tamara fechou os olhos e virou a cabea.
        Os lbios de Zach percorrendo seu pescoo de um modo faminto, quase assustador, a obrigaram a abrir os olhos novamente. Percebeu que seu desafio o fizera
perder a razo. Ignorando suas splicas incoerentes, ele segurou seus dois braos, deixando-a incapaz de se defender dos tremores de prazer causados pela ponta da
lngua acariciando seus seios.
        - Voc me quer, Tamara.
        Foi uma afirmao que ela no teve como negar. Agarrou-se a ele convulsivamente. Pouco a pouco, as barreiras da represso foram caindo uma a uma, e logo
depois Tamara estava explorando os contornos musculosos dos ombros de Zach com os dedos e os lbios, fazendo-o gemer de prazer.
        - Tamara, eu te quero. - A splica rouca foi o eco de seu prprio desejo.
        Completamente tomada por uma sensualidade que nunca imaginara sentir, Tamara agarrou-se desesperadamente a ele, temendo perd-lo de novo, temendo que se
afastasse antes de aplacar aquela fome que parecia aumentar a cada momento.
        com um movimento rpido, Zach livrou-se do calo preto. De incio, seu corpo nu foi uma viso chocante para Tamara, mas o beijo delicioso e sensual a fez
esquecer de tudo, a no ser a doura das sensaes que a envolviam.
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        Houve um rpido momento em que quis fugir, mas logo passou.
        - Por que est to tensa? Relaxe. - As palavras de Zach, num tom pesado de paixo, pareceram vir de muito longe.
        A dor, sbita e inesperada, foi como uma lana atravessando sua carne. Por entre as plpebras entreabertas, Tamara viu o rosto de Zach, estranho e quase
selvagem de raiva. Depois, aquele momento de sofrimento se esvaiu e ela sentiu-se subindo s alturas, levada nas asas do prazer, indo muito alm do cu azul, chegando
a um lugar onde explodiram todas as cores do arco-ris.
        - Por que no me disse que era virgem? Seu noivo sabe que raro prmio eu roubei dele?
        As palavras brutais destruram seu devaneio. Tamara olhou para ele, sentindo a amargura crescer dentro dela, ao perceber que a raiva de Zach vinha do fato
de ter imaginado que ela era uma mulher experiente. Claro que no queria se envolver com algum que mais tarde podia acus-lo de roubar sua inocncia.
        - Ele no sabe - disse Tamara, com altivez. - E no vai saber
        que eu era.
        Sem uma palavra, Zach afastou-se. Voltou minutos depois, trazendo as roupas que tinham ficado perto da lagoa. Seu corpo estava molhado.
        "Quis tomar um banho para se livrar de mim", pensou Tamara, com amargura, e comeou a se vestir lentamente.
        Andaram em silncio pela selva, at ela achar que ia ter que gritar para se libertar daquela tenso. Queria que ele dissesse alguma coisa. Que ela no devia
esperar nada do que tinha acontecido... qualquer coisa. Assim, tambm poderia lhe dizer que sabia que aquilo no significava nada, que fora s o resultado de estarem
sozinhos
        juntos, lutando pela sobrevivncia, compartilhando de uma intimidade forada.
        Porm, Zach continuou em silncio. A caminhada pela selva foi exaustiva, e s o medo de passar outra noite ao lado dele a fazia continuar, quando seu corpo
dolorido
        clamava por descanso. Estava to concentrada em forar seus msculos a obedec-la, que nem percebeu que o terreno se modificava gradualmente, as elevaes
ngremes se transformando em colinas mais suaves, a mata ficando mais rala. S tinha conscincia do cansao e do mal-estar que sentia
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        na boca do estmago, causado pela vergonha de ter se entregado a um homem que nem mesmo parecia gostar muito dela; que a considerava um estorvo.
        Estava to perturbada por esses pensamentos, que at se esqueceu do medo de serem descobertos pelos terroristas. Ficava com o rosto em fogo, cada vez que
se lembrava daqueles momentos de loucura. O que Malcolm diria, ao saber de sua fraqueza? Devia contar a ele? O noivo nunca havia tocado no assunto da sua virgindade,
mas, se ficasse sabendo da sua aventura, teria todos os motivos para desistir do casamento. O que lhe reservaria o futuro?
        S estava certa de uma coisa: se sassem vivos da selva, nunca mais na sua vida queria ver Zachary Fletcher, com quem no tinha nada em comum, a no ser
aqueles momentos de xtase. Corada de vergonha e furiosa consigo mesma, Tamara afastou algo peludo que caiu em seu brao e depois gelou, seu grito assustando um
bando de papagaios que saiu voando.
        Zach virou-se.
        - Que diabos... - Sua expresso mudou, quando viu a marca vermelha no brao dela. - O que foi? - Estendeu a mo e pegou-a, examinando a picada.
        - Uma aranha. - Tamara estremeceu. - Era enorme!
        Devia ser por causa do cansao. O rosto de Zach parecia estar sumindo,  medida que uma estranha letargia afetava seus reflexos. Estava tonta e mal conseguia
falar.
        - Certo. Fique quieta.
        Tamara viu o brilho da faca e, como uma sonmbula, ficou olhando Zach cortar sua pele inchada e sugar o sangue. No sentiu dor. Estava entorpecida demais
pelo veneno.
        - Voc tem que descansar - disse ele, tenso.
        - Posso continuar, estou bem - mentiu, falando com dificuldade.
        - No. Voc precisa ficar o mais imvel possvel. Cada batida do corao far o veneno se aprofundar no seu corpo.
        Tamara abriu a boca para responder, mas uma estranha tontura a envolveu. Sentia que ia desaparecendo. Vagamente, percebeu Zach abrindo o saco de dormir.
Pouco depois, estava sendo colocada dentro dele. Tinha a sensao de no estar ali, de ser s a espectadora de uma cena que se desenrolava  distncia.
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        S bem mais tarde, ficou sabendo a histria completa da sua volta  civilizao. Zach j havia partido e as enfermeiras que cuidavam dela no hospital da
ilha, encantadas
        com o romantismo da situao, lhe deram todos os detalhes. No paravam de contar como Zach havia chegado at o vilarejo com ela nos braos, queimando de
febre por causa do veneno da aranha, e arranjado uma carroa para transport-la at a cidade para ser hospitalizada.
        A primeira pessoa que Tamara viu ao recobrar a conscincia foi Dot Partington, que, junto com George, resolvera ficar na ilha at ela estar totalmente fora
de perigo. Emocionada, pensou se um dia conseguiria agradecer a eles por tanto carinho e considerao.
        Foi Dot quem lhe contou que Zach j tinha voltado para a Inglaterra. Malcolm ainda no estava sabendo de nada. O caso fora mantido em segredo pelas autoridades
e o cnsul achara melhor no fazer nenhum comunicado aos parentes e amigos dos refns, antes de v-los em segurana.
        Deitada na cama de hospital, Tamara decidiu que, assim que voltasse para casa, desmancharia o noivado. No podia mais aceitar a ideia do casamento estril
e sem
        amor e sabia que no seria justo continuarem juntos por causa do que sentia por Zach. No que fosse tola a ponto de pensar que podia haver algum futuro com
ele.
        Sua ausncia e seu silncio s tinham confirmado o que j sabia: o que acontecera entre eles tinha sido apenas consequncia das circunstncias e devia ser
definitivamente esquecido.
        Depois de uma semana, Tamara teve alta para voltar para a Inglaterra.
        - Voc  uma moa de sorte - disse o mdico, sorrindo para ela e Dot. - Escapou da morte, no s umar mas duas vezes.
        Dot virou-se para a moa.
        - Sei que j lhe disse isso muitas vezes, mas, com toda sinceridade, nunca acreditei que ia v-la com vida. Quando me lembro de voc sendo levada por aqueles
homens... - Balanou a cabea. Desculpe, no devo mais tocar nesse assunto. Deve ter sido uma experincia terrvel.
        - Sim - concordou Tamara, num tom sem expresso, incapaz de contar a Dot que as lembranas de St. Stephen estariam entre os tesouros da sua vida.
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        No ligue - disse a outra, querendo confort-la. - Logo estar
        em casa com seu noivo e... - Lanou a Tamara um olhar astuto. Ainda bem que  comprometida e que Malcolm  um timo rapaz, como me disse. De outro modo,
no sei como teria conseguido no se apaixonar por Zach. Ele  sensacional!
        Tamara deu uma risadinha forada e procurou distrair  ateno de Dot, perguntando pelo horrio do voo. No queria que a amiga notasse seu rosto plido.
Sabia que devia se mostrar ansiosa para voltar para a Inglaterra e para Malcolm, mas no estava. Tudo que sentia era uma enorme apatia. Resultado do veneno, disse
o mdico, mas s ela sabia a verdade. Era o meio encontrado pela natureza para resguard-la da agonia de perder Zach. Tamara sorriu sem alegria. A natureza estava
lutando uma batalha perdida. Nada a faria deixar de sofrer ou esquecer. Zach estava gravado em sua mente e em sua carne, e seria uma parte dela at o fim de seus
dias.
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        CAPITULO vI

        Estava chovendo, quando o grande jato fez a volta para pousar no aeroporto de Heathrow. O cu escuro se misturava com o preto da pista e tudo parecia triste
e sem
        amor.
        O terminal estava cheio. Muitos voos tinham se atrasado por causa do mau tempo e passageiros com malas, sacolas e pacotes se acotovelavam por todos os cantos.
        Tamara despediu-se dos Partington no restaurante, enquanto tomavam juntos uma ltima xcara de caf.
        - Prometa nos escrever - insistiu Dot, mais uma vez. Tambm quero que venha passar uns dias conosco, quando houver algum feriado. Traga seu noivo. Teremos
muito prazer em receb-lo. A propsito, voc o avisou a que horas ia chegar? Pensei que ele a estivesse esperando; principalmente, sabendo que esteve doente.
        Havia uma ponta de desaprovao em sua voz, e Tamara apressou-se a defender Malcolm.
        - Oh, ele no est sabendo de nada. Telefonei avisando que tinha resolvido ficar mais algum tempo em St. Stephen e que ligaria assim que chegasse. No quis
preocup-lo.
        Londres pareceu-lhe triste e cinzenta, depois das brilhantes cores tropicais do Caribe. Ou talvez fosse s um reflexo de seu desnimo. Desde que tinha acordado
no hospital, sentia-se num mundo estranho, onde nada parecia importar. A nica emoo que experimentava era a dor aguda que a feria, sempre que pensava em Zach.
        Seu apartamento ficava num pequeno prdio de linhas modernas. Tivera sorte em consegui-lo. Apesar de ficar razoavelmente perto do centro, era cercado de
jardins e numa rua tranquila, com muito pouco
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        movimento. Seu chefe tinha sido o fiador e, embora as prestaes fossem um pouco pesadas, Tamara sentia uma grande satisfao em saber que era a dona dele.
        O chofer do txi ajudou-a com as malas, acompanhando-a at o elevador. Enquanto pagava a corrida, ele lhe disse, francamente:
        - A senhorita disse que est voltando das frias, mas, pelo jeito, parece que est precisando de mais.
        Tamara olhou-se no espelho do hall social. Era verdade. Estava muito plida e abatida. Seu leve bronzeado havia desaparecido nos dias de hospital e perdera
alguns quilos que faziam falta ao corpo alto e esguio. Seu rosto tinha agora um ar vulnervel e os olhos pareciam maiores, sofridos, como se refletissem uma dor
que no podiam compreender.
        O voo a deixara exausta e sem coragem para nada. Largou a bagagem na sala, pegou lenis limpos no armrio, arrumou a cama e enfiou-se-entre as cobertas,
pegando no sono quase no mesmo instante em que deitou a cabea no travesseiro.
        Estava escuro quando acordou e levou vrios minutos at tomar conscincia de onde se achava. Acendeu o abajur e olhou o relgio. Trs da manh! No podia
ligar para Malcolm a essa hora. Resolveu voltar a dormir, porque tinha que estar no escritrio pela manh, mas descobriu que, apesar de seu corpo ainda pedir por
descanso, a mente estava alerta demais para permitir que relaxasse. Saiu da cama e foi desfazer as malas.
        A maioria das pessoas que conhecia nunca deixava de mostrar uma certa surpresa ao conhecer seu apartamento. At Malcolm, que no era do tipo interessado
em decorao, tinha feito um comentrio elogioso, embora com um leve tom de desaprovao.
        A prpria Tamara no estava bem certa de por que havia escolhido aquele tipo de decorao para sua casa. Talvez fosse a lembrana da infncia feliz passada
com seus pais. Tecidos naturais, em tons pastel, mveis de pinho, laos e babados faziam lembrar uma casa de boneca. Pagara uma pequena fortuna pelos papis de parede
e algumas peas de moblia, mas seu orgulho era uma cadeira de balano vitoriana que encontrara numa feira de antiguidades e tinha lixado e envernizado com todo
o carinho.
        Depois de colocar uma pilha de roupas na mquina de lavar,
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        Tamara foi fazer uma xcara de caf. Os armrios de pinho brilhavam suavemente  luz do lustre cor de limo e, pela janela, era possvel ver o terrao cheio
de flores
        e folhagens para onde dava a porta da sala.
        Levou o caf para o quarto e abriu o guarda-roupa, cujo conteudo fazia um grande contraste com a quase frivolidade do apartamento. Era como se toda a represso,
aprendida com tia Lilian e esquecida ao escolher a decorao, voltasse com fora total na escolha de seus trajes.
        Ao sair pela manh, Tamara sentiu, pela primeira vez, o desejo de usar algo mais colorido e moderno do que suas roupas clssicas. No metro, a caminho do
trabalho, descobriu-se examinando a maquiagem das moas  sua volta e se comparando com elas. Tia Lilian no aprovava mulheres "de cara pintada". Mesmo quando Tamara
ficou adulta e compreendeu que os comentrios da velha eram puro preconceito, no conseguiu sentir-se  vontade com a maquilagem muito colorida. Agora, no entanto,
viu-se imaginando se tambm poderia usar aquela sombra lils e batom num moderno tom de rosa.
        Enquanto andava pela Bond Street, teve a ateno despertada para vitrines que antes mal notava. No pde evitar de parar diante de uma delas em especial,
que exibia uma incrvel coleo de roupas de baixo parecendo sadas de um filme de Hollywood. Ela, que sempre comprava em cadeias de lojas que vendiam produtos padronizados,
viu-se admirando calcinhas de seda cor da pele, enfeitadas com fitas de cetim. Imaginou os dedos de Zach abrindo os lacinhos... e depois controlou-se rapidamente,
sentindo o rosto queimar de raiva e embarao. O que estava acontecendo? Que ideia era essa de ficar devaneando feito uma adolescente idiota, imaginando que roupas
sedutoras conseguiriam o milagre de fazer Zach se apaixonar?
        - Ora, ora, nunca pensei que voc fosse dessas que gostam de viver perigosamente!
        Tamara, que conhecia bem seu chefe, sabia que um comentrio bem-humorado seria suficiente como resposta e que ele no insistiria, querendo saber mais detalhes.
        Antes de partir da ilha, autoridades lhe informaram que tinham se comunicado com a firma onde trabalhava, dizendo que estava internada no hospital por causa
da picada de uma aranha. No revelaram em que circunstncias o acidente ocorrera, s dizendo que havia sido durante uma excurso pela floresta.
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        J fazia trs anos que Nigel Soames era chefe de Tamara. Trabalhavam muito bem juntos, apesar de terem personalidades to diferentes. Ela, fria e controlada,
enquanto Nigel tendia  exuberncia e  extroverso, tendo um talento especial que o fazia ter um extraordinrio sucesso no trabalho: o faro para descobrir e promover
novos talentos literrios.
        Apesar de a editora ser uma firma antiga e prestigiada, no tinha nada de antiquada, e Nigel sempre recebeu carta branca para publicar seus achados. Seu
maior sucesso havia sido a autobiografia ousada e controvertida de uma importante personalidade do cinema e de televiso, que, num momento vulnervel, aps perder
o papel principal numa srie nacional, resolveu fazer revelaes sobre os bastidores do mundo artstico. Outro grande golpe editorial foi a publicao de um romance
misturando fatos e fico, escrito por um hoteleiro de Hong-Kong, que em poucas semanas j estava na lista dos mais vendidos.
        Esses sucessos costumavam exaurir as energias de Nigel, que se entregava de corpo e alma  edio de cada novo livro, tratando seus autores como crianas
mimadas. O principal trabalho de Tamara era sustent-lo nessas "mars baixas" entre suas descobertas.
        Assim que tirou o casaco, ela percebeu que Nigel estava numa mar alta. Tinha todos os sintomas: o modo preocupado e inquieto, o andar constante pelo escritrio,
os incessantes cafezinhos e os longos silncios distrados. Tamara abenoou a capacidade do chefe de se absorver to completamente no que estava fazendo, porque
assim ficaria livre da sua ateno e curiosidade. A no ser por comentar que ela no estava to bronzeada como devia e contar piadas sobre aranhas, mal se referiu
 sua ausncia nos dez ltimos dias.
        Como sempre acontecia, quando havia um projeto em andamento, no fizeram intervalo para o almoo, comendo sanduches no escritrio.
        - Acho que consegui fisgar o homem - disse Nigel, cheio de entusiasmo. - Garanto que vai ser um estouro. Mas ainda no posso lhe contar nada.
        Tamara escondeu um sorriso. Nigel trabalhara como reprter durante muito tempo e ainda mantinha o instinto de guardar seus "furos" em segredo.
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        - Posso ligar para Malcolm daqui mesmo? Ele ainda no sabe que cheguei.
        - No sabe? - Nigel olhou-a, intrigado. - O que h com esse homem? Por que no foi esper-la no aeroporto para toma-la nos braos e lev-la para...
        - Para a casa dos pais? - completou Tamara, encolhendo os ombros num gesto tristonho. - Isso no seria do estilo de Malcolm.
        - Eu sei. O sujeito  to gelado que devia estar com os frangos no supermercado. O fato  que... - Parou e olhou para Tamara, com curiosidade. - Ei, essa
 a primeira vez que vejo voc reconhecer a situao. O que h, est com dvidas? Ou foi um romance de vero?
        - Concentre-se no seu novo "furo" - respondeu ela, com firmeza.
        - Ah, ah, ela no negou! O que ser que isso significa?
        - Significa que, como o resto das mulheres, gosto de ter meus segredinhos.
        Como Nigel diria  esposa na hora do jantar, era a primeira vez que se lembrava de ver sua secretria agindo como uma mulher.
        - Ela est apaixonada - disse. - Pode escrever o que estou dizendo.
        Pauline Soames, que j se encontrara com Tamara vrias vezes e sentia um pouquinho de pena dela, deu uma risada.
        - Claro que est, afinal, vai casar logo, no ?
        Tamara sabia que Malcolm no gostava que ela ligasse para seu escritrio. Exigente em tais assuntos, uma vez lhe havia explicado que no queria dar um mau
exemplo para os funcionrios; na poca, ela concordou inteiramente com ele.
        Na sua vozinha pedante de moa da alta sociedade, a secretria de Malcolm, filha de um casal de amigos de seus pais, informou-a de que ele ainda estava nos
Estados Unidos.
        - Vai ligar hoje  tarde - acrescentou. - Quer que lhe d algum recado?
        Depois de pedir que avisasse o noivo de sua chegada, Tamara voltou ao trabalho. s quatro horas, Nigel decidiu encerrar o expediente. Como passara os ltimos
trinta e cinco minutos rabiscando no bloco e olhando para o telefone com uma concentrao quase
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        fantica, ela s pde concluir que as coisas no estavam indo to bem como desejava.
        - Quer que eu fique aqui at mais tarde? Parece que voc est esperando um telefonema importante.
        - Estava. Mas algo me diz que no ser hoje. No, v para casa, Tamara. Voc est com uma aparncia horrvel - acrescentou, sem o menor tato.
        Era a pura verdade, como ela teve que admitir, desanimada, ao se olhar no espelho do toalete.
quela hora, ainda havia pouco movimento nas ruas e Tamara no precisava se apressar para pegar o metro.
        O salo Helena Rubinstein, por onde costumava passar todos os dias sem nem mesmo dar um olhar para as vitrines, agora pareceu ter uma atrao irresistvel,
quando
        ela se lembrou das moas maquiladas que tinha visto de manh.
        Sem nem mesmo perceber, entrou na luxuosa loja. Segundo a simptica e sorridente recepcionista, Tamara estava com sorte, porque uma cliente havia cancelado
a consulta
        e um dos esteticistas poderia atend-la imediatamente.
        O maquilador, um rapaz bonito e muito gentil, examinou seu rosto por vrios minutos, antes de dar uma opinio:
        - Sua estrutura ssea  excelente e, como a maioria das inglesas, voc tem uma pele boa, mas que no tem sido bem cuidada. Tambm precisamos fazer alguma
coisa para realar mais esses olhos cinzentos.
        com movimentos rpidos, removeu a pouca maquilagem que Tamara usava e aplicou um tnico, deixando sua pele macia e rosada.
        - Primeiro, uma base. No do tipo que voc usa. Estava pesada demais... muito grossa. Sua pele tem que respirar. S assim, sua verdadeira beleza vai surgir.
        Ele passou a base com uma esponja mida, aplicando uma camada muito fina, e Tamara ficou impressionada ao ver como seu rosto adquirira um brilho quase perolado.
        A hora seguinte foi uma revelao. Ela mal podia acreditar que aquela quantidade mnima de sombra lils que Pierre usara podia fazer seus olhos parecerem
to brilhantes e com uma cor quase violeta.
        - O segredo  a sutileza - explicou o esteticista. - Seus olhos so magnficos, mas ficam tristonhos e frios, se no usa uma
        maquilagem adequada. Foi por isso que realcei seus clios. Apesar de serem longos e espessos, tm um tom claro demais.
        Um toque de blush e um batom to bonito como o que tinha visto nas moas naquela manh completaram o efeito.
        Ajudada pela especialista e pelos conselhos de Pierre, Tamara comprou os produtos que usaria da em diante e saiu do salo sentindo-se uma nova mulher. Ainda
ouvia o ltimo conselho do esteticista:
        - Faa um bonito corte em seus cabelos. Escolha um penteado mais suave.
        Descendo pela avenida, diminuiu o passo ao passar pela loja que despertara sua ateno de manh. Uma parte dela caoava, dizendo-lhe que tudo aquilo era
pura frivolidade, mas outra, o lado feminino que tinha sido libertado pelas carcias de Zach, fez com que entrasse. Ansiava pelo contato da seda e do cetim na pele,
que ainda se lembrava de cada segundo febril em que o calor do corpo de Zach a queimava.
        A balconista veio atend-la, prestativa.
        - Aquele conjunto de calcinha e suti com fitinhas que est na vitrine - comeou Tamara, um pouco nervosa. - Eu...
        - No so um encanto? - A mocinha sorriu, entusiasmada. Acabamos de lanar. Tambm temos camisolas e robes no mesmo estilo. Venha, vou lhe mostrar.
        A seda cor de pssego ondulou sobre o balco. Os entremeios de renda delicada eram um luxo.
        - Por que no experimenta? - disse a mocinha, com um sorriso encorajador.
        Dizendo a si mesma que estava agindo como uma perfeita idiota, Tamara entrou no provador. A camisola, aparentemente recatada, tinha uma surpreendente sensualidade
quando vestida. Os entremeios revelavam partes considerveis de sua pele clara e a posio dos lacinhos era simplesmente provocante.
        Ao sair da loja, ainda no acreditava que tinha tido a coragem de gastar uma quantia to exorbitante numa causa perdida. Ficou muito corada ao se lembrar
da conversa com a vendedora. A mocinha pensava que ela estava comprando aquelas roupas para deleite do "noivo" e Tamara incentivou esse engano, apesar de saber que
s
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        havia um homem que desejava que soltasse aquelas fitas, substituindo-as por beijos. E no era Malcolm.
        Foi ento que decidiu terminar definitivamente com seu noivado. Teve algumas dvidas durante a viagem de volta, mas agora sabia que jamais poderia continuar
com ele.
        J se preparava para dormir, quando o telefone tocou. Seu primeiro pensamento, completamente desprovido de lgica, foi que podia ser Zach. Afastou essa ideia,
censurando-se por sonhar com o impossvel.
        Era Dot, ligando para saber como ia, em seu primeiro dia em Londres.
        - Estou muito bem! Na verdade, estou to bem que acabo de gastar um dinheiro em roupas novas.
        - Que timo!
        Depois de alguns minutos de conversa, Dot desligou, lembrando a Tamara de que fazia questo da sua visita.
        Era algo novo para a moa, saber que havia algum que se preocupava com seu bem-estar. Apesar de ter vrias amigas e colegas,
        sua reserva fazia com que se mantivessem
        um pouco distantes, sem intimidades.
        Mal havia desligado, o telefone tocou de novo. Dessa vez, era Malcolm. ,
        - com quem voc estava falando? Faz uns quinze minutos que estou tentando ligar - disse ele, com uma irritao que no foi aplacada pelas explicaes. -
Karen
        me deu seu recado. Imagino que tenha feito um bom voo.
        Nem uma palavra carinhosa, pensou Tamara, e logo descartou essa ideia, considerando-a desleal. Nunca tinha encontrado defeitos em Malcolm e no podia acus-lo
agora pelo que no considerava um trao positivo de sua personalidade. Se reclamasse porque no tinha perguntado por sua sade, sem dvida Malcolm responderia que
obviamente ela estava bem, seno, no teria voltado para casa.
        - Sim, sem incidentes - comentou, no mesmo tom frio do noivo. ; - Quando voc acha que vai voltar para c?
        - No fim de semana. J falei com meus pais e vamos visit-los. Assim, voc poder contar tudo sobre a viagem. No que eles tenham aprovado. Mame no concorda
muito com a ideia de uma moa viajar sozinha.
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        - No podemos deixar para uma outra ocasio? - comeou Tamara, aflita. - Preciso muito falar com voc e queria...
        - Teremos muito tempo para isso no fim de semana.
        - Mas eu...
        - Olhe, Tam, no posso falar mais. Estou a caminho de uma reunio. Pego voc na sexta-feira, no horrio de sempre. .vou desligar agora. At logo.
        Como no percebera antes quanto Malcolm era seco e pedante?, perguntou a si mesma, colocando o telefone no gancho.
        Conhecendo a mania do noivo pela pontualidade, j estava pronta bem antes das oito e meia. Sentou-se na poltrona e olhou para a mala, onde estava o vestido
comprado para usar no jantar de sbado. Os Mellors faziam questo de roupas formais nessas noites, e ela, que sempre se contentou com um pretinho e um fio de prolas,
dessa vez escolheu um longo de jrsei lils.
        Aceitando os conselhos de Pierre, agora usava os cabelos soltos e at tinha ido a um elegante cabeleireiro para cortar as pontas e fazer reflexos. Tambm
j sabia usar os novos cosmticos e, ao dar uma ltima olhada no espelho, sentiu que tinha todos os motivos para se orgulhar de si mesma. Os cabelos estavam com
um brilho quase prateado, a sombra realava seus olhos, tornando-os mais vivos e alegres, e o batom, cor de framboesa, combinava maravilhosamente com seu tom de
pele.
        Para a viagem, escolhera um traje muito diferente dos taierzinhos de sempre: um conjunto de cala comprida, jaqueta e camiso, preso por um cinto largo,
de cor contrastante.
        Malcolm chegou exatamente no horrio combinado e a expresso de desaprovao em seus olhos foi quase hilariante.
        - Voc vai viajar vestida desse jeito?
        - Por que no? - perguntou Tamara, friamente. - So roupas bonitas e muito confortveis.
        - Parece uma adolescente.
        Ela se recusou a responder. Mulheres muito mais velhas usavam trajes como aquele, modernos e descontrados; alm disso, estava decidida a salvar o que podia
daqueles anos estreis passados com tia Lilian, que lhe haviam roubado a natural espontaneidade da juventude.
        Malcolm levou suas malas at o carro, num silncio desaprovador.
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        Sentada no possante BMW, Tamara comeou a se arrepender de no ter falado com ele que queria terminar o noivado. Malcolm detestava conversar enquanto dirigia
e,
 medida que os quilmetros passavam, ela sentia a tenso aumentar. Seria muito desagradvel desfazer o compromisso na casa dos pais do noivo. Chegou a pensar
em esperar at a segunda-feira, mas seu senso de honestidade exigia que esclarecesse tudo o mais rpido possvel. No queria passar o tempo todo fingindo; j que
estava mesmo decidida, era melhor terminar logo com o assunto.
        Os pais de Malcolm ficavam acordados at mais tarde quando esperavam o filho e a noiva para o fim de semana. Depois dos cumprimentos, como num ritual, foram
para a sala de visitas para um clice de vinho do Porto. Tamara no pde deixar de notar o olhar chocado da sra. Mellors ao ver sua nova aparncia e no teve dvidas
de que ela estava pensando que o filho tinha escolhido a moa errada.
        - Bem, agora vamos deixar os pombinhos a ss - disse o general, com uma galanteria desajeitada que irritou Tamara. - Na certa, vai querer contar tudo sobre
suas frias a Malcolm, minha jovem.
        - Pobrezinha, que experincia terrvel! - comentou a sra. Mellors. - Lembro-me da poca em que Humphrey servia em Sri Lanka. Era preciso ter tanto cuidado
com os insetos! Detesto climas quentes: so pouco saudveis e anti-higinicos. Nunca achei uma boa ideia voc viajar sozinha para os trpicos. E devo dizer que no
foi sensata em se aventurar nesse passeio pela floresta. Devia...
        - Vamos, meu bem - interrompeu, o general -, os noivos precisam de algum tempo s para eles. Conversaremos amanh.
        A sala de visitas parecia apertada e opressiva. Tamara ainda sentia o perfume que a sra. Mellors costumava usar e teve vontade de sugerir uma volta pelo
jardim. Talvez l ficasse mais relaxada para dizer o que tinha para ser dito.
        - Acho que mame tem toda a razo, sabe? - comeou Malcolm, num tom de lamento, enquanto se servia de mais vinho. - Eu mesmo no fiquei muito satisfeito
com a ideia
        de voc passar frias sozinha. Se no tivesse insistido tanto...
        - Em outras palavras, foi bem-feito eu ter sido picada por uma aranha, no ? - perguntou Tamara, seca.
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        Por que no percebera antes como aquela famlia era to pedante e Malcolm, quase infantil?
        - Bem, voc tem que admitir que isso no teria acontecido, se ficasse em casa.
        - Como uma noiva obediente?
        Subitamente, a tarefa que tinha pela frente no lhe pareceu to difcil, e agradeceu a Malcolm por lhe dar o pretexto de que precisava.
        - Malcolm, tenho uma coisa para lhe dizer. - Tirou o anel do dedo. - Acho que devemos terminar nosso noivado. Seria um erro para ns dois. Voc precisa de
uma esposa com mais traquejo social do que eu.
        - Talvez, mas voc poder aprender - ele falou, com uma franqueza e falta de tato que a chocaram. - Mame poder lhe ensinar muita coisa.
        - Malcolm, parece que no entendeu. No  uma questo de eu "aprender" a ser o tipo de esposa que deseja. Simplesmente, no quero mais casar com voc.
        - Quer dizer que encontrou outro? Que teve um desses romances baratos, de frias?  isso? - perguntou, comeando a ficar vermelho de raiva.
        Aquilo estava to perto da verdade, que Tamara chegou a sentir uma pontada de dor. Porm, continuou, num tom altivo:
        - No que me diz respeito, no foi um romance barato. Mas voc tem o direito de consider-lo assim, se quiser.
        - Voc vai se arrepender. Ns poderamos ter uma boa vida juntos
        - disse Malcolm, depois de alguns instantes. Parecia ter recuperado o controle, e Tamara notou que no estava fazendo nada para convenc-la a mudar de ideia.
- H s uma coisa - acrescentou.
        Ela esperou.
        - Ser que podemos deixar as coisas como esto por enquanto? Meus pais convidaram um vizinho para o jantar de amanh, algum muito importante na regio,
e, se voc for embora...
        - vou perturbar o arranjo da mesa? - sugeriu, irnica.
        - Voc me deve pelo menos isso. Ser muito desagradvel. para meus pais saberem que foi voc que quis terminar o noivado... que no foi uma deciso que tomamos
juntos. Se tivesse me dito antes,
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        no teramos vindo para c. Prefiro contar a eles depois que voltarmos a Londres.
        Compreendendo a posio de Malcolm e sabendo que era culpada por no ter falado antes, Tamara no pde recusar. com relutncia e desgosto, colocou o solitrio
de volta no dedo.
        - Ento, est combinado - disse ele, com evidente alvio. timo. No gostaria de saber que Zachary Fletcher estava rindo de mim pelas minhas costas. J tive
bastante disso nos nossos tempos de colgio.
        Tamara sentiu como se todo o ar tivesse sido retirado de seus pulmes. Felizmente, Malcolm no olhava para ela naquele momento. Seno, sem dvida teria adivinhado
a verdade.
        - Zachary Fletcher? - Sua voz estava mesmo tremendo tanto, ou era impresso?
        - Sim. Ele mora a alguns quilmetros daqui. Herdou uma propriedade enorme do tio. Houve uma poca em que era do exrcito. Agora no sei o que tem feito da
vida. Meus pais s o convidaram porque esperam convenc-lo a permitir que usemos suas terras nas nossas caadas. - Olhou para o relgio. - Bem, vou me deitar. Lembre-se
Tamara: no que diz respeito a todos, ainda estamos noivos. Pelo menos, at o fim de semana terminar.
        Sozinha na sala de visitas, Tamara teve que lutar para controlar o riso histrico. De todas as cruis ironias do destino, aquela era a maior! Zachary Fletcher,
vizinho dos pais de Malcolm! Zachary Fletcher, que prometera nunca contar a seu noivo o que havia acontecido, era seu amigo de infncia. Zachary Fletcher ia sentar-se
frente a frente com ela na mesa de jantar da sra. Mellors. Aquele mesmo Zachary Fletcher que nunca poderia saber que ela estava desmanchando o noivado por sua causa.
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        CAPITULO VII

        Zachary, ali! Tamara ainda no conseguia acreditar, apesar de saber que ele chegara porque tinha ouvido o barulho do carro e a campainha da porta.
        Passara o dia num constante estado de tenso e dava graas pelos pais de Malcolm serem to pouco sensveis; seno, teriam notado que havia algo de errado.
        Ela e Malcolm tinham sado para dar uma volta depois do almoo. Os Mellors acreditavam firmemente nos benefcios do ar puro e insistiram num passeio para
"acabar com essa palidez", como disse a me de Malcolm, acrescentando, com uma pontinha de maldade, que aquele ar abatido devia ser resultado
        da nova maquilagem.
        Tamara teve que morder a lngua para no dar uma resposta malcriada. Disse a si mesma que, como era a ltima vez que passava um fim de semana ali, no custava
fazer
        o possvel para no brigar. A ltima coisa que queria era sair para um passeio. De fato, no se sentia nada bem. O almoo tinha sido um pouco pesado e parecia
estar lhe fazendo mal. J h algum tempo vinha tendo uns enjoos, mas os mdicos de St. Stephen avisaram que eram um dos efeitos secundrios do veneno da aranha,
que levaria algum tempo em seu organismo, at ser totalmente eliminado pelo fgado.
        Sentada diante do espelho, lembrou-se da expresso do mdico ao lhe dizer que escapara da morte por um fio, que teria morrido em poucas horas, no fosse
a ao rpida de Zach. Seus dedos comearam a tremer, enquanto passava o batom. E agora, depois de dias e dias tentando se convencer de que estava tudo acabado e
que nunca mais o veria, ia encontr-lo novamente.
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        "Oh, Deus! No posso descer e enfrent-lo. No posso!"
        Mas sabia que teria que reunir todas as foras para continuar com aquela farsa. Se desaparecesse agora e Zach fizesse alguma meno  sua viagem ao Caribe,
Malcolm ia somar dois mais dois. No sabia exatamente qual o grau de amizade entre eles. E se o noivo falasse do rompimento? No! Zach acabaria desconfiando de que
estava apaixonada por ele, e no poderia suportar isso!
        Assim, Tamara concentrou-se em passar o batom com o mximo cuidado, terminando a maquilagem que Pierre lhe ensinara. No era maquilagem, pensou, meio histrica...
era uma pintura de guerra. Para que aparentasse mais coragem do que sentia.
        Levantou-se com um suspiro e foi se olhar no espelho de corpo inteiro. Perfeito! O vestido lils caa sem uma ruga, a maquilagem estava no ponto certo, suas
unhas perfeitas, os cabelos, bem escovados, estavam brilhantes e sedosos.
        Parou ao chegar na porta. Num ltimo gesto de bravura, .voltou para a penteadeira e colocou mais perfume nos seus pulsos e no pescoo. Depois, lembrando-se
de que os Mellors eram cuidadosos com a conta de luz e s vezes no ligavam o aquecimento da sala de visitas, pegou um xale prateado para colocar nos ombros, se
fosse preciso.
        Os outros j estavam na sala. A empregada servia um clice de vinho do Porto a Zach.
        Ainda no tinham notado sua presena. Tamara sentiu um impulso covarde de fugir, sem se importar com as consequncias. J estava dando um passo atrs, quando
Malcolm a viu e veio em sua direo. Apesar de um pouco cheio de corpo, ficava muito bem em roupas formais e fazia uma bonita figura.
        - Ah, a est voc, querida! - Passou o brao pela cintura dela, num gesto possessivo e inesperado. - Hummm, que perfume gostoso. Qual ?
        - Diorssimo - respondeu Tamara, automaticamente, seus olhos atravessando a sala, que parecia um abismo entre ela e Zach. Olharam-se s por um segundo. Depois,
ela se virou para aceitar o vinho que a empregada lhe oferecia.
        - Que lindo vestido, meu bem - disse a sra. Mellors, com um sorrizinho forado. -
 uma cor to diferente! Acho que no a vi com ele antes. Quando eu era noiva,
        guardava todo meu dinheirinho
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        para e enxoval. Mas as coisas so muito diferentes hoje em dia,  claro.
        Tamara deu um pequeno suspiro. Como podia ter pensado em casar com Malcolm, sabendo que teria uma sogra como aquela?
        - Zachary - disse o general -, deixe-me apresent-lo  minha futura nora. Tamara, esse  Zachary Fletcher, nosso vizinho e um bom amigo.
        - Muito prazer, sr. Fletcher.
        Tamara maravilhou-se com o tom calmo da sua voz, com a firmeza com que seus dedos tocaram os dele, como se fosse um perfeito estanho.
        - Tamara... terei que cham-la assim. O general no me disse seu sobrenome.
        Havia zombaria e algo mais... uma dureza, uma inflexibilidade... sublinhando as palavras. Porm, ningum pareceu notar. Como tambm no notaram a atmosfera
pesada que se prolongou a noite toda. Tamara teve a impresso de que havia um fio eltrico entre ela e Zach e que a simples presena dela lhe provocava choques.
        Durante o jantar, os Mellors comearam a falar sobre os abusos do imposto de renda e os problemas da transmisso de propriedades aos descendentes.
        - Naturalmente, para ns, no haver muitas complicaes. Malcolm  Filho nico e essas terras esto com a famlia desde o tempo da rainha Vitria.
        - E o que Tamara acha de viver no campo? - perguntou Zach, num tom despreocupado, dirigindo-se ao general, mas olhando-a fixamente.
        - Oh, ela j sabe que ter que vir para c depois do casamento. Malcolm no viveria em outro lugar - disse a sra. Mellors, antes que o marido pudesse responder.
- E, naturalmente, a obrigao da mulher  seguir o marido.
        - Ah, sim, na alegria e na dor, no ? - Zach ainda observava o rosto ligeiramente corado de Tamara. - Uma crena estabelecida, mas s vezes impossvel de
ser seguida.
        E sua carreira, Tamara? No tem suas prprias ambies?
        Ele a estava colocando em m posio de propsito. Devia conhecer muito bem a me de Malcolm e sabia qual seria sua reao. Devia
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        desprez-la por ter-se entregado a ele, sendo noiva de outro homem, e por isso tentava feri-la.
        - Uma mulher casada no precisa de ambies e deve fazer tudo para agradar o marido - disse a sra. Mellors, com firmeza. Tamara logo vai se acostumar a morar
aqui. S  uma pena que ela se recuse a caar.
        Tendo a velha desviado a conversa para o assunto que era o propsito daquele jantar, o filho e o marido juntaram-se  ela, comeando a falar entusiasticamente
sobre
        as delcias das caadas. Paravam de vez em quando para perguntar a opinio de Zach, que sempre respondia num tom agradvel e impessoal, no deixando claro
nem suas
        ideias nem suas intenes com relao ao acesso s suas terras.
        Quando terminaram o jantar, o general levantou-se.
        - Bem, que tal ns homens irmos tomar caf no meu estdio? Assim, as mulheres tero tempo para fazer os planos para o casamento, no , Tamara?
        As duas ficaram na sala de visitas, mas no tocaram em casamento. A sra. Mellors fazia tudo para evitar o assunto e Tamara, sorrindo intimamente, pensou
que j podia parar de rezar, pois seu maior desejo seria atendido dentro de muito pouco tempo.
        Alegando dor de cabea, pediu licena para se retirar logo que os homens voltaram. Suspeitou, pela expresso aborrecida do general, de que as coisas no
tinham sado como ele queria, o que foi confirmado, quando ouviu Zachary dizer, friamente:
        - Sim, general, respeito sua opinio e no tenho nada a ver com o modo como as pessoas gostam de se divertir. No entanto, tenho planos para minha propriedade
e no incluem a permisso para a caa  raposa.
        Ao chegar ao quarto, Tamara abriu as torneiras da banheira e comeou a tirar a roupa. Ao estender o vestido sobre a cama, no pde deixar de se felicitar
por sua sofisticao.
        Uma coisa tinha aprendido com Zach; talvez, a nica coisa boa daquele estranho relacionamento: o prazer da sensualidade e da feminilidade.
        Ia comear a tirar a maquilagem, quando ouviu uma batidinha na porta. Pegando o robe de cima da cama, foi abrir, com uma expresso
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        de desnimo. A ltima coisa que desejava no momento era uma conversa com Malcolm.
        Assim que abriu a porta, disse, num tom cansado:
        - Oh, Malcolm, por favor... no esta noite...
        - Ora, ora, as coisas mudaram muito, desde que voc saiu de St. Stephen! - Comentou Zach,Entrando sem a menor cerimnia.
        Se um traje de noite ficava bem em Malcolm, transformava Zach num verdadeiro semi-deus. Instintivamente, Tamara deu um passo para trs, sabendo o perigo
que ele representava para suas frgeis defesas.
        - Voc  cheia de surpresas - continuou Zach, fechando a porta e encostando-se nela, com os braos cruzados, bloqueando qualquer esperana de fuga. - O que
aconteceu? Posso adivinhar? Bem, vejamos... Depois de perder a virgindade para mim, teve que encontrar novos meios para manter Malcolm interessado. Assim, resolveu
passar da inocncia para a sofisticao. E o pobre diabo nem desconfia de que essa sua nova aparncia, esse ar de experincia, foram conseguidos nos braos de outro
homem. Espertinha, hein? Mas, deixe-me avis-la de uma coisa: sua querida sogrinha no  nenhuma boba e j percebeu que h algo errado. No quer v-la casada com
o filhinho do corao.
        - A nica coisa que interessa  o que Malcolm e eu queremos disse Tamara, altiva, a raiva vencendo o choque provocado por aquelas palavras.
        - E Malcolm quer voc, no? No  de admirar! - Zach falou num tom arrastado e insultuoso. - Vestida desse jeito, voc parece a resposta aos sonhos de um
adolescente: a modelo do playboy transformada em realidade.
        O barulho da palma da mo de Tamara no rosto dele encheu o quarto, deixando-a plida e transtornada, odiando a si mesma pela violncia de seu gesto.
        - Ora, vamos - caoou Zach, ignorando a marca vermelha na pele morena. - O -que tinha em mente? Excitar bastante o homem para depois vir com aquela vozinha
cansada: "no esta noite"? Aposto que o coitado teria cado duro. Ele  daqueles que acham que s h dois tipos de mulher: aquelas com quem a gente casa e aquelas
que se leva para a cama.
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        - Fora! - disse Tamara, por entredentes. - Fora daqui!
        Foi mil vezes pior do que ela poderia ter imaginado em seus piores momentos. Apesar do sorriso, os olhos cor de jade estavam to frios e vazios como um pedao
de vidro.
        - S quando eu quiser - disse Zach, acrescentando num tom quase despreocupado. - Sabe que, desde que fiz amor com voc, no houve um s dia em que no lamentei
ter tirado do seu futuro marido o privilgio de ser o "primeiro"? Cheguei a imaginar que o que tinha acontecido entre ns a faria sentir-se culpada a ponto de terminar
o noivado. Que bobagem... Eu nem devia ter me preocupado, no ? Uma vagabunda astuciosa como voc logo encontrou um jeito de virar a situao a seu favor.
        Tamara teve, vontade de agredi-lo de novo, mas no poderia suportar mais esse contato. Tinha que se livrar de sua presena perturbadora
        - O que veio fazer aqui?
        - O que ? Est com medo de que eu a denuncie e ele desmanche o noivado? - perguntou, cheio de desdm.
        Seu desprezo pareceu liberar uma torrente de raiva dentro de Tamara; uma raiva to forte que ela no se importou mais com os riscos.
        - Por que acha que Malcolm ia querer romper o compromisso? disse, num desafio. - Talvez ele me prefira com a experincia que tenho agora!
        Todo o corpo de Zach pareceu enrijecer. Apesar de satisfeita por ter levado a melhor, Tamara comeou a temer as consequncias de suas palavras.
        - Bem, nesse caso - murmurou Zach -, acho que eu podia aumentar um pouco essa experincia.
        Agiu to depressa, que Tamara no teve como escapar. Seu robe foi aberto com violncia e os ombros nus agarrados com fora, enquanto Zach a bejava de um
jeito brutal. A cabea de Tamara comeou a girar. No conhecia aquela paixo sdica e assustadora. Ainda assim, seu corpo respondeu  excitao primitiva, colando-se
ao dele, esfomeado de desejo.
        Quando ele afastou os lbios dos dela, os dois estavam trmulos; Tamara, de paixo; Zach de raiva.
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        - Sua sem-vergonha! Voc gostou disso, no foi?
        Sentindo-se doente, Tamara olhou para ele, sabendo que, mesmo que quisesse, nunca conseguiria faz-lo compreender. Zach s queria degrad-la e insult-la,
mas seu corpo ansiava pelo dele e no fazia diferena entre o prazer e o castigo.
        - Tamara, posso entrar?
        Ela gelou ao ouvir a voz de Malcolm. Trmula, comeou a amarrar o cinto do robe, evitando olhar para o sorriso desdenhoso do homem  sua frente. De repente,
lembrou-se de que tinha deixado a torneira do banheiro aberta.
        - S um minutinho -disse, e correu para fechar a gua, antes de abrir a porta.
        Que Zach inventasse a desculpa que bem entendesse para justificar sua presena no quarto dela. No se importava com mais nada. Sem dvida, ele estava pretendendo
humilh-la e feri-la, mas no conseguiria. S ia fazer Malcolm sofrer com o orgulho ferido.
        - Queria conversar melhor com voc... - comeou o rapaz, assim que entrou. Depois, o choque de ver Zach o fez parar e olhar para os dois, com a testa franzida.
- O qu...?
        - Pedi  sua me para me dizer qual era o quarto de Tamara explicou Zach, absolutamente tranquilo. - Ela esqueceu isso l embaixo. - Tirou uma bolsinha prateada
do bolso do palet. - Vim devolver.
        Quando ficaram sozinhos, Malcolm virou-se para ela e disse, num tom queixoso:
        - No sei porque mame no falou para ele deixar sua bolsa na sala at amanh. Olhe, Tam, sobre o que me disse ontem  noite...
        - No temos mais nada a conversar. Nosso noivado est terminado. E, se for honesto consigo mesmo, acabar admitindo que  melhor assim.
        Para fugir ao mximo daquele fim de semana to desagradvel, Tamara dormiu at mais tarde no domingo, perdendo a hora da missa. Ao voltar, a sra. Mellors
deixou bem claro sua desaprovao, acrescentando que, assim que a moa fosse morar em Cotswolds, seria seu dever servir de exemplo para as pessoas mais simples,
comparecendo religiosamente  igreja.
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        No final da tarde, Tamara no via a hora de voltar  abenoada solido de seu apartamento.
        Devolveu o anel para Malcolm assim que pegaram a estrada. Ele no fez qualquer sugesto para se encontrarem outras vezes, nem lhe pediu para reconsiderar,
o que a fez desconfiar de que logo procuraria consolo com outra ... algum que sua famlia aprovasse.
        Para desgosto de Tamara, o principal assunto da conversa durante a viagem para Londres foi Zachary Fletcher. Malcolm parecia detest-lo e, em sua irritao,
at se esqueceu de que no gostava de falar enquanto dirigia.
        - Foi muito azar ele ser o nico herdeiro do tio e ficar com a propriedade. Zachary no  do nosso nvel. A me dele era artista de teatro. - Fez aquilo
parecer um pecado imperdovel. - E era do exrcito...
        - Mas seu pai deve aprovar isso - interrompeu Tamara.
        - Aprovaria, se ele tivesse seguido carreira - disse Malcolm, com desdm. - Mas acontece que foi desligado e agora anda por a, vagabundeando.
        Tamara imaginou o que ele diria, se lhe contasse que Zach no "andava vagabundeando", mas que tinha um importante posto no Servio Secreto. Porm, achou
mais prudente ficar calada.
        Na manh de segunda-feira, quando Tamara acordou para ir trabalhar, sentiu uma tonteira que quase a fez cair. Ao pensar em preparar o desjejum, seu estmago
contorceu-se em nusea. Ps a culpa naquele fim de semana to cheio de tenses e na comida pesada da casa dos Mellors.
        Nige comentou que estava plida e abatida demais para quem acabava de voltar do campo e sugeriu que procurasse um mdico para fazer um exame geral.
        -  melhor tomar cuidado - disse, muito srio. - Voc pode estar com uma dessas doenas tropicais e...
        - Obrigada, Nigel, mas lembre-se de que fui picada por uma aranha.
        Ele deu uma risadinha. Estava novamente com aquele ar entusiasmado, tipo "dessa vez acertei na mosca", e saiu do escritrio assobiando desafinado, sinal
certo de que as coisas iam caminhando
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        exatamente como queria. Todos comentavam que encontrava mais prazer na caa a novos talentos do que na publicao de seus sucessos.
        Apesar de ter desdenhado o conselho de Nigel, depois de uma semana de contnuo mal-estar, Tamara resolveu fazer um exame geral. A editora tinha um convnio
com uma grande clnica e o mdico que a atendeu foi brusco e direto.
        - No h nada de errado com voc - disse, secamente, depois de examin-la e fazer muitas perguntas. - A no ser que considere a gravidez como uma doena.
Preciso fazer alguns testes para ter absoluta certeza, mas aposto que j est de algumas semanas. Se estiver e quiser um aborto...
        - No!
        Ela nem precisou pensar no assunto. Pela primeira vez desde o incio da consulta, viu um ligeiro sorriso no rosto do mdico.
        - Muito bem. Ento, volte daqui a uns quinze dias. Os testes levam uma semana para ficar prontos e minha secretria lhe dar o resultado pelo telefone. Se,
como suspeito, voc estiver mesmo grvida, ela tomar as providncias necessrias para marcar o pr-natal, as aulas de relaxamento, todo esse tipo de coisas.
        Tamara saiu da clnica sentindo que andava nas nuvens. Grvida! Ainda no conseguia acreditar. Apesar de todos os sinais, que to ingenuamente tinha ignorado,
no pensara nessa hiptese. Simplesmente, nunca lhe havia ocorrido que podia conceber um filho de Zach.
        Um filho de Zach! O pensamento a fez parar bruscamente, dividida entre a alegria e a dor. Alegria por estar grvida do homem que amava e dor porque ele nunca
saberia da existncia dessa criana.
        S mais tarde, comeou a agonia. Qual seria a melhor soluo? Se desse o beb em adoo, ele seria criado por uma famlia normal, pais amorosos que lhe dariam
todo o carinho. Tinha o direito de priv-lo disso? Mas tambm no tinha o direito de ficar com ele?
        - Tudo em ordem? - perguntou Nigel, entrando no escritrio logo depois dela e olhando-a com um ar intrigado, ao ver sua expresso confusa. - Tamara?
        - Estou grvida.
        - Grvida? - Nigel fez uma careta. - Diabo! Acho que isso significa que vai ter que apressar o casamento e vou perd-la bem no meio da maior coisa que j
aconteceu a esta editora!
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        Tamara fez um esforo para conter uma gargalhada. Ele era o mximo do egosmo.
        - No vai haver nenhum casamento - disse, calmamente, mostrando a mo esquerda. - Ainda no reparou que estou sem o anel de noivado?
        - No posso acreditar! Nem um palhao como Malcolm a abandonaria quando est para ter um filho dele!
        - Voc errou duas vezes. - Tamara ficou surpresa com a alegria que conseguiu aparentar. - Primeiro, o beb no  de Malcolm; segundo, fui eu que desmanchei
o noivado... antes de saber sobre o beb. No que isso mudasse minha deciso. Terminei meu compromisso com ele porque no o amava, e no casaria s para dar um nome
ao filho de outro homem.
        - Entendo. - Nigel sentou-se na ponta da escrivaninha e comeou a brincar com um lpis. - Hummm... Bem que notei uma certa... no sei, algo como se voc
estivesse desabrochando... aprendendo a viver. E ento, vai casar com o pai da criana?
        Tamara sacudiu a cabea.
        - Foi um encontro muito breve disse, tentando parecer
        despreocupada. - Eu o amava. Ele s me desejava. O fato de eu estar grvida  algo que s diz respeito a mim. O que preciso saber agora : voc vai aceitar
que eu continue trabalhando aqui?
        Foi muito difcil falar assim to casualmente, mas precisava saber.
        - Por mim, est tudo certo; mas no ser fcil para voc. Especialmente depois que o beb nascer. Haver problemas de horrio... voc ter de arranjar algum
para ficar com ele. Bem, pelo menos tem sua prpria casa. Pode ficar sossegada: daremos um jeito.
        Tamara virou o rosto para esconder as lgrimas de gratido.
        - Esse homem... -- continuou Nigel - imagino que o conheceu no Caribe. Voc disse que o amava. No ser s impresso? Malcolm talvez no seja o sujeito mais
excitante da terra, mas...
        Tamara balanou a cabea.
        - No. Para as duas perguntas.
        - Hummm... Bem, sei quando estou diante de uma mocinha decidida. A propsito, falando de pessoas decididas, consegui marcar uma entrevista para levarmos
em frente esse meu novo projeto. Coisa grande, Tamara. Vamos almoar com o homem na sexta-feira.
        Prepare-se
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        para conhecer um filantropo, algo muito raro nos dias de hoje. Ele est planejando transformar sua manso num centro de reabilitao para crianas e o livro
        vai ajud-lo a financiar o projeto.
        - E sobre o que vai ser o livro?
        - Uma mistura de fatos e fico, com muita poltica e jogos entre grandes potncias. O homem  esperto, conhece bem seu campo de ao, mas est decidido
a no se vender barato. Sabe que tem um tremendo sucesso nas mos. No posso deixar que uma coisa dessas v parar em outra editora.
        - Parece impressionante. Voc quer que eu faa anotaes, ou prefere levar o gravador?
        -  melhor estarmos preparados para as duas coisas. Pelo esboo que ele me mandou, parece que no vamos ter muito o que discutir. O homem estudou literatura
em Cambridge e sabe muito bem o que faz.
        O resto do dia passou numa confuso de telefonemas e a escolha da capa para um livro infantil que estava editando. S quando chegou ao apartamento, Tamara
pde pensar melhor em sua gravidez.
        O filho de Zach! Ps a mo na barriga que ainda no mostrava qualquer sinal daquela presena. Gostaria que fosse menino. Porm, no mesmo instante, pensou
que no devia tentar abafar a personalidade daquele beb. Teria sempre que se lembrar de que ele provavelmente herdaria muito da orgulhosa independncia do pai.
E ia precisar muito dela, embora o fato de ser filho de me solteira j no tivesse tanta importncia para a sociedade.
        Nem lhe ocorreu entrar em contato com Zach. Ele com certeza ia sugerir um aborto. Talvez at fizesse qualquer observao sarcstica, naquele tom arrastado
e odioso, pondo em dvida a paternidade e insinuando que o filho devia ser de Malcolm.
        No, era melhor que no soubesse de nada.
        Comeou a andar pelo apartamento, fazendo planos. O segundo dormitrio, que era menor e que usava como escritrio, teria que ser reformado para receber o
beb. Era pena o prdio no ter um jardim, mas havia o parque, que no ficava muito longe. Talvez, mais tarde, encontrasse uma casinha... Pouco antes do parto, teria
que procurar uma agncia para arranjar uma bab...
        Pela primeira vez, desde sua volta do Caribe, Tamara comeou a sentir que havia um propsito em sua vida. Encontrara uma razo para
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        viver, em vez de continuar simplesmente existindo. Zach no podia ser dela, mas seu filho...
        Ainda sorria, quando foi se deitar. Mas lgrimas tristes comearam a deslizar pelas faces antes de pegar no sono. Ter o filho de Zach seria um doce prazer,
mas sempre haveria a amargura de saber que o pai no estaria l para v-lo crescer.
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        CAPTULO VIII

        Nigel veio dizer a Tamara que no dia seguinte visitariam o novo autor.
        - Agora que ele se comprometeu verbalmente conosco, espero conseguir algo de concreto bem depressa. Portanto, use seu mais doce sorriso com o homem.
        Tamara fez uma careta para ele. Nigel costumava brincar com seu antigo modo de tratar as pessoas, frio e distante. Por isso, agora que estava com aquela
nova viso da vida resolveu surpreend-lo. Na manh seguinte, quando foi busc-la para sarem, no pde evitar uma pontinha de orgulho, ao ver seu ar de admirao.
        Escolhera cuidadosamente o que usar naquela visita. Desde a volta das frias, nas poucas semanas antes de ficar sabendo que estava grvida, tinha renovado
completamente o guarda-roupa. Ao morrer, tia Lilian lhe deixara a casa e um bom dinheiro cuidadosamente investido. At ento, a nica despesa de Tamara havia sido
a entrada do apartamento; por isso, tinha dinheiro bastante para se dar ao luxo de ser at um pouco extravagante. Seu vestido de linhas clssicas, num tom de azul-petrleo,
era de uma butique exclusiva e com a blusa de cambraia branca, com babados, formava um conjunto feminino e sofisticado.
        - Muito bonito - disse Nigel. - E tambm gosto dos seus cabelos assim, soltos. Voc fica parecendo... no sei... mais acessvel.
        - Espero que no acessvel demais - brincou.
        Sabia que tinha todos os motivos para estar se sentindo muito mal. Ia ter um filho e no era casada. Tia Lilian ficaria horrorizada. Mas
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        tudo que conseguia sentir era uma imensa alegria. Era como se a criana que levava no ventre a ajudasse a suportar a ausncia de Zach. No entanto, no estava
olhando o mundo com culos cor-de-rosa. Sabia que teria dias duros  frente, dias em que se arrependeria da deciso de ter de ficar com aquele beb; mas estava certa
de que tambm haveria imensas satisfaes e uma nova dimenso em relao  vida.
        - Acorde, sonhadora! - brincou Nigel, abrindo a porta do carro. Tamara acomodou-se no banco. Essas visitas aos autores no eram
        raras. A editora tinha a poltica de mimar seus contratados e era frequente os editores irem  casa deles, em vez de cham-los para uma entrevista em Londres.
Normalmente, Tamara ficava em segundo plano durante essas conversas, anotando as coisas mais importantes para Nigel no se esquecer de nada.
        Pegaram a estrada para Bristol, que estava relativamente vazia.
        - Felizmente, ainda  cedo para o pessoal fugir para o fim de semana - disse Nigel.
        O dia estava fresco e claro. Nuvens brancas pontilhavam o cu muito azul. Tamara recostou-se no banco, saboreando uma intensa sensao de bem-estar. Uma
hora depois, chegaram a Bristol e Nigel entrou na estrada que margeava o canal, tomando a direo dos campos ao sul.
        Tamara j conhecia bem a regio por causa de suas visitas aos pais de Malcolm, mas nunca se cansava de admirar a paisagem e os pequenos vilarejos que pareciam
sados de contos de fadas.
        - No falta muito agora - disse Nigel, ao ouvi-la suspirar de prazer e imaginando que estivesse cansada. - Estou procurando por um vilarejo chamado Wharton.
Deve haver uma placa em algum lugar  nossa esquerda.
        Pouco depois, entravam numa estradinha que serpenteava por entre bosques, ladeada de arbustos floridos. Tamara abriu o vidro para deixar entrar o ar puro
e doce do campo. Apesar de a me de Malcolm achar o contrrio, ela gostava muito da vida rural, e, nesse momento, no podia pensar em nada melhor do que morar em
um dos encantadores chals que formavam a cidadezinha de Wharton. Embora bastante parecido com outros da regio, que ficara conhecendo em
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        seus passeios com Malcolm, o vilarejo tinha jim charme especial, talvez por estar encravado num vale, cercado de colinas suaves.
        - Mais uns trs ou quatro quilmetros, e chegaremos - disse Nigel. Depois, com um ar pensativo, acrescentou: - Sujeito interessante, esse nosso anfitrio.
Nunca pensei que fosse do tipo filantrpico. Tem um jeito duro e  muito esperto. Quase ca duro, quando ele me disse que pretende usar os direitos autorais do
livro para ajudar a transformar a manso num centro de reabilitao. Claro que ele ainda ficar com as terras e com a outra casa, que  menor, mas muito confortvel.
Ainda assim...
        - Como  ele? - perguntou Tamara, que j estava morrendo de curiosidade por causa do ar misterioso de Nigel, que at agora se recusara a dar-lhe maiores
informaes sobre o homem. Imaginava que devia ser um figuro da poltica, aproveitando a aposentadoria I para escrever um livro em que pudesse usar seus conhecimentos.
        - Espere para ver. O que achou do esboo?
        - Muito impressionante. Seria quase assustador, se no fosse um misto de fatos e fico.
        - Tem razo. Para falar a verdade, tenho uma forte suspeita de que nosso autor est usando mais fatos do que fico, mas tomando cuidado para amenizar o
impacto.
        O esboo que Tamara tinha lido era sobre um vazamento numa usina nuclear, a deciso das autoridades de esconder o fato por causa de interesses polticos
e financeiros e os resultados assustadores dessa omisso.
        - Acha que uma coisa dessas poderia ter um fundo de verdade?
        - No sei. Mas como o homem tem contatos com escales bem altos da poltica e do exrcito,  possvel que tenha tido alguma informao "quente". Ah, parece
que chegamos - disse Nigel, apontando para os portes de ferro que apareceram depois de uma curva.
        Os portes estavam abertos. Consultando um pequeno mapa enviado pelo autor, Nigel entrou na alameda, fazendo uma curva  direita na primeira bifurcao que
encontraram. O calamento de paraleleppedos estava abandonado, coberto de mato, e por todo o terreno as azalias cresciam quase selvagens, em arbustos muito altos.
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        - Esse lugar deve ter sido muito bonito - comentou Tamara ao avistar um pequeno lago, sufocado por ervas daninhas.
        -- Agora temos que entrar nesse caminho da esquerda - disse Nigel, ao chegarem a um bosque. - A manso no est sendo usada. Parece que h problemas com
o telhado; por isso, vamos para a casa de hspedes.
        Eles a encontraram depois de uma longa curva, e Tamara ficou sem flego, ao ver a graciosa, construo, num perfeito estilo Regncia, os tijolos vermelhos
lhe dando um ar acolhedor.
        Nigel estacionou ao lado de um Porsche.
        "Nosso homem deve ter um bom dinheiro", pensou Tamara, enquanto seguia o chefe at a escada.
        Um homem de meia-idade, com uma postura marcial, veio abrir a porta, eles foram conduzidos a um saguo amplo, de onde saa uma elegante escadaria em curva
que levava ao segundo andar. Tamara teve uma breve impresso de uma decorao toda em branco e dourado, acompanhando o mesmo perodo do exterior da casa. Ficou curiosa
para ver a sala de visitas, porm, quando a porta foi aberta, tudo pareceu sumir da sua mente. Ficou paralisada, o rosto to branco como as paredes.
        - Zach! - Nigel estendeu a mo para o dono da casa, sem perceber a expresso de sua secretria. - Que prazer v-lo! Deixe-me apresentar minha assistente.
Tamara, a nossa nova descoberta!
        Ela viu-se andando para a frente, de um modo to mecnico como se fosse uma boneca, seus lbios rgidos com o esforo de manter um sorriso falso, sentindo
todo o corpo pegajoso de suor, completamente incapaz de enfrentar aqueles olhos verdes que conhecia to bem.
        - Tamara e eu j nos conhecemos - murmurou Zach, sem expresso. - Nos encontramos no Caribe e agora, mais recentemente, na casa de uns conhecidos meus. Ela
 noiva de um de meus vizinhos.
        - Virando-se para ela, acrescentou: - Diga-me, ser que consegui convencer seu noivo de que no tenho a mnima inteno de permitir que usem minhas terras
para a caa  raposa?
        Tamara deu uma resposta impessoal, controlando-se para manter a voz firme e uma expresso calma. No entanto, sentia Nigel olhando para ela com um ar intrigado
e ficou em pnico, quando o ouviu dizer:
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        - Vocs se conheceram no Caribe? Que coincidncia. Gostou da viagem?
        - Teve seus bons momentos.
        Tamara no se atreveu a olhar para eles. Arrependeu-se amargamente de ter confiado em NigeJ, a ponto de lhe dizer que se apaixonara por algum durante as
frias. Eie era esperto demais para no adivinhar a verdade. E se contasse a Zach?
        Prendeu a respirao, quando Zach virou-se para o outro e comentou:
        - Parece que logo voc vai precisar arranjar uma nova secretria.
        - Eu... hum... - Por um instante, NigeJ pareceu perplexo, mas depois sorriu alegremente. - Oh, est querendo dizer quando ela casar, no ? Tamara ainda
vai ficar
        um bom tempo comigo. A data ainda no foi marcada, no , querida?
        - ... -respondeu, rouca.
        - O almoo est pronto, coronel.
        Coronel! Tamara lanou um olhar para o rosto impenetrvel de Zach. Quando ele lhe falou que liderava homens em misses especiais, imaginou que fosse, no
mximo, um capito.
        - Johnson tem a tendncia de se esquecer de que no sou mais do exrcito - explicou ele, secamente, quando o criado desapareceu. Serviu sob meu comando,
e os velhos hbitos demoram a morrer.
        Tamara estava confusa. Zach tinha dito que precisava voltar  selva para provar a si mesmo que no tinha niais medo, e ela imaginou que ainda estivesse na
ativa. Agora, dizia que no era mais do exrcito.
        - Coronel, hein? - murmurou Nigel, enquanto o seguiam para a sala de jantar.
        O cmodo era mobiliado no mesmo estilo Regncia, com mveis antigos e slidos. No entanto, no dava a sensao de peso e opresso que Tamara sentia na casa
dos Mellors. Grandes portas de vidro se abriam para o jardim, que em parte j havia sido limpo das ervas daninhas, mostrando um gramado extenso, pontilhado de canteiros
floridos, com uma fileira de rvores imponentes ao fundo.
        Johnson voltou para servir-lhes o vinho. Tinha uma postura rgida e correta, e Tamara percebeu que o homem protegia Zach como um co de guarda, disposto
a dar a vida por ele.
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        - A sra. Wilkes est pronta para servir agora, coronel informou, num tom severo, antes de sair.
        - Acho que Johnson est tentando me dizer que, se no nos sentarmos logo, vai haver uma crise histrica na cozinha - comentou Zach, com um sorriso divertido.
- Tenho muita sorte de poder contar com Johnson e a sra. Wilkes, mas eles so um pouco como gua e leo. Johnson, um solteiro convicto; e, pelo jeito, a sra. Wilkes
est ansiosa para encontrar um novo marido. s vezes, isso causa alguma confuso. - Mudando de tom, voltou-se para Tamara. - Vi seu noivo no outro dia. Ele estava
cavalgando com uma morena muito bonita. Karen... parece que foi esse o nome que disse, quando fez as apresentaes.
        - Sim, deve ter sido Karen Ansthruter - respondeu Tamara, com invejvel compostura, recusando-se a ser atingida por aquela alfinetada. -
         a secretria pessoal de
        Malcolm e seus pais so muito amigos dos Mellors.
        - No diga!
        Felizmente, a chegada do melo com presunto interrompeu a conversa. Tamara concentrou-se na comida, enquanto Nigel puxava o assunto do livro.
        Como espectadora, divertiu-se em ver o modo como Zach evitava as perguntas mais indiscretas de seu chefe, mas, no fundo do corao permanecia uma dor que
escurecia seus olhos e trazia um n dolorido  garganta.
        - Infelizmente, no temos doce nem sorvete para a sobremesa desculpou-se Zach, quando a sra. Wilkes veio tirar os pratos. Quando Nigel me. disse que viria
com algum da editora, imaginei que fosse um homem.
        - Nada disso - disse Nigel, com uma risadinha. - S para comear, um homem no seria to decorativo. Mas, acima de tudo, Tamara  a melhor secretria que
j tive. E agora, diga-me: quanto tempo acha que vai levar para me entregar os primeiros captulos? Eu gostaria de ter o livro pronto at um pouco antes do Natal
do ano que vem, para aproveitarmos a poca de pico de vendas. Seria bom se voc me desse logo uma resposta, porque vou partir para Milo na semana que vem. vou conversar
com um escritor que diz ter bons
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        contatos com os terroristas italianos. Pode ser s conversa, mas no custa investigar.
        - Quanto tempo espera ficar fora? - perguntou Zach.
        - Umas duas ou trs semanas, depende. Agora, sobre o seu livro, quando terei os primeiros captulos?
        Tamara j tinha percebbido que Nigel estava ansioso para prender Zach num contrato definitivo. Depois de ter lido o esboo do livro, entendia muito bem porqu.
        - Talvez eu j tenha os trs primeiros quando voc voltar - disse Zach, suavemente. - Desde que me empreste sua secretria.
        Houve um tilintar de loua, quando a faca escapou dos dedos paralisados de Tamara. Nigel apressou-se a responder:
        - Se precisa de uma secretria, Zach, terei prazer de mandar uma das moas que trabalham na firma. So muito competentes e ficaro encantadas...
        Ainda mais rapidamente e de modo mais decidido, Zach interrompeu:
        -  muita gentileza sua, mas gostaria de trabalhar com algum que j conheo. Voc mesmo disse que Tamara  uma excelente secretria. Como vai ficar fora
do pas, no precisar dela. Naturalmente, no pretendo usar seu... talento... de graa.
        Tamara ficou imaginando se Nigel percebera o insulto naquelas ltimas palavras, mas no conseguiu olhar para nenhum deles. Sabia que o chefe devia ter adivinhado
que Zach era o pai de seu filho e tentara escapar daquela sugesto com o maior tato possvel.
        - Como quiser - acrescentou Zach, com um ligeiro ar de tdio cuidadosamente estudado. - Se deseja os captulos...
        - Naturalmente, naturalmente - concordou Nigel, depressa. Voc se incomoda, Tamara?
        - Eu... eu no sei como vou poder fazer isso - disse ela, com alguma dificuldade. - Ser complicado ir e voltar todos os dias.
        Tarde demais, percebeu que Zach provavelmente ia sugerir que ficasse hospedada na casa dos pais de Malcolm. Mas, para sua surpresa, ele simplesmente encolheu
os ombros e disse, sem se alterar:
        - Claro que ser, mas isso no  problema. Tenho vrios quartos vazios aqui, e assim a terei sempre por perto, quando precisar. Espero
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        que no se importe de trabalhar  noite, se for necessrio. Naturalmente, eu pagarei as horas extras.
        Tamara sentiu vontade de gritar, cheia de dio pelo modo como ele a olhava e falava, mas, por Nigel, controlou-se e respondeu num tom sem expresso:
        - Se isso significa que o trabalho terminar mais depressa no precisa nem se preocupar com o pagamento.
        Teve a satisfao de ver uma sombra no rosto de Zach. Mas, quando ele se virou para dizer alguma coisa a Nigel, uma onda de nsea a envolveu, forando-a
a se levantar, muito plida.
        - Tamara! - Nigel levantou-se de um salto e veio ampar-la.
        - Estou bem - mentiu. - S quero ir l fora um instante... preciso de um pouco de ar puro.
        - Naturalmente.
        Imperturbvel, Zach foi at as portas de vidro, abriu-as e ficou de lado para ela passar.
        Tamara j estava habituada com os enjoos matinais, mas era a primeira vez que se sentia mal durante o dia. Seu nico desejo era fugir para algum lugar onde
pudesse se deitar e ficar sozinha. Para seu alvio, Nigel, compreendendo sua aflio, chamou a ateno de Zach para algo dentro da sala e ela foi para o terrao,
respirando fundo e tentando relaxar. Ia descer para o gramado, quando o enjoo voltou ainda mais forte, fazendo-a vomitar. Ficou com o rosto encostado na parede de
tijolos, enquanto seu corpo tremia incontrolavelmente.
        - Ento... um truque antigo, mas muito eficiente. Sem dvida, o general no vai permitir que seu neto nasa sem nome. Mas, por qu?
        Zachary estava recostado no parapeito, examinando seu rosto com uma raiva que a assustou.
        - Por que, o qu?
        - Por que foi ficar grvida? E no venha me dizer que no est. No tente pr a culpa na comida da sra. Wilkes. Ela ficaria muito ofendida, e no  a verdade.
Por isso, vou perguntar de novo: por qu? Ficou com medo de perd-lo para Karen?
        - Voc no tem nada com isso! - gritou, incapaz de suportar mais, odiando-o por insinuar que planejara engravidar s para forar Malcolm a casar com ela.
        Quis dizer-lhe que tinha terminado o noivado, mas parou no mesmo
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        instante. Zach podia adivinhar a verdade, e ento a acusaria de estar usando o beb para for-lo a casar com ela, no lugar de Malcolm. No, nunca poderia
aguentar isso!
        - No? - Havia uma ameaa velada na voz dele. - Ento,  favor no se esquecer de que, enquanto estiver trabalhando comigo, no vou permitir que fique fazendo
visitnhas a Mellors.
        - Malcolm est em Nova York.
        -  mesmo? Ele j sabe da novidade ou voc est guardando segredos sobre isso at ele chegar? No vo poder esperar muito, no ? - O sorriso foi ainda mais
insultuoso. - O que vai ser? Um prematuro de sete meses?
        Tamara cerrou os punhos, enterrando as unhas nas palmas das mos. Gostaria de bater naquele rosto arrogante.
        - Tamara, tudo bem com voc? - Nigel apareceu no terrao, com um ar preocupado. - Zach, que tal nos mostrar a manso, enquanto estamos aqui? Gostaria de
saber quais so seus planos para ela.
        - Por que resolveu fazer uma coisa dessas? - perguntou Ngel, enquanto atravessavam o jardim em direo da alameda que levava  manso.
        - Oh, foi uma ideia que me veio aos poucos. Herdei a propriedade de um tio. - Foi uma surpresa. A manso est abandonada h anos. O velho comeou a ficar
furioso com o aumento dos impostos e no quis gastar dinheiro em reformas. Felizmente para mim, a casa de hspedes sempre esteve alugada a pessoas que cuidaram perfeitamente
de sua conservao. Quanto  transformao da manso num centro de reabilitao, acho que o germe da ideia surgiu quando fiz uma viagem  Irlanda do Norte. Fiquei
impressionado com as crianas que vi crescendo no meio daquele conflito. J nascem sendo inculcadas de dio por aqueles que tm uma religio diferente. Depois, percebi
que esse no era um caso isolado; que mesmo aqui, sem guerra, havia muitas vtimas da violncia da sociedade. Por isso, decidi fazer alguma coisa por elas. No podemos
ficar indiferentes. O que quero  dar-lhes uma oportunidade de descobrir um outro caminho, antes que seja tarde demais. Quero que crianas sofridas, maltratadas,
encontrem uma alternativa de vida. No numa instituio do governo ou numa clnica psiquitrica, mas num lugar onde possam ser
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        ensinadas, onde se sintam seguras e aprendam a ter auto-respeito... parou de falar de repente. - Sinto muito; quando comeo esse assunto, falo demais.
        - No se desculpe por isso. - Nigel sorriu. - Eu o admiro... e at o invejo. Desejo que tenha todo o sucesso.
        - vou precisar. E meu livro tem que ser meu primeiro sucesso.
        - Agora entendo por qu - concordou Nigel, com franqueza, quando avistaram a manso. Estava realmente em ms condies: vidros quebrados, grandes falhas
no telhado. - O que o fez entrar para o exrcito? - perguntou, subitamente, enquanto andavam em volta do casaro. - Voc estudou em Cambridge, no?
        - Sim. Naquela poca eu planejava ser escritor. Mas, pouco a pouco, comecei a ficar desencantado com o mundo privilegiado em que -vivia. Abandonei a universidade
sem me formar e andei vagabundeando por vrios pases durante uns dois ou trs anos. Acabei me envolvendo com um bando de mercenrios na frica e descobri que tinha
jeito para comandar soldados. Ento, achei que, se ia mesmo lutar, tinha que fazer a coisa direito. Voltei para c e me alistei no exrcito.
        Depois de ter aprendido as tcnicas que deviam torn-lo incrivelmente valioso para o Servio Secreto, pensou Tamara.
        Zach mostrou-lhe a manso, contando-lhes sobre seus planos. Perto dela ficava uma fazenda, onde as crianas poderiam trabalhar.
        - Claro que nunca seremos totalmente auto-sufcientes, mas se a fazenda for bem administrada, dar um bom lucro. Mais tarde, podemos instalar uma pequena
indstria. J tenho vrias ideias sobre isso.
        Nigel e Tamara partiram no fim da tarde. Percorreram vrios quilmetros em silncio e depois ele perguntou, suavemente:
        -  ele, no? O homem por quem voc se apaixonou? O pai do seu filho?
        - Estava assim to bvio?
        - No. S fui somando as coisas. Lamento essa histria de ter que ajud-lo com o livro.
        - No faz mal. Voc no teve outro jeito. - Deu um suspiro. Ele ainda pensa que estou noiva de Malcolm. Eu no lhe contei a verdade porque...
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        - Porque no quer que saiba que o beb  dele, no? Zach insistiu muito para voc trabalhar com ele.
        - Castigo. Ele acha que estou tentando forar Malcolm. Acusou-me de ter engravidado para obrigar Malcolm a casar.
        Houve um silncio pesado e Nigel falou, parecendo preocupado.
        - Tamara, se acha que no vai aguentar... Olhe, voc tem que pensar no beb. Se acha que vai passar um mau pedao com ele...
        - No, Nigel, eu entrei nisso e agora vou em frente. Como os tempos mudam! - disse, tentando sorrir. - Antigamente, era a mulher que ficava odiando e desprezando
        o vil sedutor. Agora... agora... ?
        Nigel deixou-a chorar por alguns minutos. Depois que Tamara enxugou os olhos e assoou o nariz, ele perguntou:
        - Tem certeza? Posso ligar para ele, dizendo que mudamos de ideia.
        - No. No quero que ele desconfie do quanto significa para mim. Quem sabe... talvez isso seja o melhor que poderia me acontecer.  possvel que, eu vivendo
        perto dele, acabe por...
        - Por deixar de am-lo? - sugeriu Nigel, balanando a cabea.
        - Acha que acredito mesmo nisso?
        - Coisas muito estranhas acontecem. Mas sabia que Nigel estava certo e que o fato de viver na mesma
        casa com Zach s ia fazer seu amor aumentar. Se o desdm e o desprezo no o tinham matado, nada o destruiria.

        CAPITULO IX

        - Este ser o seu quarto. Tem um banheiro anexo. O do coronel fica ali no fundo do corredor.
        Johnson viera receb-la com a informao de que Zach j tinha ido a Gloucester para tratar de negcios, mas que logo estaria de volta.
        O quarto que mostrou era confortavelmente mobiliado com peas em estilo Imprio, mas alguns toques modernos, e todo em tons de rosa e cinza.
        A sra. Wilkes veio lhe trazer uma xcara de ch.
        - Normalmente, no durmo aqui, a no ser quando o coronel tem convidados para o jantar, mas hoje ele me pediu para ficar, j que a
        srta. ia chegar.
 claro que no ia perder a oportunidade de ver como era a recm-chegada, disse Tamara para si mesma, sorrindo em agradecimento.
        - Ento, veio ajudar o coronel com o livro? - perguntou a mulher, relutando em sair, antes de ter sua curiosidade satisfeita. Foi to bom ele ter herdado
a propriedade!
        Estava tudo abandonado, uma tristeza. Ele est planejando transformar a velha casa num tipo de orfanato, sabe? Tem muita gente por a que no est contente
com a ideia, mas no se pode agradar a todos, no acha? Tenho certeza de que a senhorita vai gostar daqui. O coronel  muito simptico.
        - O ch est delicioso, sra. Wilkes. - Tamara procurou fugir das perguntas. - Era o que eu estava precisando, mas a senhora no deve continuar me mimando
desse jeito. Eu...
        - Oh, o coronel me pediu para vir todos os dias enquanto a senhorita estiver aqui. Disse que vai estar ocupada demais e precisa se
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        alimentar bem. Johnson faz uma comidinha muito sem graa. Coisa do exrcito, sabe? O coronel falou que a senhorita vai trabalhar de manh, de tarde e de
noite.
        - Minha editora est ansiosa para publicar o livro do coronel. E como o meu chefe viajou, vim ajudar no que for preciso.
        - A senhorita trouxe uma mquina de escrever, no ? Johnson me contou.
        - Sim, est ali em cima da mesa.
        - Acho que no vai precisar dela. O coronel mandou instalar uma mquina eltrica na biblioteca. Novinha!
        Zachary chegou enquanto Tamara estava desfazendo as malas. Ela demorou bastante pendurando e guardando cada pea de roupa, sabendo muito bem que estava fazendo
tudo para adiar o momento de ficar frente a frente com ele.
        Antes de sair do quarto, deu uma olhada no espelho. Ainda no havia nenhum sinal de gravidez em seu corpo esguio, mas os cabelos pareciam mais brilhantes
e o rosto, um pouquinho cheio. Tinha um ar mais saudvel.
        Usava uma saia rodada azul-claro e uma camiseta de mangas curtas com borboletas pintadas em tons delicados. Comprara as duas numa loja de departamentos e
eram bastante comuns, mas infinitamente mais charmosas do que as roupas tristes e sem graa que usava antes de conhecer Zach.
        Sem ter conscincia da vulnerabilidade em seu rosto, desceu a escada com uma postura altiva, pronta para enfrentar o que desse e viesse.
        Johnson estava no saguo e indicou-lhe a porta da biblioteca. Ela bateu e entrou. Houve um longo silncio, enquanto Zach estudava seu corpo esguio. Depois,
com passos geis e rpidos, chegou junto dela e mexeu em seus cabelos.
        - Nunca mais quero ver seus cabelos puxados assim para trs - falou, como se desse uma ordem a um de seus soldados. - Posso no ser seu noivo, com todos
os privilgios que ele tem, mas no vou ficar sentado diante de voc dias e dias, olhando para esse penteado antiquado!
        - Assim no atrapalha - disse Tamara, num tom controlado, odiando a si mesma pelo salto que seu corao tinha dado quando ele a tocou.
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        .- Talvez, mas no se atreva a us-los assim de novo, ou ficarei tentado a lhe mostrar o que  um cabelo desarrumado. Venha, quero que veja uma coisa.
        Por um instante, aquela sbita mudana de assunto deixou-a chocada. Mas, quando Zach franziu a testa, apressou-se a ir para junto dele, que mexia nos botes
de um computador.
        -  a ltima novidade - disse, ligando a mquina. - Deixe-me mostrar como funciona.
        Forada a ficar bem junto dele, Tamara tentou no olh-lo. Zach estava de jeans e camisa xadrez, e o sol que entrava pela janela fazia seus cabelos escuros
brilharem com um tom acobreado. Ela sentiu todo o corpo reagir ao calor que emanava dele.
        - Alguma coisa errada? -- Nada.
        - timo. Agora olhe isso. - Deu-lhe uma breve demonstrao de como lidar com o computador. -  muito parecido com uma mquina de escrever eltrica, mas,
a longo prazo, vai nos economizar muito tempo, porque tudo que voc datilografar ficar na memria. Quando quisermos alterar alguma coisa,  s apertar essa tecla
e teremos a folha na tela.
        - E depois a mquina produzir uma cpia alterada, mas perfeitamente datilografada - acrescentou Tamara.
        - Quer dizer que sabe lidar com ele?
        - Sim, temos um desses na editora.
        - Muito bem. Isso significa que no perder tempo se acostumando com ele. Minha ideia  ditar pela manh e deix-la livre para datilografar  tarde. Depois,
farei a reviso e, se for necessrio alguma modificao, cuidaremos disso  noite. Quando Mellors vai voltar de Nova York? - perguntou, inesperadamente.
        Tamara no tinha a mnima ideia e inventou uma resposta.
        - Na verdade, no sei. Tudo vai depender do tempo que ele levar para terminar os negcios.
        - Ele j sabe do seu estado? Tamara levantou o queixo.
        - No acha que isso s diz respeito a ns dois? - perguntou, num tom cheio de doura. - Estou aqui para trabalhar para voc. Mas isso
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        no significa que tem direito de fazer perguntas sobre minha vida pessoal.
        - Mas tenho o direito de exigir o mximo em troca do dinheiro que estou pagando. No quero que fique sonhando de olhos abertos, com saudades do noivo. 
contraproducente.
        - Ento, o que sugere? - perguntou furiosa, esquecendo-se do perigo. - Quer tomar o lugar dele? Voc no conseguiria.
        - Tem toda a razo: eu no teria estmago para isso.
        S a campainha do telefone impediu Tamara de anunciar ali mesmo que ia embora para Londres.
        Zach atendeu, e seu rosto tenso relaxou num sorriso, enquanto escutava.
        - Tambm senti saudade de voc, Julie.
        Tamara fez meno de sair, mas ele lhe fez um sinal para sentar-se. Olhando-a fixamente e nos olhos. Seu sorriso se acentuava  medida que a tal Julie falava.
        - No, sinto muito. De modo algum poderei ir a Londres no momento. Olhe, por que voc no vem para c?
        De olhos fixos na janela, fazendo um enorme esforo para no ouvir aquela conversa. Tamara no parava de se perguntar quem seria essa Julie, que conseguia
faz-lo sorrir to facilmente.
        - Desculpe - disse Zach, sem a menor sinceridade, quando desligou. - Era uma velha amiga. Vir passar alguns dias aqui. Bem, onde  que estvamos? Ah, sim,
o computador... Ento, se acha que no precisa de tempo para se acostumar com ele, sugiro que v descansar um pouco antes de jantar: - Deu um sorriso de desdm.
No seu estado, no deve exagerar, no ?
        Alegando cansao, Tamara no desceu para o jantar. Para sua surpresa, meia hora depois, a sra. Wilkes apareceu com uma bandeja tentadora e um ar de preocupao.
        - O coronel disse que a senhorita no est se sentindo muito bem. Essa viagem de Londres at aqui no  brincadeira. Trouxe uma omelete e um bule de ch.
        Tamara agradeceu, tomada por um sentimento de culpa por obrigar a empregada a fazer coisas especiais s por causa de sua covardia. Era verdade que a viagem
tinha sido longa e que no estava acostumada a
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        dirigir tanto tempo, mas, em qualquer outra ocasio, teria se recuperado depressa.
        Zach no tinha especificado a hora em que gostaria de comear a trabalhar pela manh, mas Tamara desceu s oito, calculando que isso lhe daria tempo para
tomar o
        desjejum e estar na biblioteca s nove.
        A sra. Wilkes ficou chocada quando ela insistiu que s queria torrada e caf.
        - Igual ao coronel - resmungou. - Pelo menos, ele s vezes aceita alguns ovos mexidos. Hoje mal tomou uma xcara de caf.
        - Quer dizer que ele j desceu? - perguntou, sentindo um misto de alvio e apreenso. No queria comear com o p esquerdo. Apesar de seus sentimentos pessoais,
estava determinada a se manter o mais profissional possvel, e orgulhava-se de sua eficincia como secretria.
        - Oh, sim! Ele sempre toma o desjejum s seis e meia. Parece que  um hbito de quando estava no exrcito. A propsito, ele me pediu para lhe dizer para
ir  biblioteca quando estiver pronta. Sempre sai para um passeio a essa hora, chova ou faa sol, mas logo estar de volta.
        Eram dez para as nove quando Tamara bateu na porta da biblioteca e entrou. Zach estava sentado  escrivaninha, estudando alguns papis.
        - bom dia - disse ela, ajeitando a saia azul-marinho com dedos nervosos, sentindo-se exageradamente formal em comparao com o aspecto casual e esportivo
de Zach.
        Ele se levantou e se aproximou.
        - Hummm... O prottipo da perfeita secretria, no? - disse, com uma risadinha irnica. - Mas estou contente por ver que lembrou-se dos cabelos.
        - Se estiver pronto para comear... - Tamara falou, calmamente, ignorando a zombaria.
        Duas horas depois, com os dedos doloridos de tanto taquigrafar, deu um suspiro de alvio, quando a sra. Wilkes apareceu com o caf.
        - Sem acar - disse Zach, indicando que Tamara deveria servir.
        - Gostaria de fazer um intervalo de meia hora? No quero cans-la demais.
        O modo como ele falou as ltimas palavras deixou-a muito irritada.
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        Estava cansada e sentia as costas doloridas, mas no ia lhe dar esse gostinho.
        - No  preciso.  melhor continuarmos enquanto o livro est progredindo. Assim, terminaremos logo.
        Por algum motivo obscuro, suas palavras pareceram aborrec-lo. Continuou a ditar com muita rapidez e Tamara ficou impressionada com sua capacidade para trabalhar
sem hesitaes ou paradas para consultar as anotaes.
        - Bem, acho que j temos a base do primeiro captulo anunciou Zach, por volta do meio-dia e meia. - O almoo   uma. Quanto tempo acha que vai levar para
datilografar isso?
        Pelo nmero de folhas taquigrafadas, Tamara calculou que levaria toda a tarde e uma boa parte da noite.
        - No tenho certeza - respondeu, friamente - , mas no vou parar at terminar.
        Foi uma promessa da qual comeou a se arrepender,  medida que o dia passava. A dor nas costas ia ficando pior a cada minuto, enquanto seus dedos voavam
sobre as teclas.
        - Ainda trabalhando? - perguntou a sra. Wilkes, com um ar de desaprovao, quando veio buscar a bandeja do ch, s seis horas.
        Tamara aproveitou a interrupo para ver quantas folhas ainda faltava e deu um suspiro de desnimo, ao perceber que mal passara da metade.
        - Desculpe, mas vou ter que perder o jantar. Seria muito incmodo a senhora me trazer um copo de leite e algumas frutas?
        - Por mim, no h problema - disse a mulher, com a testa franzida. - Mas acho que a senhorita est pedindo demais do seu corpo, trabalhando desse jeito e
se alimentando
        to mal.
        Zach no estava em casa. Sara depois do almoo, dizendo que precisava ir a Bath para buscar alguns livros de referncia. Tamara ouvira o carro se afastando
e durante
        o tempo todo em que datilografava seus ouvidos estavam alertas, esperando que ele voltasse.
s oito horas, ela flexionou os ombros doloridos e fez uma pausa para beber o leite, imaginando onde Zach estaria at to tarde. Talvez tivesse ido ver alguns
amigos. Julie...sentiu uma pontada de cime, seguida por uma onda irracional de raiva por ele estar se divertindo, enquanto ela se matava de trabalhar no seu livro.
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        j passava das onze, quando tirou a ltima folha da mquina, exausta demais at para ver se seriam necessrias algumas correes. Pegando a bandeja, levou-a
para
        a cozinha e depois subiu a escada pesadamente.
        Ao ver a cama, teve vontade de se atirar nela do jeito que estava. Mas, pensando nos msculos doloridos, resolveu tomar um banho de imerso para estar mais
disposta no dia seguinte.
        Estava a ponto de pegar no sono, quando ouviu o Porsche chegando. Tinha deixado o manuscrito em cima da escrivaninha de Zach: quarenta e cinco folhas! Sorriu,
esgotada mas triunfante. Sabia que ele no esperava que acabasse o trabalho e que tinha ditado tanto s para castig-la.
        Acordou s seis, seu sono perturbado por rudos com os quais no estava acostumada. Seus ouvidos captaram passos desaparecendo na direo da escada. Olhou
para o relgio com uma careta de desnimo, antes de se lembrar de que a sra. Wilks havia dito que Zach tomava o desjejum s seis e meia.
        Bem, ele que acordasse a essa hora maluca!, pensou irritada, socando o travesseiro. Mas por que tinha que acordar todo mundo?
        Desceu com muito menos energia do que na vspera. Os msculos das costas e dos ombros ainda estavam tensos e um enorme cansao a envolvia dos ps  cabea.
        - A senhorita est precisando de comida decente - disse a sra. Wilks, rispidamente, ao ver seu rosto plido. - No sei por que vocs jovens, tm a mania
de achar que um corpo continua funcionando direito quando no o alimentam!
        Tentou convencer Tamara a comer alguma coisa mais substancial do que ch com torrada, mas foi intil.
        As nove em ponto, ela se apresentou na biblioteca. Zach estava em p perto da janela, olhando para as folhas datilografadas, com um ar aborrecido.
        - H vrios erros nessas ltimas folhas - disse, friamente. - J marquei as alteraes que quero fazer. Se estiver pronta, comearei a ditar as outras passagens.
        Seus olhos, frios e imperturbveis, percorreram a figura esguia de Tamara, formal e elegante na saia azul-marinho e blusinha de voai com bolinhas.
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        Seus dedos estavam doloridos, quando ele terminou de ditar. Um olhar para o relgio confirmou que j eram onze horas. com as alteraes e correes, ficaria
trabalhando at o fim da tarde.
        - vou sair para falar com o empreiteiro que vai cuidar da reforma da manso - disse Zach. - Estarei fora a maior parte da tarde.
        Talvez ela devesse dar graas pelas pequenas bnos, pensou Tamara, exausta, depois que ele saiu. Pelo menos, com Zach fora do caminho, podia se concentrar
no trabalho sem estar constantemente sendo distrada pela sua proximidade e pela traioeira reao do prprio corpo. Embora fervesse de dio pelo que ele estava
fazendo, ainda se sentia derreter, toda vez que Zach chegava perto.
        Quando a sra. Wilkes veio lhe trazer o ch, deu uma exclamao de desgosto, vendo seu rosto abatido.
        - Est trabalhando demais, mocinha. Isso no vai dar em boa coisa, preste ateno no que estou dizendo!
        Meia hora mais tarde, muito perturbada, a empregada voltou para dizer que sua filha mais velha, que estava grvida do segundo filho, entrara em trabalho
de parto um ms antes do esperado.
        - Tenho que ir para casa porque no h ningum para cuidar do meu netinho. Meu genro est trabalhando e prometi a Susan que ficaria tomando conta da casa
dela enquanto estivesse no hospital.
        - Pode ir tranquila, sra. Wilkes, eu avisarei o coronel.
        - Olhe, o cozido j est pronto.  s ferver um pouco na hora para o molho ficar mais grosso. Vocs s tero que cuidar das batatas e dos legumes.
        Quando ela saiu, Tamara espreguiou-se, exausta. Ainda tinha vrias correes a fazer, mas suas costas doam tanto que simplesmente no conseguiria continuar
se no descansasse um pouco. Sentou-se numa das confortveis poltronas perto da lareira, com a inteno de relaxar por uns dez minutos.
        - Mais tarde, quando a porta da biblioteca foi aberta, ela nem se mexeu: continuou ressonando tranquilamente. Zach apertou os lbios tensos ao ver a exausto
em seu rosto.
        - Parece que a mocinha trabalhou demais - comentou Johnson, com uma voz lgubre. -A sra. Wilkes no est em casa, mas h um cozido no forno.
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        V terminar o jantar. vou levar a srta. Forbes l para cima -
        ordenou Zach. -  melhor que ela continue dormindo.
        J estava escuro quando Tamara acordou daquele sono profundo. Levou vrios segundos para perceber que no estava mais na biblioteca, mas na cama, e que algum
trocara suas roupas pela camisola.
        Uma sombra moveu-se perto da porta.
        - Ah, voc acordou. Est com fome?
        Sacudiu a cabea profundamente embaraada ao ver Zach. Seu corao comeou a bater descompassadamente quando ele se inclinou, tentando examinar seu rosto
na semi-escurido.
        - Desculpe por ter pegado no sono. Parece que no tenho tanta energia desde que...
        Sentiu o sangue subir ao rosto e deu graas por haver s um pequeno abajur aceso. Mordeu o lbio e ficou em silncio, percebendo a tenso que emanava daquele
corpo masculino muito perto dela.
        - Maldita seja, Tamara - murmurou Zach, numa voz pesada, inclinando-se subitamente para cobrir sua boca com os lbios quentes e sensuais.
        Aquele beijo fez o desejo se espalhar por todo o corpo de Tamara. Ele a abraou com fora. Sentiu as batidas aceleradas de seus coraes juntos no mesmo
ritmo louco. Zach afastou os lbios de sua boca, deslizando-os pelo pescoo. Quando as mos fortes encontraram as curvas suaves dos seios, comeou a ficar excitada
e assustada ao mesmo tempo. No sabia o que havia desencadeado o desejo dele, mas sabia que intenso perigo ele representava para ela: o perigo de se denunciar, de
que Zach descobrisse seu amor. S por isso, resistiu quela atrao magntica e ficou tensa em seus braos.
        Disse, no tom mais frio que conseguiu:
        - No, Zach. Voc parece ter se esquecido: estou noiva de Malcolm.
        Ele ficou tambm muito tenso, os olhos parecendo querer ler seus pensamentos mais ntimos.
        - Talvez eu devesse lembr-la de como voc se esqueceu disso, com muita facilidade na outra vez. Quer que acontea de novo?
        Como Tamara no respondeu, Zach comeou a cobrir seu pescoo
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        com beijos que eram puro tormento. A voz estava rouca de desejo, quando perguntou:
        - Quer mesmo se esquecer de tudo?
        - No!
        A palavra saiu estrangulada, e, em vez de faz-lo parar, s a deixou indefesa contra os lbios que aprisionaram sua boca, incendiando seus sentidos, fazendo-a
queimar
        numa febre de desejo. Tamara gemeu baixinho e o corpo comeou a tremer. Toda a cautela foi esquecida: agarrou-se a ele, apertando-o contra o peito, desesperada.
        - Tamara!
        O nome saiu num gemido abafado e sua resposta foi sufocada pela presso exigente da boca de Zach. Ela quis que aquele beijo durasse para sempre, que a realidade
jamais entrasse naquele mundo de sonhos onde podia ignorar a verdade e fingir que Zach a amava tanto quanto o amava.
        No resistiu mais. Deixou que ele lhe tirasse a camisola, estremecendo de prazer.
        - Faz ideia do que passei quando tive que despir voc para colac-la na cama? - perguntou, rouco, a mo envolvendo um seio macio, numa carcia embriagadora.
- Faz ideia do que tenho passado, tendo voc em minha casa? Talvez eu me despreze por quer-la tanto, mas no posso evitar.  como uma doena. H momentos em que
devemos ignorarmos a razo pelo puro prazer de nos entregarmos aos nossos impulsos, mesmo que nos odiemos por isso mais tarde. Agora  um desses momentos, Tamara.
E voc tambm me quer, apesar de estar noiva de outro homem. Seu corpo me quer e ele fala mais alto do que as convenes...
        Ela no poderia responder com coerncia. Seus dedos estavam entrelaados nos cabelos de Zach, deliciando-se com sua maciez, o prazer crescendo em ondas por
todo o corpo, enquanto os lbios dele exploravam a forma dos seios.
        - No h nenhuma diferena - disse ele, numa voz espessa, como se estivesse drogado. - Pelo menos, no, exteriormente. Como  saber que h uma criana crescendo
dentro de voc? - Os lbios tocaram a curva suave da barriga de Tamara e os msculos se contraram em xtase e dor.
        Como gostaria de poder contar-lhe a verdade; dizer que o filho era
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        dele e que sentia um prazer imenso em t-lo dentro do ventre. Mas, mesmo tomada pelo xtase, tinha conscincia de que jamais poderia dizer isso. Zach talvez
a quisesse nos momentos de fraqueza como agora, mas Tamara no tinha dvidas quanto a seus reais sentimentos por ela.
        Sua carne sensvel gritava para ser possuda enquanto Zach cobria todo o seu corpo com beijos. com dedos ansiosos, comeou a abrir os botes da camisa dele.
        - Voc  assim com aquele idiota do seu noivo? - perguntou, rouco. -  assim, Tamara? Diga-me!
        Suas palavras a trouxeram de volta  realidade, fazendo-a lembrar-se de como Zach a desprezava. Ficou com um n na garganta e os olhos cheios de lgrimas.
        Uma batidinha na porta salvou-a. Zach levantou-se, com um palavro abafado.
        - Telefone, coronel - chamou Johnson. -  a srta. Julie.
        Julie! Tamara afastou-se de Zach e enterrou a cabea no travesseiro, completamente tomada pela dor da desiluso.
        - Seu noivo est de volta.
        As palavras foram como um jato de gua fria, e Tamara enrijeceu na cadeira. Estavam almoando, e essas eram as primeiras palavras pessoais que Zach lhe dizia
desde aquela noite em seu quarto. No tinha dvida de que estava muito arrependido e que queria deixar claro de que aquilo no havia passado de uma aberrao causada
pelo desejo fsico por uma mulher... qualquer mulher!
        - Eu o vi esta manh - continuou ele. - Estava cavalgando... com a secretria.
        Sem saber como, Tamara conseguiu continuar comendo, apesar da comida parecer serragem passando pela garganta.
        - Voc no sabia, no ? parece que ele no est mais to ansioso pelo casamento. Mas no faz mal: voc tem a carta que pode virar o jogo.
        - A srta. Julie chegou, coronel.
        No foi a primeira vez que Tamara deu graas a-Deus pelas interrupes de Johnson. A sra. Wilkes j lhe havia dito, antes de ir ficar com a filha, que Zach
dera ordens para que preparasse um quarto
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        para a amiga. Tamara ficara aliviada ao ver que o quarto da hspede no era ao lado do de Zach. No que isso realmente importasse. Afinal, no havia nada
que pudesse fazer para impedir que fossem para a cama.
        Quando Zach saiu para receber a amiga. Tamara fugiu para a biblioteca. J tinham quase terminado o terceiro captulo. O livro estava progredindo muito bem,
e, depois do incidente por causa do excesso de trabalho, Zach tomava cuidado para no ir depressa demais.
        Relia algumas folhas j datilografadas, quando ele entrou, dando passagem para uma ruiva cheia de vivacidade, cujo sorriso gelou ao v-la.
        - Ento,  isso que est mantendo voc aqui no campo, feito um ermito - queixou-se, seus olhos azuis se endurecendo ao encontrarem os de Tamara.
        - Sim - concordou Zach, com um sorriso. - Meu livro. Nada mais me faria ficar longe de voc. - com um gesto possessivo, passou o brao pela cintura de Julie
e beijou-a.
        - Querido! - suspirou a moa, quando ele a soltou. - Como  bom receber esse tipo de boas-vindas. J estava comeando a achar que voc mentia, quando dizia
que sentia saudade de mim.
        - Quanto tempo voc vai poder ficar? - Tamara ouvi-o perguntar enquanto saam. No ouviu a resposta.
        Os dias seguintes foram de puro inferno. Por mais que fizesse, sempre acabava se encontrando com Zach e Julie juntos e, muitas vezes, aos beijos e abraos.
        - No estou gostando nada disso - resmungou a sra. Wilkes, uma manh, ao ser chamada para ir servir o desjejum no quarto para Julie, que ainda estava na
cama, apesar de ser mais de dez horas. Ela  uma mulherzinha bonita mas no tem nem um pingo de miolo. O coronel devia procurar coisa melhor.
        - Ele no  nenhum menino, sra. Wilkes - lembrou Tamara, numa voz dura. - E, por favor, se me der licena, tenho muito o que fazer.
        Como a empregada comentou com a filha naquela noite, sabia quando no estava agradando... e por qu!
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        Na quarta manh depois da chegada da moa, Tamara deu a Zach os trs captulos do livro, perfeitamente produzidos pelo computador.
        - Se no se importa, acho que vou voltar para Londres esta tarde. disse-lhe, calmamente. - J terminei o que vim fazer e...
        - Oh, sim, eu me importo - respondeu Zach, num tom alegre. Julie ainda estava dormindo. Por algum motivo, nesses dias em que
        ela estava hospedada na casa, ele, passara a tomar o caf mais tarde, geralmente se encontrando com Tamara. Ela se esforava para no pensar no que havia
por trs dessa mudana de hbitos apesar de saber que s podia ser por causa das horas que ele passava com Julie, depois que ela ia se deitar.
        Recusou-se a responder  zombaria. Sentia que ele se divertia s suas custas. Por que continuava a atorment-la, se j tinha Julie?
        - Nigel me disse que voc podia ficar umas duas ou trs semanas.
        - Mas terminamos os captulos.
        - Podemos fazer mais alguns. Nigel ficar encantado. Tamara no pde negar.
        - Por que tanta pressa? - perguntou Zach, suavemente. - Eu ficaria mortalmente ofendido se voc partisse agora; principalmente, depois de me ter dado ao
trabalho de convidar seu noivo para vir aqui.
        Tamara engasgou com o caf e a cor fugiu de seu rosto. Malcolm ali! Fechou os olhos, cheia de angstia. Santo Deus, o que ia fazer? A mentira sobre o seu
noivado no duraria nem um minuto. Depois disso, Zach ia destruir os ltimos restos de seu orgulho e auto-respeito. Tambm descobriria que era o pai de seu filho.
Ela ps a mo na barriga.
        - Est achando que talvez hoje seja um bom dia para contar tudo ao seu noivinho? Sim, aproveite. Haver muitas testemunhas e ele no ter como fugir - disse
cheio de zombaria, notando o gesto.
        - Eu te odeio! - explodiu Tamara, empurrando a cadeira para trs e correndo para fora da sala. - Eu te odeio!
        Ao chegar ao quarto, estava decidida a simplesmente pegar o carro e voltar para Londres sem se despedir. Porm, aquela coragem inata que era parte da sua
personalidade a fez mudar de ideia. Se ia ser denunciada e humilhada, queria estar ali mesmo para enfrentar a adversidade de cabea erguida.
        A manh passou se arrastando. J eram mais de onze horas, quando
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        ouviu as patas dos cavalos batendo nas pedras da alameda. Estava no saguo e ficou paralisada. Zach comentou, naquele tom preguioso que tanto a irritava:
        - E ento, no vai l fora para cumprimentar o noivinho? Movendo-se como um rob, Tamara foi para a porta. A claridade a
        ofuscou por um instante.
        - Tamara! Santo Deus, o que est fazendo aqui?
        Ela olhou para cima, protegendo os olhos do sol. Malcolm montava o cavalo que usava nas caadas. A seu lado, parecendo muito composta e auto-suficiente,
estava Karen Ansthruter, numa gua branca e nervosa.
        Tamara, que gostava de cavalos mas tinha um pouco de medo deles, recuou instintivamente quando a gua avanou, e seus olhos se arregalaram de pavor quando
o animal
        empinou de repente e depois desceu as patas ao sentir o chicote no flanco.
        Foi como se estivesse vendo um filme borrado e em cmera lenta. Num instante estava a uma boa distncia dos cavalos, tentando pensar no que ia dizer a Malcolm
para Zach no perceber que tinham desmanchado o noivado; no outro, estava olhando para cima, aterrorizada, incapaz de mexer um msculo, vendo as patas descendo sobre
ela... bem devagar... bem devagar...
        - Mellors! - Foi a voz de Zach, furiosa e cheia de autoridade, que quebrou aquele momento que parecia parado no espao. Foram seus braos que a arrancaram
do perigo para coloc-la, tremendo incontrolavelmente, a uma distncia segura da gua, que continuava inquieta.
        - Pelo amor de Deus, homem! Por que no fez alguma coisa? Ela podia ter morrido!
        A risada cida de Karen cortou o ar limpo da manh.
        - No seja ridculo! No houve tanto perigo assim. Ela devia ter sado do caminho. Parece que no sabe nada sobre cavalos.
        Todos pararam de falar, quando, repentinamente, um carro. surgiu vindo da alameda. com uma onda de alvio, Tamara reconheceu o automvel de Nigel e correu
para ele, ainda meio tonta.
        - Tamara, meu bem... - Nigel saltou. - Terminei meus negcios na Itlia antes do que esperava e vim ver como as coisas estavam indo. -
        112
        - Ela acaba de levar um choque muito desagradvel - explicou Zach, claramente tentando controlar o nervosismo. - Acho que vocs j estavam de sada - disse,
virando-se
        para Malcolm e Karen.
        -- Mas vim falar com voc sobre a caada - disse Malcolm, parecendo muito chocado com a grosseria. - E j que estou aqui...  hora de voc comear a ouvir
a voz da razo. Muitos moradores da regio no esto nada satisfeitos com essa sua ideia de encher este lugar de delinquentes juvenis...
        - Sim - interrompeu Karen, com sua vozinha aguda. - Meu pai  deputado e est totalmente contra essa bobagem. Ningum aprova!
        - No? - Tamara ouviu a voz de Zach ficar perigosamente calma e estremeceu, encostando-se em Nigel, que a amparava com seu brao protetor. - Bem, posso lhe
garantir uma coisa, srta... seja l qual for o seu nome. Vocs podem ser egostas e insensveis, mas h muitas pessoas por aqui que sentem compaixo pelos seres
humanos e que tm muito mais influncia do que seu papai deputado!
        Karen ergueu a cabea com uma expresso furiosa e fez a gua dar a volta, saindo trotando pela alameda. Malcolm foi atrs dela.
        - Sinceramente, acha que pode ser feliz vivendo com esse tipo de gente? - perguntou Zach a Tamara, assim que chegou perto dela. No suporto nem olhar para
eles!
        Ela no conseguiu encar-lo. Virou-se para Nigel e quase implorou:
        - Por favor, quero voltar para casa.
        113
        CAPITULO X

        - Vai ser fantstico! - disse Nigel, com um suspiro satisfeito, colocando de lado a ltima folha. Estivera relendo os trs captulos do livro de Zach.
        Apesar de fazer s uma semana que estava em Londres, Tamara tinha a impresso de ter datilografado aqueles originais numa outra vida.
        Sentia que nunca conseguiria agradecer ao chefe pela ao rpida e decidida naquele ltimo dia. com uma atitude competente e segura, ele a afastara daquele
lugar que poderia ter sido a cena de sua mxima humilhao, sem dar nem a Zach nem a Malcolm qualquer oportunidade de interrog-la.
        - Voc parece melhor - disse Nigel, depois de colocar os papis na pasta. - Como est se sentindo?
        - tima.
        J conseguia passar vrias manhs sem aqueles enjoos que tinham tornado sua vida to miservel no incio da gravidez, e, apesar do corpo ainda continuar
o mesmo, a conscincia daquele beb crescendo dentro dela lhe dava uma nova disposio, como se uma luz interior a fizesse brilhar suavemente.
        Ao pegar a pasta, viu um jornal sobre a mesa de Nigel e um pouco da cor fugiu de suas faces. Havia uma fotografia de Zach e Julie.
        - Os planos de Zach para a manso esto comeando a chamar a ateno da imprensa - comentou ele. - Teve alguma notcia dele, desde que voltou?
        - E era para ter? - perguntou Tamara, com um sorriso tristonho. Havia pena e mais alguma coisa.... admirao talvez... nos
        olhos.
        114
        - Talvez no, mas pensei que ele podia querer agradecer pelo excelente trabalho que voc fez. No deve ter sido fcil terminar tudo isso em to pouco tempo.
        - E no foi - concordou Tamara, pensando na tarde em que adormeceu exausta, e acordou para encontrar Zach em seu quarto.
        Tentava no pensar nele, mas no era sempre possvel. Algumas vezes, sua imagem aparecia subitamente diante de seus olhos, interpondo-se a qualquer coisa
que estivesse fazendo.
        Quando o telefone tocou mais tarde, Tamara atendeu distraidamente e levou um choque ao reconhecer a voz de Zach, que pedia para falar com Nigel.
        A conversa durou uns vinte minutos. Quando terminou, Nigel entrou no escritrio, passando os dedos pelos cabelos, com uma expresso to perturbada que Tamara
sentiu o corao acelerar.
        - Alguma coisa errada? Ele mudou de ideia sobre o livro?
        - No, nada disso. Quer que voc volte l para continuar o trabalho. Oh, est tudo bem - disse depressa, ao ver a consternao em seus olhos. - Eu lhe disse
que dessa vez no podia ser, que eu estava ocupado demais para dispens-la. - No precisou falar mais nada para Tamara perceber que Zach tinha feito algum tipo de
chantagem, ameaando no entregar o livro. - Parece que tem dvidas de encontrar outra secretria com o mesmo padro de servio que o seu. Voc sabe como os autores
podem ser difceis... - Nigel fez uma careta, falando por experincia prpria. - Se no tm as coisas que querem, no conseguem trabalhar.
        Na certa, Zach no estava encontrando ningum disposto a aguentar aquele seu ritmo extenuante e seus maus modos, pensou Tamara, irritada. Ou talvez, sentisse
falta de algum para atormentar.
        - No se preocupe - disse ele, novamente. - J lhe disse que de modo algum posso ficar sem voc. At me ofereci para encontrar algum; por isso,  melhor
voc comear a entrar em contato com as agncias para ver se podem arranjar uma secretria de gabarito. Parou por um instante. - Olhe, Tamara, sei que no tenho
nada a ver com isso, mas est certa de que ele  mesmo indiferente como pensa?
        - Ele tem prazer em me atormentar - respondeu, com amargura. -- Acho que  seu modo de me castigar. O fato de me desejar o faz ter conscincia de uma fraqueza,
e ele odeia fraquezas.
        115
        - Hummm. Bem, vamos ver o que poderemos arranjar. Olhe, ligue para James. Quero falar com ele sobre aquela capa do livro de Brian Balfour.
        Londres estava se derretendo sob uma onda de calor. Comeara logo depois da volta de Tamara, mas a previso do tempo j estava anunciando chuvas para o fim
da tarde.
        L fora, a umidade e o calor a tinham feito se lembrar de St. Stephen e foi com um suspiro de alvio que entrou no escritrio, fugindo daquela impresso.
        Nigel lanou-lhe um sorriso de admirao quando a viu.
        - Voc parece muito fresquinha com esse vestido - comentou com uma cara de inveja. Ele estava de palet e gravata. - Tenho uma reunio com a diretoria s
dez, mas vai levar uma hora, no mximo.
        Quando o chefe estava fora, o escritrio mantinha-se razoavelmente tranquilo. Tamara deu e atendeu alguns telefonemas e depois se lembrou da carta que o
carteiro lhe entregara quando estava saindo de casa.
        No conhecia a caligrafia. Estudou-a por um momento, antes de abrir o envelope.
        Era de Dot Partington, e a fez sentir uma onda de culpa por no ter se mantido em contato com a amiga como prometera. Muito longa e escrita no mesmo tom
alegre em que Dot falava, encheu-a de saudade. Decidida a reparar sua falta, pegou um bloco de papel e comeou uma resposta.
        Dot perguntava se ela e Malcolm j tinham marcado a data do casamento. Em vez de mentir, escreveu que tinha desmanchado o noivado, mas sem especificar por
que, devolvendo o anel a ele, assim que voltara do Caribe.
        Terminou a carta bem antes de Nigel chegar da reunio, que levara bem mais tempo do que imaginava.
        - Alguma coisa errada? - perguntou, ao ver a expresso preocupada do chefe.
        - No muito. Quer fazer o favor de ligar para Zachary Fletcher? Preciso falar com ele.
        Nigel falou num tom absorto, e Tamara sabia que, quando ele estava assim, era melhor no fazer muitas perguntas. Fez a ligao com dedos trmulos, sentindo
um n na garganta.
        116
        Tinha se preparado para ouvir Zach, e a voz estridente de Mie foi como um jato de gua fria. Gaguejou um pouco e quase se esqueceu do motivo pelo qual estava
ligando. No instante em que ouviu a resposta breve de Zach, dizendo "Fletcher", passou a chamada para Nigel. A luz vermelha na base do telefone, que indicava que
estavam conversando, ficou acesa por um bom tempo.
        Um outro autor entrou para uma entrevista, e, depois de v-lo esperando por mais de dez minutos, Tamara fez o que habitualmente fazia nessas circunstncias.
Escreveu um recado, informando Nigel de que a pessoa tinha chegado, e foi coloc-lo em cima da mesa do chefe. Quando abriu a porta, ouviu-o dizendo, quase com amargura:
        - Olhe, compreendo seu ponto de vista, Zach, mas no gostei do modo como passou por cima de mim. J tinha lhe dito que no podia ficar sem Tamara e era verdade.
Agora tive que enfrentar metade da diretoria me acusando de estar atrapalhando seu trabalho. - Olhou para cima e, ao ver o rosto plido de Tamara, disse, rapidamente:
Olhe, tenho que desligar agora. Falo com voc mais tarde. - E desligou.
        -  verdade? - perguntou ela, completamente esquecida do motivo da sua intromisso. - Foi por isso que eles o chamaram para essa reunio? Por que voc disse
que no podia me dispensar?
        - Esse foi um dos motivos. Deixei o chefo ler os captulos e ele est morrendo de entusiasmo. Na verdade, est to encantado que quer dar a Zach um tratamento
com luvas de pelica... todos os mimos possveis.
        - Quer dizer...? - A voz de Tamara era pouco mais que um sussurro.
        - No, voc no ter que ir. Consegui convencer os diretores de que posso arranjar para ele uma secretria to eficiente como voc.
        - E conseguiu convencer Zach? Nigel brincou um pouco com o lpis.
        - Ainda no, mas vou conseguir. No se preocupe.
        Foi mais fcil dizer do que fazer. Tamara passou o resto daquele dia quente e opressivo se preocupando muito.
        Apesar dos prognsticos da meteorologia, o calor continuou por todo o fim de semana. Tamara passou o domingo no parque, achando que um pouco de ar fresco
era tudo de que precisava para se sentir
        117
        melhor, mas voltou para casa com dor de cabea e muito inquieta. Desde que soubera que Zach estava pressionando Nigel, sentia-se inclinada a deixar o emprego.
Tinha bastante dinheiro guardado, mas suas economias no durariam para sempre; principalmente, com a chegada do beb. Poderia arranjar outro emprego,  claro, mas
nunca encontraria um chefe to flexvel e compreensivo como Nigel.
        Ainda no havia chegado a uma deciso, quando entrou no escritrio na segunda-feira. Nigel chegou s dez, com um ar preocupado, e mal
        falou com ela durante a manh.
        Tamara foi almoar na lanchonete que frequentava habitualmente. Apesar do seu apetite estar melhorando, sentiu-se completamente incapaz de comer qualquer
coisa e s pediu um copo de leite, dizendo a si mesma que faria bem para o beb.
        Ao voltar para o escritrio, ouviu vozes na sala de Nigel, que estava com a porta aberta. Intrigada, consultou a agenda. No se lembrava de qualquer compromisso
marcado para aquela hora. Estava imaginando que s podia ser algum membro da diretoria, quando Nigel parou de falar e, como se ele estivesse ali ao seu lado, ouviu
a voz de Zach.
        - Est bem, ento. Mas diga-me s uma coisa:  verdade que ela desmanchou o noivado logo que voltou do Caribe?
        Tamara aproximou-se da porta com passos pesados, todo o corpo tremendo em
        reao quela pergunta. Que direito ele tinha de estar interrogando Nigel desse jeito?
        Por acaso, queria descobrir alguma coisa para for-la trabalhar com ele?
        Sua inteno era fechar a porta para apagar aquela voz e o efeito que provocava nela. Porm, ficou parada, escutando.
        - Voc no tem nada com isso. - Nigel disse, calmamente.
        - E voc no vai mesmo deixar que ela venha trabalhar comigo?
        - No vou for-la a fazer o que no quer. E, antes que pergunte, no sei por que ela no quer ir, como tambm no sei por que voc est insistindo
        desse jeito.
        -  mesmo? - A frase saiu cheia de desdm. - Por acaso seria ingnuo da minha parte perguntar por que voc est tomando a defesa dela como se fosse um cavalheiro
andante?
        - Olhe aqui, zacn, estou fazendo tudo para no perder a pacincia. Tamara  minha secretria. Tambm  uma moa muito atraente, agora muito mais do que era
antes, porque conseguiu libertar
        118
        a mulher bonita que sempre foi, mas que mantinha presa atrs de um muro de reserva. Quanto a ns dois termos um caso, considero a insinuao um insulto.
Acontece que sou muito bem casado. A propsito, um estado civil que fao questo de recomendar acrescentou, num tom que deixou Tamara muito intrigada. - E ela...
bem. ela  uma moa que acredita muito no amor.
        Tamara no esperou para ouvir mais nada. Agarrou a bolsa e saiu correndo do escritrio, incapaz de se ver de novo frente a frente com Zach.
        Quando chegou na rua, a tarde estava escura e nuvens negras encobriam o horizonte. Tinha dito  recepcionista para avisar Nigel de que no estava se sentindo
bem e que ia para casa. Naturalmente, ele compreenderia.
        Resolveu tomar o nibus porque a estao do metro ficava a vrios quarteires de distncia. A viagem demoraria mais tempo, mas evitaria
        a chuva, que j estava sendo anunciada por relmpagos e troves. Logo, grandes pingos comearam a bater no asfalto quente. Quando chegou ao ponto de nibus,
Tamara j estava toda molhada.
        Com uma pequena exclamao de desnimo, viu seu nibus se afastando. Agora, teria que esperar pelo menos uns vinte minutos, e no havia nenhum abrigo por
perto.
        A chuva estava to forte, que nem reparou num automvel estacionando perto dela na calada. Continuou encolhida, protegendo o rosto com a bolsa. De repente,
a porta do carro se abriu e Zach inclinou-se sobre o banco para perguntar, num tom ameaador:
        - Como ? Vai entrar, ou vou ter que usar a fora? No tente fugir, Tamara - avisou, quando ela lanou um olhar assustado por cima do ombro. - No estou
com a menor disposio de ser gentil
        quando a agarrar... e pode apostar que vou!
        Foi s a certeza de que no conseguiria correr mais do que ele que a
        fez obedecer e entrar no carro, as roupas ensopadas pingando no
        luxuoso estofamento. - O que... como sabia onde me encontrar? - perguntou, j
        sabendo a resposta para a primeira pergunta que tinha comeado a
        fazer.
        - No foi difcil. A recepcionista ficou to alarmada com o modo como voc saiu que foi falar com Nigel. Fiz algumas perguntas e
        119
        cheguei  concluso de que voc escolheria o nibus para voltar para casa.
        Ela manteve os olhos abaixados, enquanto torcia as mos no colo. Um protesto abafado escapou de seus lbios, quando viu que no estavam indo na direo certa.
        - Para onde est me levando? Esse  o caminho errado!
        - E  um caminho que j percorremos demais -- respondeu Zach. muito srio. - Estou levando voc para o meu apartamento, Tamara. Precisamos conversar.
        - No temos nada a dizer um ao outro. No vou trabalhar com voc, mesmo que isso signifique que eu perca o emprego.
        - Por acaso eu disse que era isso que queria?
        Tamara no soube o que responder. Se no queria que ela trabalhasse para ele, por que a tinha seguido? A no ser,  claro, que quisesse se divertir s suas
custas, agora que sabia que o noivado estava terminado. com certeza, ia caoar dela por ter feito a jogada errada ao tentar a gravidez para pressionar Malcolm.
        Estremeceu de frio e medo, antecipando o que viria.
        - Voc est molhada at os ossos. - Zach apertou um boto e o aquecimento comeou a funcionar. - O que lhe deu na cabea para sair correndo daquele jeito?
com certeza no foi por medo. Ningum mais do que eu sabe como voc  capaz de enfrentar a morte com a maior valentia.
        Tamara quis suplicar-lhe para que no a magoasse mais, mas engoliu as palavras. J havia sido humilhada demais.
        Estava to envolvida em seus pensamentos, que nem notou que Zach tinha entrado numa garagem de prdio.
        - Para onde est me levando? - perguntou de novo, os olhos mostrando seu medo.
        - J lhe disse: para um lugar onde poderemos conversar sem sermos interrompidos.
        Abriu a porta e pegou-a pelo brao, empurrando-a para um elevador. Subiram num silncio pesado. Quando ele abriu a porta do apartamento, Tamara viu-se num
ambiente luxuoso que a fez tomar conscincia do estado lamentvel em que se encontrava. Suas roupas encharcadas pingavam no carpete claro e grosso.
        120
        Zach desapareceu por uma porta e voltou logo depois trazendo uma toalha de banho.
        - Tire essas coisas molhadas. Voc est ensopada. Vai ter sorte se sair disso sem nada pior do que um resfriado!
        Tamara olhou em volta, procurando desesperadamente por um banheiro... qualquer lugar onde tivesse privacidade.
        - Onde  o banheiro? - perguntou, com uma altivez gelada.
        - Ora, pelo amor de Deus!
        Zach atirou a toalha no cho com um palavro e comeou a despi-la com gestos rpidos e decididos, ignorando seus protestos e suas tentativas de afastar as
mos dele.
        S parou quando estava totalmente nua e no lhe deu a toalha, como Tamara esperava, ansiando para se cobrir. Em vez disso, comeou a esfreg-la vigorosamente,
aquecendo seu corpo, at os ossos.
        Tamara
        no saberia dizer quando os movimentos vigorosos comearam a se modificar, tornando-se sensuais. Num instante, estava ali, tremendo de frio, odiando Zach
com todas as foras, no outro, parecia que todo seu corpo reagia ao contato daquelas mos. O corao acelerou, despertado por um desejo primitivo e incontrolvel.
Seria impossvel esconder de Zach o que estava sentindo. Era como se aparecesse em cada linha de seu corpo, no calor que queimava em seus olhos e na doce promessa
da boca. Quando Zach ficou completamente imvel, ela no conseguiu evitar o protesto que escapou de seus lbios e tambm foi impotente para se impedir de
        cambalear, suplicante, na direo dele.
        - Tamara! - os olhos verdes tambm estavam cheios de desejo.
        - voc me quer?
        - Sim... sim - seu corpo parecia ter adquirido vontade prpria.
        suplantando completamente o raciocnio. Chegou perto de Zach e
        cobriu o rosto dele de beijos, sentindo-o estremecer. Foi com um triunfo feminino que viu-se tomada naqueles braos fortes e levada
        para o quarto.
        Sentiu o frescor da colcha nas costas e fechou os olhos, para no ver o desprezo no rosto dele.
        Por que no devia aceitar o que o destino estava lhe oferecendo? Ainda seria muito pouco, mas talvez a sustentasse pelo resto da vida.
        121
        - Diga que me quer - exigiu Zach, com arrogncia, inclinando-se sobre ela, examinando a perfeio sedosa de seu corpo.
        - Diga - insistiu, quando ela estremeceu ao toque de seus lbios no ombro.
        - Quero voc.
        Foi uma confisso rouca, ofegante, mas pareceu no satisfaz-lo, porque Zach prendeu-lhe os pulsos, os olhos escurecendo at ficarem quase negros.
        - No s diga, Tamara. Mostre.
        Esquecendo-se de tudo, Tamara comeou a desabotoar a camisa dele, cobrindo de beijos a pele que ia expondo.
        Parou um pouco incerta quando chegou  fivela do cinto.
        - Continue - disse Zach, rouco. - Pelo amor de Deus, no pare agora. Quero que toque todo o meu corpo, Tamara.
        Os gemidos de Zach a deixaram louca. Depois de alguns instantes, os lbios dele comearam uma doce e selvagem explorao de seus seios, muito mais cheios
agora por
        causa da gravidez. Quando a mo cobriu sua barriga ligeiramente arredondada, Tamara sentiu Zach ficar tenso. No havia mais desejo em seus olhos, mas uma
pergunta
        que a fez tremer.
        - Por que no contou a Mellors sobre o beb?
        - Eu...
        , - Achou que ele no ia casar com voc? Ou rompeu o noivado antes de ele saber? O rompimento foi logo depois da nossa volta do Caribe, no? No minta para
mim, Tamara. Sei a verdade. Sabe, Dot Partington me escreveu, contando fatos muito esclarecedores... como o fim do seu noivado. Ainda assim, voc permitiu que eu
acreditasse que continuava noiva, a ponto de eu sugerir que tinha engravidado de propsito para pressionar Malcolm. Por qu?
        Tamara tentou parecer indiferente, apesar de sentir um terror gelado invadindo seu corpo. Quis se levantar e fugir, mas o peso de Zach a prendia na cama.
Seu estmago se contraiu e, como se percebesse o movimento, Zach apertou seus pulsos.
        - O beb  meu, no ?
        - No quis que voc pensasse que tinha alguma responsabilidade
        - respondeu, nervosa. - Foi por isso que no lhe contei sobre o rompimento do noivado, que o deixei acreditar que a criana era de
        122
        Malcolm. Fiquei com medo de que voc exigisse um aborto confessou, pondo pela primeira vez em palavras seu maior medo. Zach balanou a cabea.
        - Eu errei ao avaliar a situao, como errei em todo o resto. Voc no estava se agarrando  sua virgindade simplesmente porque achava que ela poderia lhe
trazer um bom partido, no ?
        - Malcolm nunca... eu... eu sempre evitei homens que queriam sexo - admitiu Tamara, finalmente. - Sabe, minha tia... foi ela que me criou... me ensinou que
moas de bem no gostam desse tipo de coisa e que...
        - J entendi. - Zach interrompeu-a, bruscamente. - Quer dizer que voc vivia bastante satisfeita com seu noivado com Malcolm, contentando-se em esperar pela
noite de npcias para cumprir seu dever como esposa. Ah, sim! Mellors, aquele idiota,  o tipo de homem que jamais esperaria que voc sentisse prazer e que nada
faria para contribuir para isso.
        Tamara ficou corada com aquela franqueza, mas no negou. : - E agora? - perguntou Zach, finalmente.
        - Quer dizer sobre o beb? - Olhou para ele, aflita. - No precisa se preocupar com ele. No lhe direi que voc  o pai nem esperarei qualquer ajuda. Tenho
algum dinheiro, e Nigel me garantiu que posso continuar no emprego.
        - Quanta nobreza! - disse Zach, com um desdm selvagem. Mas pode dizer a ele para ficar com seu emprego: sou perfeitamente capaz de sustentar meu prprio
filho. Alm disso - acrescentou, entre dentes -, eu no estava me referindo ao beb. - Falaremos sobre ele depois. Estou falando sobre isso.
        "Isso" foi o modo como os nervos de Tamara formigaram de prazer quando ele a beijou, conseguindo dela uma resposta que at a chocou e assustou com sua sensualidade.
        - Tamara, escute - disse ele, afinal, pegando seu queixo e obrigando-a a olh-lo diretamente nos olhos. - H muita mgoa entre ns, muitos mal-entendidos,
desde o primeiro instante em que nos vimos. Quando fui passar frias em St. Stephen estava tentando me recuperar do que tinha acontecido na frica, como voc j
sabe. Estava confuso, cansado de tanta misria e crueldade, da violncia. A ltima coisa que eu podia querer era ver a pouca paz de esprito
        que
        123
        me restava destruda por uma criatura provocante, com um biquini minsculo, cujo corpo me deixava louco e cujos olhos prometiam a inocncia misturada com
a experincia
        ancestral de todas as mulheres. Sentindo que essa era outra violncia contra minha carne, agarrando-me desesperadamente  sanidade, me convenci de que voc
estava
        me tentando de propsito, querendo se divertir com a fora de sua atrao sobre os homens. E continuei pensando assim, apesar de todas as evidncias em contrrio.
Zach deu um suspiro e virou-se de costas.
        - Quando ficamos prisioneiros, tentei convencer a mim mesmo de que o que sentia por voc era s resultado da proximidade, uma coisa comum, que aconteceria
com qualquer outra mulher que estivesse comigo naquela situao. Mas... Lembra-se de quando fugimos?
        - Aquele homem... - Tamara estremeceu.
        - Era nossa nica oportunidade de fuga, eu sabia disso. Mas voc nunca poder imaginar o quanto me custou for-la a fazer aquilo. Foi ento que descobri
que estava me apaixonando por voc. J tive muitas mulheres na vida, mas aquele sentimento era to novo para mim, to estranho, que pus a culpa no meu estado de
confuso, no enfraquecimento da minha personalidade. No quis admitir, e s pensei em castig-la por se atrever a derrubar as poucas defesas que me restavam.
        - Mesmo quando destru sua virgindade... :- Viu Tamara empalidecer e sorriu, tristonho. - Acho que no  uma lembrana agradvel para nenhum de ns. Uma
parte de mim me odiava por eu ter feito aquilo, enquanto a outra lutava para desculpar meu ato, insistindo que voc era uma moa astuciosa, que estava guardando
sua virgindade para vend-la por um bom preo.
        - Estava certo de que ia esquec-la quando a deixei no hospital e fugi para a Inglaterra. Acho que foi a coisa mais covarde que j fiz. Depois de carreg-la
nos braos pelo resto do caminho, de banhar seu corpo febril, soube que estava perigosamente perto de sucumbir quele amor que eu ainda queria me convencer de que
era s uma paixo, uma exaltao dos sentidos.
        - Voltei para c, procurei mergulhar nos meus planos e no meu trabalho para esquec-la, mas no consegui. Finalmente, resolvi procur-la para implorar que
fosse minha, que casasse comigo... Foi
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        ento que a encontrei na casa dos Mellors. O choque quase me fez enlouquecer. Voc estava ali, mais linda do que nunca, transformada numa mulher sofisticada
e provocante...
        e era noiva do filho deles.
        - Rompi o noivado assim que Malcolm voltou de Nova York. Mas ele me convenceu a fingir que estvamos noivos s por mais aquele fim de semana, para dar a
notcia aos pais com mais calma.
        - E ele quase me encontrou fazendo amor com voc. - Zach sorriu, com os olhos fixos nos lbios macios de Tamara. - Foi pena, porque, se tivesse acontecido,
evitaramos tantas semanas de dor e agonia. Naquele dia, fui obrigado a enfrentar a verdade: eu a amava e voc era to inocente como parecia, quando fizemos amor
na floresta. Disse a mim mesmo que noivados podiam ser rompidos. At considerei a hiptese de procurar Malcolm para contar o que tinha acontecido: que possura voc,
que tinha sentido seu corpo ferver de desejo; que voc j era minha e seria minha para sempre. Foi ento que voc veio  minha casa...
        aquele maldito almoo... e descobri
        que estava grvida. No sei o que quis fazer em primeiro lugar... matar voc, matar Mellors ou me matar.
        Tamara acariciou a testa de Zach, alisando as rugas.
        - Fiquei apavorada com a ideia de que voc descobrisse a verdade e achasse que eu estava usando o beb para for-lo a um relacionamento que no queria ter.
Por isso, deixei que pensasse que ele era de Malcolm.
        - O fato de eu achar que estava grvida de outro homem no alterou o que sentia por voc o que me deixou ainda mais furioso. Quis castig-la. Por isso fiz
tudo para for-la a ir trabalhar comigo,
        mas fiquei quase louco com a proximidade. Minha vontade era faz-la confessar que me queria, que Mellors no significava nada. Mas voc continuava distante,
fria...
        At aquela tarde, quando voltei e a encontrei dormindo de exausto.
        - Eu queria muito fazer amor com voc, Zach. Mas estava com medo que descobrisse o meu amor. E tambm havia Julie... Ele encolheu os ombros.
        - Uma amiga. Mais uma das mulheres da minha vida, sem o menor significado. Confesso que a usei para despertar seu cime.
        - E conseguiu - disse Tamara, numa vozinha tristonha.
        - Aquele maldito Mellors! Tive vontade de esgan-lo, quando no
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        fez nada para impedir o cavalo... Quase perguntei se no se incomodava com voc e com seu filho.
        - Tive tanto medo disso! No imagina como fiquei aliviada, quando vi Nigel chegando. Nunca conseguirei agradecer a ele por me salvar daquela situao.
        - Sim, notei o quanto voc gostava dele e isso me deixou ainda mais transtornado.
        - No foi muito justo voc passar por cima dele e ir falar com a diretoria.
        - Eu estava apaixonado e no pensei no que seria justo ou injusto. Queria ter voc perto de mim a qualquer custo. Foi ento que recebi a carta de Dot, onde
ela me perguntava o que eu achava do rompimento do seu noivado.
        - Ouvi voc perguntando a Nigel sobre isso e fiquei muito assustada. Sabendo a verdade sobre o rompimento, voc ia somar dois mais dois...
        - E chegar a um resultado de trs? - completou Zach, olhos verdes sorrindo, enquanto acariciava a curva suave da barriga de Tamara.
        Seus msculos se contraram quando ele abaixou a cabea para beijar seu ventre ligeiramente arrendondado. Tudo que era feminino e instintivo comeou a crescer
dentro dela, com a promessa sensual daquele toque.
        - Meu... - murmurou Zach. - E voc tambm  minha, s minha, toda minha - disse, por entre beijos. - Sabe,  claro, que a chegada do beb vai provocar muito
falatrio.
        Tamara encolheu os ombros.
        - Hoje em dia, h muitos casais que no so legalmente casados... .
        - Mas no seremos mais um deles - disse Zach, num tom decidido. - O que quis dizer  que ele vai nascer poucos meses depois do nosso casamento. No poderemos
nem mesmo alegar que  prematuro.
        - No me importo. - Tamara ficou surpresa com suas palavras, que mostravam o quanto tinha se libertado das convenes impostas por tia Lilian. - No tenho
vergonha do que aconteceu entre ns. Foi
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        a coisa mais linda da minha vida. Guardei a lembrana como um tesouro, imaginando que nunca mais ia experiment-la.
        - Voc estava completamente enganada, no ? - Zach abraou-a com fora, deixando-a sentir todo o calor do seu desejo. vou lhe provar isso no instante em
que me prometer casar comigo assim que for legalmente possvel.
        - E se eu no quiser? - brincou Tamara. Zach afastou-se um pouco, muito srio.
        - Ento, tudo que houve ser uma nica e solitria lembrana disse, quase com rispidez. - Quero voc como minha esposa, Tamara, como a me dos meus filhos,
no, como algum com quem se compartilha alguns momentos de prazer fsico. Quero tudo ou nada. E ento?
        Os braos abertos e os olhos brilhantes de Tamara lhe deram a resposta. Quando ele a beijou, abraando-a com fora, ela se entregou ao prazer fsico, sabendo
que, pela primeira vez, estava sendo possuda com amor. Um imenso amor!
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        Fim
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